Os desafios que o novo líder dos conservadores tem pela frente

Sunder Katwala
Em Londres

O advento de David Cameron como líder eleito dos Tories (a sua escolha impediu que uma grave crise se instaurasse neste que é o Partido Conservador inglês) traz um competidor eleitoral crível assim como oferece uma oportunidade política para o seu adversário --o próximo líder do Partido Trabalhista, Gordon Brown.

Neste campo, uma agremiação sabe que ela instaurou uma mudança política de longo prazo quando ela consegue converter seus opositores. Tanto Clement Attlee (primeiro-ministro trabalhista de 1945 a 1951) como Margaret Thatcher (conservadora, premiê de 1979 a 1990) lograram este resultado. Mas a dupla Blair/Brown, os líderes no novo Partido Trabalhista (New Labour), se encontra apenas no meio do caminho no desenvolvimento deste processo.

A crítica que está por trás da frase de Gordon Brown, quando ele se referiu ao "consenso progressivo", é a de que o Partido Trabalhista ainda está por vencer as grandes discussões públicas que estão pela frente, as quais são necessárias para consolidar um "novo senso comum" no campo da política britânica em torno dos valores do centro-esquerda. Paradoxalmente, o renascimento dos Tories poderia acelerar este processo.

Um partido Tory à deriva --que nunca conseguiu recuperar sua base de eleitores nas pesquisas desde 1992, depois da crise do ERM (iniciais em inglês de Mecanismo de Taxa de Câmbio, um sistema praticado por alguns bancos centrais da União Européia, que intervinham nos mercados de câmbio para limitar as discrepâncias entre as suas moedas enquanto essas eram mantidas num dispositivo de flutuação coletiva)-- tem sido o fato central da recente evolução política britânica, permitindo a Tony Blair dominar o centro da cena sem qualquer competição. A sua estratégia tem se baseado em dois conceitos fundamentais.

O primeiro reza que o sucesso econômico e a justiça social podem --e devem-- andar juntos. Esta permanecerá a doutrina central dos trabalhistas liderados por Brown, enquanto os jovens Tories sob a direção de Cameron buscarão definir uma linguagem de centro-direita de modo a fazer uma reivindicação semelhante. É de se esperar um amplo consenso em torno das questões macroeconômicas.

As divergências mais sérias se darão em torno da questão de saber se a ação do Estado pode aprimorar a produtividade e o crescimento no longo prazo, e como utilizar os lucros decorrentes deste crescimento. Enquanto Blair e Brown querem refinar um "Estado capacitador", a direita tende a considerar que a globalização torna tal meta um luxo impossível de ser alcançado.

O segundo conceito central da estratégia de Blair tem sido a "política da armadilha do impedimento" --que consiste em avançar em termos retóricos dentro do território dos Tories e em deliciar-se ao ver até onde os conservadores têm de ir para buscar sua "água clara e límpida", sendo empurrados cada vez mais para a retranca, ou seja, a direita.

Uma tal estratégia permite vencer eleições. Mas será que ela permite qualquer mudança? De fato, ela não consegue obrigar os conservadores a se envolverem com as questões que estão no cerne das preocupações dos trabalhistas. E se os Tories recuperarem efetivamente sua atratividade junto à principal corrente eleitoral, esta estratégia deixará de funcionar.

O desafio de Gordon Brown é conseguir refutar a tese segundo a qual o centro-esquerda conseguiu chegar ao máximo das suas possibilidades; de que o alcance, as limitações e as concessões das ações do New Labour durante a sua fase Blair-Brown, de 1997 a 2006-07, marcam os limites do que é possível realizar no quadro de uma agenda democrática e social, numa sociedade consumista e individualista.

Embora os trabalhistas tivessem demonstrado que eles podem governar e promover reformas, houve inseguranças pontuais que levaram a questionar sua capacidade de redefinir a política britânica. O argumento do consenso progressivo sublinha que o partido trabalhista pode ser ao mesmo tempo mais radical nas suas ações e sério quando se trata de se manter no poder; mais do que isso, ele sugere que um governo envelhecido será inevitavelmente derrotado pelas reclamações acumuladas dos eleitores, a não ser que ele consiga estabelecer uma nova "missão".

Brown precisar mostrar que a política implementada pelo novo centro não precisa ser definida apenas em torno das questões econômicas e das que envolvem os serviços públicos, ou seja, as duas áreas que definiram o alcance da ação do centro ao longo dos últimos dez anos.

Outras questões --tais como as mudanças demográficas, o meio-ambiente, a devolução de poderes para as coletividades locais, a restauração da confiança na política, a integração e a cidadania britânica - irão proporcionar o novo conteúdo da batalha entre esquerda e direita no decorrer da próxima década.

Se os conservadores seguirem determinando o clima político, Brown precisará se inspirar no relativo sucesso do New Labour em relação aos serviços públicos, divulgando com mais afinco sua argumentação sobre as desigualdades. Então, os modernizadores do partido tory poderão ser desafiados no seu próprio terreno de adeptos da meritocracia - com a mobilidade social praticamente paralisada, será que eles aceitarão o fato de que a igualdade de oportunidades depende de intervenções políticas sustentadas visando a romper o círculo vicioso das chances de vida desiguais?

A meta de reduzir as desigualdades escorou grande parte da política interna do governo e tem sido prosseguida por meio de um processo de redistribuição discreto. A "pregação ameaçadora" do poder funciona melhor em debates públicos organizados, principalmente se as autoridades se concentrarem naquele grande debate sobre a "condição da Grã-Bretanha" conforme eles querem. Para Thatcher, era a necessidade de reduzir os custos de um Estado cujo tamanho era desmedido e de ampliar as liberdades individuais.

O New Labour venceu a disputa em torno dos investimentos e das reformas nos seus primeiros dois mandatos. Mas se a crítica fundamental que o partido trabalhista faz à sociedade britânica é de que as chances de subir na vida são por demais desiguais e que, portanto, é preciso tentar torná-las menos discrepantes, ele não comunicou isso ao público. Em vez disso, o foco pós-eleição sobre a necessidade de restaurar o respeito pela sociedade arriscou-se a descer até o nível da "initiativitis" (termo que define uma abordagem ativa das autoridades na tentativa de solucionar problemas sociais), na base do "algo precisa ser feito".

David Cameron precisa conquistar a credibilidade no plano dos serviços públicos e dos gastos do setor público caso ele quiser se tornar a valer um dos protagonistas do jogo. A sua dificuldade está no fato de que apenas admitir a derrota não é suficiente. O seu argumento de que os conservadores podem ter "um pouco do seu bolo e comer o resto", dividindo "os dividendos do futuro crescimento" entre maiores despesas e cortes de impostos, é precisamente o mesmo que havia sido defendido por Oliver Letwin durante a última campanha.

Mesmo promessas de igualar os gastos dos trabalhistas podem não ser suficientes caso elas forem motivadas antes por obrigações eleitorais ("nós adoraríamos retalhar os Estado, mas os eleitores não concordarão com isso"), do que por convicções. Os trabalhistas tiveram o mesmo problema para conseguir se entender sobre a questão do papel do mercado.

Este pode ser o grande equívoco do Novo Partido Conservador de Cameron. Durante 30 anos, a grande obsessão da direita tem sido de diminuir o tamanho do Estado. O flerte com a "flat tax" ("imposto achatado" - o contribuinte paga uma taxa única, a mesma para todos, não vinculada à sua renda) mostra que ainda é em torno desta questão que a energia intelectual da direita está concentrada. Ela continua sendo a agenda que mais anima os grupos de reflexão da direita e de cérebros e líderes na Câmara dos Comuns que apóiam Cameron, tais como George Osborne e Letwin.

Acertadamente, Cameron andou apontando para o problema, explicando ao seu partido que é "necessário mudar nossa atitude em relação aos serviços públicos" de tal forma que "promover gastos em setores tais como a educação e os transportes é uma abordagem positiva, não necessariamente uma coisa má".

Ainda assim, a observação que ele chegou a fazer: "Não creio que qualquer pessoa acorda de manhã e pensa 'Puxa, eu gostaria que a máquina do Estado seja menor hoje do que era ontem"', é ambígua. Isso implica que o problema está na maneira de apresentar as coisas.

A estratégia pode ser de explicar à opinião que ele é agnóstico no que diz respeito ao tamanho do Estado --é a qualidade dos serviços que importa-- enquanto ele sinaliza para o seu próprio partido que, ainda que ele não queira repetir o compromisso moral de William Hague (líder do partido conservador de 1997 a 2001) em defesa de uma máquina estatal menor, ele compartilha os mesmos objetivos no longo prazo.

Apesar de Cameron ter sido caracterizado como sendo um "Tory Blair", há diferenças cruciais entre os seus progressos e a saída do deserto que os trabalhistas empreenderam nos anos 80 e 90. Enquanto o New Labour foi bem-sucedido ao se projetar como um projeto que partia do zero, tal estratagema comportava uma parte importante de mito. De maneira decisiva, a renovação do campo trabalhista envolveu uma estratégia eleitoral, uma reformulação intelectual, uma agenda de reformas do partido e mudanças nos seus quadros, todas as quais apontavam para uma mesma direção, antes de o novo líder aparecer para amarrar tudo de modo coerente.

O episódio simbólico da Cláusula IV (mudança decisiva do conteúdo desta cláusula, que consta do programa do partido trabalhista) foi um golpe de mestre político. Mas os modernizadores do New Labour já haviam vencido uma série de batalhas políticas no decorrer das décadas precedentes para tornar esta mudança possível.

O episódio desastrado de um militante de 82 anos durante uma conferência do partido em Brighton (em 28/09) e a introdução do princípio "um membro, um voto" sob Neil Kinnock e John Smith; a implantação de uma nova estratégia eleitoral visando a atrair os eleitores hesitantes do Sul --que foi descrita nos panfletos de Giles Radice sobre a Fabian Society (grupo militante socialista) intitulados "Southern Discomfort" ("Desconforto no Sul")--, todos esses episódios combinaram com perfeição com a renovação política e intelectual do partido e da sua agenda visando a implementar uma maior justiça social, uma renovação conduzida por David Miliband e Patricia Hewitt no IPPR (Instituto de Pesquisas sobre Políticas Públicas).

Uma geração emergente de políticos e conselheiros trabalhistas compartilhava a análise daquilo que precisava ser mudado - enquanto o aumento considerável do número de mulheres candidatas consolidou a guinada cultural. Dizer que a imagem pública veio por último não equivale a subestimar as realizações de Tony Blair. Ele promoveu modificações em todas essas frentes, substituindo uma mentalidade que indagava: "Até que ponto uma mudança é necessária para nós vencermos?" por uma "estratégia de fuga" que foi recompensada pela maioria esmagadora de votos que os trabalhistas conquistaram nas duas últimas eleições.

Por contraste, os modernizadores conservadores estão dando uma nova largada, com novos rostos, mas não muito mais do que isso: as idéias, a reforma do partido, a correção de rumo cultural e a renovação dos quadros ficam para depois. Mas a meta de criar algo que seja ao mesmo tempo popular e coerente vai ser difícil. A tradição de moderação do partido - as celebrações eurófilas dos Tories - pode ter sido questionada, mas nunca arrefeceu.

Portanto, daqui para frente teremos de lidar com Cameron, a grande esperança dos modernizadores do partido, um homem formado na escola de Norman Lamont e Michael Howard. A sua geração firmou seus votos de lealdade durante os anos Thatcher e tende a consolidar um ceticismo robusto em relação à Europa.

Será que a estratégia eleitoral --a análise do "desconforto urbano" da qual os Tories precisam se eles quiserem vencer nas cidades - se harmoniza com a orientação dos debates intelectual e político, assim como aconteceu com o New Labour? Parece pouco provável.

Muitos grupos de reflexão oriundos da era Thatcher estão concentrados em valorizar as glórias do passado. Grupos conservadores de reflexão sobre mudanças políticas e econômicas estão tentando unificar uma abordagem modernizadora coerente, mas, num plano da política social, a defesa que o Civitas (Instituto britânico de pesquisas sobre a sociedade civil) faz do conservadorismo social supera de longe tudo o que a direita liberal pode ter proposto anteriormente. Os novos grupos de reflexão da "nova geração", tais como o Reform (formalmente pluripartidário, mas cujo coração bate claramente à direita) estão focalizados na agenda do "menos Estado".

A direita sabe que ela precisa fazer concessões ao seu eleitorado --mas ela não acredita ter se saído tão mal assim nas últimas eleições.

Se Cameron for realmente sério quando ele propõe uma nova base de sustentação ideológica para o partido conservador, a sua missão deve ser de substituir o "vamos encolher o Estado" definido durante a era Thatcher como um elemento decisivo da política de governo. A alternativa é de buscar uma linguagem mais atraente para reabilitar uma forma atualizada de thatcherismo. Ambos os caminhos significam o surgimento de conflitos internos. O partido está dividido no meio: 108 membros do Parlamento votaram em favor de Liam Fox ou David Davis; 45% dos membros do partido tory querem se mudar para o centro, enquanto 48% querem "água azul límpida".

Por enquanto, a tendência da moda na política e na mídia, as quais procuram desesperadamente por um embate mais empolgante, favorece o advento da nova figura de David Cameron. Os modernizadores do partido conservador sabem que este período de euforia será seguido em breve por uma ressaca, á medida que a dimensão das tarefas que ele tem pela frente se tornar mais aparente.

Um eminente aliado de Cameron me diz que os modernizadores precisam definir uma estratégia para um período de oito anos - com a esperança de contar com um pouco de sorte no intervalo. Se Cameron precisa mesmo de um total de oito anos para estabelecer o equivalente conservador do New Labour, eles darão a Gordon Brown todo o tempo necessário para descobrir se um consenso progressivo é realmente possível na Grã-Bretanha. Para competir com o arrojado New Labour de Tony Blair, David Cameron deverá renovar as desgastadas concepções herdadas da era Thatcher e modernizar por completo seu partido Jean-Yves de Neufville

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