Nick Hornby troca a literatura "de um homem para outros " pela literatura pura e simples

Jonhatan Heawood

Nick Hornby é o seu nome verdadeiro. Mas é também um pseudônimo ideal para um escritor que pretende evocar o mundo dos pais, dos filhos e dos trens elétricos dos anos 70. Talvez seja a sua qualidade acidental de homem igual a qualquer outro que preservou até hoje os livros de Hornby de se tornarem o foco de atenções críticas sérias. Além disso, o fato de vender milhões de cópias tampouco contribuiu para que isso aconteça.

Agora que o seu mais recente romance foi indicado para concorrer ao Prêmio Whitbread (atribuído anualmente aos melhores livros novos, escritos por residentes britânicos, publicados no Reino-Unido), Hornby está tendo de sofrer o processo de ser reconsiderado como um autor literário.

Será que a sua aceitação como integrante da cultura literária marca o fim da "lad lit" (expressão que significa literatura escrita por homens, para homens, subgênero em expansão no mundo editorial que enfoca questões comportamentais tipicamente masculinas e que gerou vários best-sellers), o gênero que ele ajudou a inventar? Será que isso significa que a suposta crise da masculinidade acabou?

Ou será simplesmente uma forma de reconhecer que "A Long Way Down" (traduzido em Portugal como "Um Grande Salto"), o quarto romance de Hornby e o seu primeiro em quatro anos, é um livro significativo que merece um lugar em qualquer lista dos melhores do ano? As respostas se encontram em algum lugar da estrada por onde ele levou seus leitores desprevenidos, da "lad lit" para o existencialismo.

Com o seu primeiro livro, "Febre de Bola" (editora Rocco), Hornby inventou um gênero literário e um gênero humano. Já faz parte do folclore do mundo editorial britânico o fato de que a prensagem inicial do livro teve que ser aumentada drasticamente, em função de uma procura muito superior ao previsto.

Os editores de Hornby se mostraram lentos para entender o que ele havia feito com essa estranha pequena autobiografia sobre a sua obsessão pelo Arsenal, o clube de futebol londrino. Mas os resultados devem ser procurados em listas de best-sellers e junto aos aficionados do "five-a-side pitches" (futebol jogado a cinco contra cinco, em quadras pequenas, parente do futebol society jogado no Brasil) por todo o Reino-Unido, e onde quer que homens que ingressaram na meia-idade e que já vêm perdendo seus cabelos se reúnem para comparar suas anotações sobre trabalho e vida.

Será que todos nós vivemos numa versão de algum romance de Hornby? - Ora, não podemos tê-lo como o único responsável por ter dado à luz uma geração de homens educados na universidade, porém emocionalmente perturbados, mas o que ele fez foi dar-lhes uma identidade e um modo de pensar sobre eles mesmos que se alastrou por toda a cultura britânica.

O próprio Hornby exemplificou essa espécie em "Febre de Bola", e através das suas contrapartidas ficcionais que são os personagens de Rob em "Alta Fidelidade", de Will e Marcus em "Um Grande Garoto", aos quais não demoraram a se juntar Egg, na série da BBC2 "This Life" ("Esta Vida"), Adam na série "Cold Feet" ("Pés Frios") da ITV, assim como a maior parte dos jovens protagonistas masculinos de quase todos os sitcom televisivos desde meados dos anos 90.

É o marco do ascendente genérico que Hornby exerceu sobre a imaginação popular durante os anos 90 o fato de que três atores muito diferentes - Colin Firth em "Febre de Bola", Hugh Grant em "Um Grande Garoto" e John Cusack em "Alta Fidelidade" - puderam desempenhar seus papéis masculinos sem perderem de vista o personagem de Hornby (embora provavelmente apenas Cusack fosse equipado a valer para evocar a melancolia no que ela tem de mais profundo).

Por meio disso tudo, Hornby, ansiosamente - porém de forma proveitosa - conseguiu tranqüilizar seus leitores em relação ao fato de que um homem pode ler livros, ser amigo de feministas ou até mesmo chorar - e ainda assim continuar sendo um homem. O fato de muitos dos seus leitores serem de fato mulheres é significativo: elas também precisavam ser tranqüilizadas em relação ao jovem rapaz confuso que elas haviam fisgado, e se convencerem de que eles são verdadeiros machos da espécie, mesmo se - assim como Katie em "Como Ser Legal" acaba descobrindo - as esposas hoje são arrimos de família e disciplinadoras.

Com a sua série de personagens, todos perdedores e bebedores contumazes de cerveja sem qualquer ambição séria na vida, Hornby ofereceu consolo a ambos os sexos, embora ele continuasse também a alimentar as fogueiras das neuroses. Ao indagar de maneira tão insistente "O que é um homem?", Hornby sugeriu que esta pergunta é a única que importa. Contudo, em vez de propor uma resposta definitiva, ele introduziu na consciência popular uma espécie particular de homem - o Homem de Hornby - e sugeriu que este definia o gênero tal como ele era no final do século 20.

O Homem de Hornby é obtuso, embora não a ponto de ser idiota. Ele acha as mulheres ao mesmo tempo desejáveis e incompreensíveis, e encontra consolo praticando atividades inócuas que não passam de pura perda de tempo. Além disso, é um fazedor de listas compulsivo. O Homem de Hornby está à espreita da linhagem do narrador de Mark Haddon em "O Estranho Caso do Cachorro Morto" (editora Record) - um menino que sofre da síndrome de Asperger.

O desejo de ordenar o mundo conforme uma série de seqüências e de rotinas é um sintoma bastante conhecido da doença de Asperger, e, de maneira mais geral, do autismo, enquanto o Homem de Hornby pode ter contribuído para popularizar a noção de que o autismo é uma exageração de um viés do "cérebro masculino" - ironicamente, porque sendo Hornby pai de um filho gravemente acometido de autismo, ele poderia agora contestar esta metáfora sobre uma condição tão debilitante.

De certa forma, à medida que a sociedade como um todo se tornou mais fascinada do que nunca pelo autismo, a ficção de Hornby foi perdendo um pouco do seu interesse (enquanto isso, na vida real, ele se tornou um defensor da tese segundo a qual é preciso ministrar uma educação especial para crianças nesta condição, a ponto de fundar sua própria escola para crianças autistas).

Se voltarmos a considerar personagens tais como Nick, Rob e Will, entre outros, é possível enxergar suas capacidades latentes de empatia e de livre expressão que acabaram soterradas pelas suas constantes mudanças de posição e de lugar.

Em "Febre de Bola", Hornby descreve sua crescente paixão pelo futebol como sendo provocada pela perplexidade: na época, a ruptura dos seus pais não fazia sentido para ele. Ao atribuir um sentido ao futebol, ele consegue driblar esta lacuna na sua psique. De modo similar, a música em "Alta Fidelidade" permite a Rob evitar a obrigação de crescer; as seleções musicais que ele grava em fitas não são uma condição da sua masculinidade, e sim um freio para ela. Por fim, quando Will, em "Um Grande Garoto", descreve a si mesmo como "um dos visitantes da vida", não é uma tática de escape que o livro celebra.

David, em "Como Ser Legal", exemplifica o Homem de Hornby no momento em que este alcança o limiar da meia-idade: brigão, com desempenho abaixo da sua capacidade, a sua única fonte regular de renda provém de uma coluna que ele escreve num jornal local, e que leva o subtítulo de "O Homem Mais Zangado de Holloway".

Contudo, ele é um personagem secundário em relação à sua mulher depressiva, pois é ela quem conduz a narrativa. Assim como Hergé finalmente acabou se cansando de Tintin, passando a dedicar suas atenções nos livros mais tardios para o alter ego menos idealista que representa o capitão Haddock, por volta de 2001 Nick Hornby parecia estar perdendo a paciência com o Homem de Hornby, e, no lugar dele, começou a criar uma série de mulheres que apresentam muitos desses mesmos sintomas - alienação, isolamento, dúvidas sobre si mesmas, e por aí vai.

"O Grande Salto" retoma a narrativa no ponto exato onde "Como Ser Legal" a havia deixado, com uma mulher olhando para um ponto impreciso com um olhar vago. Logo se juntam a ela três outros personagens cuja depressão também conduziu até o topo de um edifício-torre na noite de Ano Novo. Maureen, Martin, Jess e JJ chegaram até lá cada um por conta própria, todos movidos pela intenção de cometer o suicídio.

No meio desta madrugada, eles acabam ficando distraídos do seu objetivo e combinam de se reunir novamente seis semanas depois, no Dia dos namorados. Seguindo o conselho de um "suicidólogo", as seis semanas se transformam em 90 dias, enquanto os "Hamlets de Hornbury" decidem se eles irão ou não pôr um fim a tudo.

As primeiras 80 páginas deste livro estão entre as melhores que Nick Hornby já escreveu. Tudo funciona como se, ao se dedicar ao estágio central da depressão, a sua habilidade em criar situações de comédia tivesse ficada revigorada. O elefante está efetivamente dentro da loja de porcelana, e agora que nós estamos livres para falar a respeito desta questão, também podemos rir dela.

Ninguém se atreveria a sugerir que os personagens de Hornby possuem a profundidade de um Tolstoi (1828-1910) ou o vigor de um Waugh (Evelyn Waugh, escritor inglês, 1903-1966), mas estas não são comparações tão absurdas assim. A hilariante primeira parte de "O Grande Salto" possui a qualidade doidivana de "Declínio e Queda" (de Waugh) no que este livro tem de mais amargo, enquanto o restante do livro desce nas profundezas de uma meditação sobre o valor da vida, apesar de utilizar palavras de poucas sílabas.

Seria equivocado dizer que os romances de Hornby mudaram. Eles certamente se tornaram mais sofisticados, e dotados de uma maior variedade de personagens e de situações, enquanto eles também tratam de alguns conceitos que teriam agradado a GK Chesterton (Gilbert Keith Chesterton, escritor inglês, 1874-1936). Ainda que desde o princípio, a sua escrita tivesse sido informada pelos tropos puros e duros da auto-ajuda; nas palavras de um manual popular, Hornby está inteiramente voltado para "aprender a amar o que é".

Ora, o problema estético que caracteriza o amor do que é (em oposição a lutar por coisas tais como elas poderiam ser) é que ele pode resultar numa conclusão particularmente chocha e sem graça para um romance. Se, de um lado, nós leitores não estamos autorizados a submeter nossa fé a transformações, então, tampouco acontece qualquer coisa que permita, de outro, a instauração de uma catarse. Ao evitar recorrer às clássicas consolações da trama, Hornby coloca um fardo pesado sobre a escrita, a qual nem sempre se mostra à altura do desafio. Os seus romances têm o curioso costume de desandarem na sua segunda metade.

"O Grande Salto" alcança seu ápice no meio, quando os sobreviventes do suicídio se preocupam com o fato de terem sido salvos no teto daquele prédio por um anjo parecido com Matt Damon. Uma vez que esta bolha de vida curta foi estourada, eles são abandonados à própria sorte, e seguem caminhando com dificuldades.

Não é de surpreender que Hornby seja levado mais a sério na América do que na Grã-Bretanha. Em 1999, ele foi contemplado com o prêmio EM Forster pela Academia Americana de Artes e Letras, e agora ele foi recebido de braços abertos pela multidão de jovens escritores revelados pela revista literária McSweeney. Hornbury, com as suas frágeis obsessões típicas da classe média, pertence muito mais às periferias nova-iorquinas da imaginação de Philip Roth do que à Londres dos contemporâneos de Hornby. Em sua nova safra de histórias sobre rapazes principiantes, porém expressivos, escritores americanos tais como Jonathan Safran Foer, Dave Eggers e Jonathan Lethem vêm fazendo eco a alguns dos temas abordados inicialmente por Hornby.

Em termos de estrutura e de estilo, "O Grande Salto" está longe de ser perfeito. Ainda que são poucos os autores literários que conseguiriam fazer sucesso com o tipo de narrativa melancólica e muito pouco redentora que Hornby andou produzindo ao longo dos últimos dez anos. O fato de proceder desta forma, operando nos confins do gênero da ficção, e vender essas fábulas em quantidades tão consideráveis revela uma espécie de genialidade na arte de identificar e responder aos mais profundos anseios culturais sem assustar os leitores.

De vez em quando, Hornby diz aos seus leitores que, mesmo que eles não consigam aprender a amar o que é, eles precisam ao menos aprender a conviver com o que é. Será que "O Grande Salto" deveria vencer o Prêmio Whitbread? Não. Mas, ainda assim, Hornby merece certamente ser levado a sério. O autor de "Alta Fidelidade" lança seu novo livro, "O Grande Salto", que acaba de ser indicado para concorrer ao Prêmio Whitbread de melhor obra de ficção criada por um britânico em 2005. Será que agora ele merece ser levado a sério como escritor? Jean-Yves de Neufville

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