Cuidado com os negócios da China!

Mark Kitto
especial para a Prospect

"Tenho boas notícias", disse o Sr. Yuan da editora China IntercontinentalPress. Ele retirou seus óculos e olhou fixamente para um ponto abaixo do meu ombro direito. "Os meus dirigentes concordaram, em princípio, criar uma jointventure [parceria] com vocês". Era o início de 2004 e estávamos sentados num apartamento decorado no estilo casa de campo despojada, a cerca de uma hora de táxi do centro de Pequim, perto do antigo Palácio de Verão.

Enquanto o Sr. Yuan ia falando, eu mal podia acreditar no que estava
ouvindo. A sua editora era controlada pelo Conselho de Informação de Estado da China, a máquina de propaganda do partido comunista. Até então, ninguém tinha ido tão longe, nem mesmo Rupert Murdoch (de fato, poucas semanas depois da minha reunião, ele admitiria ter "percutido uma parede de tijolos" na China). A única exceção, em parte, era Li Ka-Shing, o homem o mais rico de Hong-Kong, dono de investimentos maciços em propriedades na China e de uma parceria na mídia, com uma importante revista semanal chinesa. Eu havia construído um "mini-império das comunicações" na China, conforme o "Financial Times" o havia descrito, e agora eu me preparava para tornar-me proprietário de uma parte dele.

Nenhum indivíduo sozinho é "proprietário" de meios de comunicação na China. Só o governo. A indústria é controlada por autorizações, emitidas por entidades governamentais para outras entidades governamentais. Mas os administradores chineses têm muitas dificuldades para fazer com que os veículos de comunicação rendam algum dinheiro. Com isso, a imprensa tornou-se a atividade a mais severamente controlada, e mesmo assim a mais frouxamente gerenciada, nesse Estado contraditório.

E naquele momento, um homem que usufruía uma linha direta com as mais altas autoridades na mídia chinesa estava me oferecendo, a mim, um estrangeiro, uma participação num negócio no campo das comunicações.

Essa história toda começou por acaso. Tudo o que eu queria era ser um
jornalista. Mas as coisas acontecem muito depressa na China, e, em 1998, oito meses apenas depois de ter desistido da atividade mercantil que me trouxera de volta para cá, após ter estudado aqui nos anos 80, eu havia me tornado o co-editor de duas revistas da cidade. Junto com a minha parceira de negócios, Kathleen Lau, uma americana de origem chinesa, eu comecei em Guangzhou em 1997 com um simples jornal dirigido à comunidade de expatriados. Após seis meses passados na implantação de "Clueless" ("Sem Indício" ou "Sem Vestígio") em Guangzhou, Kathleen e eu havíamos aprendido tudo o que pensávamos ser preciso saber sobre a atividade de publicar uma revista na China. Nós estávamos prontos para tentar a grande aventura. Então, nos mudamos para Xangai e implantamos aquilo que se tornaria a grande obra da minha vida, "Ish" ("Em Xangai"), a revista mensal que deu à luz um novo estilo de publicação.

Eu sempre odiei a palavra "expatriado". Dez anos atrás, as raras revistas em língua inglesa destinadas à comunidade internacional na China eram auto-complacentes e bitoladas, bem à imagem daquela mentalidade "expatriada". Elas pareciam dizer: "Vocês não passam de pobres coitados encalhados na China, longe da sua casa. Mas não se preocupem, nós os ajudaremos a dar a volta por cima". Então, elas listavam os bares que serviam hambúrgueres e fritas. Em contraste, a nossa linha editorial seguia mais ou menos a seguinte filosofia: "Vocês, seus felizardos, são testemunhas da época a mais
excitante em toda a longa história da China. E vocês também estão
participando dela. Vamos tirar o máximo proveito disso, e ver se nós também podemos dar a nossa contribuição".

Nós desembarcamos pela primeira vez em Xangai, no antigo aeroporto Hongqiao, no centro da cidade, em 1º de maio de 1998. Trabalhando igual a condenados, nós equilibramos receitas e despesas no espaço de três meses. Naquela altura, o "Observer" nós chamava de "a 'Time Out' de Xangai" ("Time Out" é um conhecido guia de espetáculos londrino). O nosso negócio cresceu mais rápido do que um arranha-céu em Xangai.

Mas, naquele mês de setembro, nós fomos obrigados a fechar. Começou com um telefonema de uma agência governamental, igual às outras tantas com as quais já tivéramos de lidar. Mas, dessa vez a coisa era séria. Duas horas depois da ligação, uma parada militar completa invadiu nosso escritório - quatro agências representadas ao mesmo tempo. Eles trajavam calças azuis, camisas brancas, quepes, dragonas e fitas de ouro para os homens da indústria e do comércio, conhecidos em linguagem coloquial como os "Gongshang". Os dois homens da agência de "entradas e saídas" trajavam uniformes militares oliva pardo. Os únicos civis eram os representantes da agência de notícias. Uma dupla de policiais de uniforme azul escuro completava o "efeito três forças", como se as forças aérea, terrestre e marinha da China tivessem sido mobilizadas contra nós.

Nós tínhamos enviado cada um dos membros da nossa equipe em missões
externas. A única pessoa da equipe que estava no escritório, além de mim, era a prima de Kathleen, Shirley Li, uma chinesa nativa em nome de quem a nossa empresa estava operando.

Nós tínhamos exatamente o número de cadeiras suficiente para os nove
visitantes. Shirley e eu as dispusemos em semicírculo e nós sentamos no
meio. "Os senhores aceitariam um chá?", perguntou Shirley.

"Não, obrigado", respondeu um dos civis. Ele parecia ser mais idoso,
mais sábio e estava mais à vontade do que os outros. Várias tossidelas
forçadas expressavam o embaraço dos ocupantes do meio-círculo.

"Em que podemos ajudá-los?", indagamos Shirley e eu quase que em uníssono. Enquanto a conversa permanecesse em mandarim e não desviasse para o "xangainês", eu tinha problema algum para acompanhar a conversa.

"O problema é esta revista que vocês estão produzindo", disse o civil idoso. "Ela é ilegal".

"Por quê?"

"Porque ela é ilegal", explicou. "Vocês não podem fazer isso. Ninguém pode publicar uma revista sem autorização".

Shirley e eu começamos a ficar aflitos. "Será que podemos obter essa
autorização?"

"Vocês não podem".

"Além disso, vocês não têm nenhuma autorização para exercer seu negócio!"

Um dos Gongshang não escondia sua impaciência.

"Como fazer para conseguir a licença certa para exercer?"

"Vocês não podem!", respondeu ele, quase berrando.

"Posso ver seu visto e a sua carteira de trabalho?". Era "entrada" ou
"saída", eu não saberia dizer qual dos dois, que resolveu intrometer-se na conversa - olhando para mim.

Um dos Gongshang perguntou então: "Quem está por trás disso? Por que vocês estão fazendo isso?"

"É só uma idéia que nós tivemos, para ajudar os estrangeiros a compreenderem melhor a China. Aqui, deixe-me lhes mostrar". Peguei um exemplar da revista, que ofereci a um deles.

A revista chegou às mãos do homem mais idoso e de aparência mais
descontraída, com os seus trajes civis. Ele olhou rapidamente para as
páginas sem realmente ler qualquer coisa.

Eu fitei o topo da sua cabeça e disse, com toda sinceridade. "Muitos
estrangeiros estão chegando à China. Eles querem investir. Eles gostam de encontrar coisas que lhes sejam familiares e a nossa revista pode lhes servir para isso, para mostrar-lhes como viver e se sentir bem aqui".

"Este negócio é ilegal", repetiu um dos Gongshang. "Vocês não têm nenhuma autorização para publicar ou imprimir. Vocês não têm nenhuma licença para vender anúncios publicitários. Vocês não têm nenhuma autorização para alugar um escritório. Vocês não têm nenhuma autorização para estarem aqui". Ele parecia estar triunfante. Ele estava absolutamente correto.

"Bem", disse Shirley com o seu mais suave tom de voz, "talvez vocês possam nos dizer onde conseguir essas autorizações?"

"Vocês não podem!"

"É claro. Mas se nós pudéssemos, onde poderíamos obtê-las?", insistiu
Shirley.

Os Gongshang ficaram perplexos. O civil mais velho e tranqüilo agitou-se na sua cadeira e levantou os olhos. "Em primeiro lugar, vocês precisam de uma editora", disse.

E foi assim que as coisas começaram. O nome do civil era sr. Wang, e, de uma maneira paterna, ele começou a explicar o processo. Ele nos leu as regras e descreveu como contorná-las. Nós precisávamos de um "kanhao", uma licença para publicar. Apenas as editoras oficiais possuíam um "kanhao". Ele não poderia ser alugado nem cedido por empréstimo.

Quem sabe, ele poderia nos ajudar a encontrar algum?

Nós precisaríamos de uma companhia registrada em Xangai, acrescentou um dos Gongshang. Não era o caso da companhia de Shirley. Nós tínhamos de implantar uma filial ou encontrar alguma companhia local que pudesse nos ajudar a regularizar nosso negócio. Talvez ele pudesse nos apresentar alguma que seja apropriada. Os integrantes estrangeiros da nossa equipe precisavam de vistos. Isso poderia ser resolvido, disse, por sua vez, a agência de entradas e saídas, mas vocês precisariam em primeiro lugar de uma companhia para empregá-los. Uma visita no seu escritório deveria resolver o problema.

E então, acrescentou um policial, parecendo um pouco irritado por ter sido deixado por último, não se esqueça de dizer aos estrangeiros que eles devem se inscrever no comitê mais próximo da sua residência.

Nós estávamos seguindo o velho método que consiste em pedir por "clemência, e não permissão", e parecia estar funcionando. O fato de pedir permissão para algo fora do ordinário, sem se submeter aos procedimentos burocráticos das agências de regulamentação - mesmo se você conseguir descobrir a qual delas você deve se dirigir - é algo que exigirá assumir certa responsabilidade. Mesmo se o seu projeto nada tiver de especial, ainda é mais rápido mantê-lo funcionando enquanto as suas diligências seguem seu curso - a partir do momento que você puder provar que está tentando obter a autorização de alguém.

Estávamos em situação ilegal, sem licença, e metidos numa encrenca federal. Entretanto, sutilmente pilotados pelo amável Sr. Wang, eles estavam nos dando uma sobrevida. Nós a perseguimos assim como um gato brincando com um pedaço de barbante. Toda vez que nós o tocávamos, um oficial intervinha para informar sobre mais uma providência a ser tomada para se adequar à regulamentação, e o barbante se afastava, seguindo outro rumo. Mas, graças à nossa persistência e aos incentivos de sr. Wang, a sobrevida nunca ficou fora do nosso alcance.

Após quatro horas de discussões que nos deixaram exaustos e com os nervos em frangalhos, eles se levantaram para se despedir. "Então, estamos conversados", declarou o Sr. Wang com um sorriso. "Vocês estão banidos. Não podem prosseguir seu negócio. Não podem publicar nem imprimir, nem editar, nem vender publicidade ou distribuir". Ele deu uma pausa. "Aqui está o meu número, caso vocês tiverem outras perguntas". Ele caminhou até a porta e os outros o seguiram.

De maneira bastante apropriada, o último a sair foi "saída", embora possa ter sido também "entrada". Quando ele alcançou a soleira da porta, ele se voltou para mim e perguntou: "Mark, se nós os deixarmos permanecer no país, e se você encontrar de fato uma maneira de continuar a produzir essa revista, será que o meu escritório poderia publicar nela algumas notícias públicas destinadas aos estrangeiros, por favor? Nós temos sérios problemas para fazer com que os nossos anúncios cheguem até eles".

"Mas é claro", respondi, radiante.

"Obrigado", disse. "Ficaremos em contato".

O sr. Wang revelou ser tão eficiente quanto ele parecia ser. Nós fomos
apresentados aos diretores da Shanghai Pictorial, uma publicação
propagandística em inglês que deixara de ser impressa por não mais poder arcar com os seus custos. No lugar, a equipe da redação aumentava um pouco seus ordenados de funcionários do governo, imprimindo calendários para as unidades de trabalho estatais.

O acordo era simples. Nós alugávamos sua licença para publicar, o que tinha por efeito, sobretudo, de promover a ressurreição da sua revista. Qualquer dinheiro adicional que nós obtivéssemos com anúncios, era nosso. Os números eram arrasadores - a licença para publicar custava 1 milhão de iuanes (R$ 270.850) por ano - mas nós não tínhamos escolha. A revista tinha de trazer o nome "Shanghai Pictorial" em destaque na capa, enquanto o nome que nós havíamos utilizado para os nossos três primeiros números, "Ish", foi proibido.

Foi assim que tudo começou. A manchete principal do nosso primeiro número em parceria com a "Pictorial" foi o festival de artes de Xangai. Nós utilizamos as palavras "That's entertainment!" ("Isto é entretenimento!") na capa, exceto que a palavra "That's" era enorme, e "entertainment" muito pequena. Para a edição de dezembro, fomos de "That's all folks!". Com o mesmo esquema. Então, em janeiro de 1999 nós nos batizamos com o nome de "That's Shanghai". Nós tínhamos uma marca.

A "Shanghai Pictorial" nunca notou. Eles estavam ocupados demais com os seus preparativos para nos obrigar mais uma vez a fechar. Nós tínhamos conseguido nosso objetivo ao dar uma nova vida à revista deles. Nós descobrimos o que esperava por nós por intermédio dos anunciantes, que haviam sido informados de que haveria espaço disponível somente depois da edição de fevereiro. Chamaram-me para comparecer na sede da "Pictorial" no exato momento em que estávamos nos preparando para imprimir aquela edição.

"As autoridades disseram que vocês não podem produzir a edição de
fevereiro", me disse o editor-chefe.

"Sinto muito mesmo", respondi, mentindo. "Mas a revista já está impressa, e já está a caminho para ser distribuída".

"Oh Deus!" Ele parecia muito contrariado.

"E já que nós temos um contrato para um ano inteiro, talvez você pudesse me mostrar o documento oficial que determina que nós temos de parar?" "Hein, não tem nenhum".

"Então, posso concluir disso que não deverá haver problema nenhum, ao menos para este edição?"

Ele enviou um fax alguns dias depois cuja folha trazia um carimbo oficial da agência estatal de notícias. Em março, a "Pictorial" lançou uma nova revista. Ela se chamava "SH", com os caracteres precisamente da mesma fonte e com a mesma mancha na capa da nossa proibida "Ish".

Mas a nossa edição de fevereiro fora publicada e nós logo arrumamos uma
outra editora para março. Mais uma vez o nosso "padrinho" sr. Wang nos
dirigiu na direção certa, desta vez para Pequim. "Eles são bem mais
experientes por lá do que em Xangai", explicou. A parceria seguinte, com o título oficial de "China Light Industry" ("Indústria de Luz da China") em toda a extensão no pé da cobertura em caracteres na cor cinza praticamente invisíveis, durou outros três meses. Mas nós mantivemos o nome "That's" no topo. Éramos o assunto principal das conversas - e das leituras - da cidade. Graças à nossa linha editorial vivaz e para cima, e às nossas resenhas e reportagens objetivas, os exemplares da revista sumiam rapidamente dos bares, hotéis e restaurantes onde nós os deixávamos à disposição, gratuitamente. A circulação aumentou de 20.000 para 25.000 por mês.

Nós também estávamos ficando acostumados com o jogo de gato e rato.
Kathleen, Shirley e eu estávamos sempre à caça de maiores e melhores
parceiros. Nós circulamos pelo país afora, jantamos com contatos potenciais,ouvindo incontáveis ofertas de ajuda complementadas por condições impossíveis.

As ordens para fechar quase sempre chegavam bem no momento em que a revista estava indo para o prelo e elas sempre coincidiam com vendas recordes de anúncios. Mas, no verão de 1999, nós estávamos alcançando um faturamento de US$ 50.000 por edição.

Foi uma surpresa quando eu descobri quem era o gato. Durante meses, haviam circulado rumores segundo os quais o governo da cidade de Xangai planejava lançar um novo jornal diário em inglês, o "Shanghai Daily", para atender à demanda cada vez maior da comunidade internacional em plena expansão. Para garantir o sucesso deste jornal, o governo da cidade estava recorrendo a uma tática simples, de modo algum uma exclusividade da China, mas infinitamente mais fácil nas circunstâncias especiais nas quais se encontravam então os meios de comunicação chineses: acabar com toda competição.

Por mais que eu tivesse advogado em minha defesa junto aos dirigentes do "Shanghai Daily", uma vez que consegui finalmente encontrá-los, argumentando que uma revista mensal de artes e de entretenimento não representava ameaça alguma para um jornal diário, as minhas palavras caíram nos ouvidos de surdos. Quando nós conseguimos finalmente sentar à mesma mesa para conversar, e lhes oferecemos fazer sacrifícios de maneira a poder continuar, veio a resposta, franca e abrupta: "Não, vocês não farão isso".

As incursões em nossos escritórios perderam toda e qualquer aparência de sutileza. Eles enviaram delinqüentes notórios que começaram a rondar nos arredores. Eu tive a sorte de poder contar com um simpático espião na equipe júnior da redação do "Daily". Toda vez que nós nos encontrávamos, ele me lembrava mais uma vez: "O meu chefe saiu para te pegar, Mark. Cuidado e boa sorte".

De vez em quando, parecia que todos os outros oficiais em Xangai também
estavam mobilizados para nos pegar. Em certa ocasião compareci a uma
coletiva de imprensa de lançamento de um espetáculo onde esbarrei com o
diretor do Grande Teatro de Xangai.

"Ah, Mark", exclamou. "Que bom ver você. Você trouxe um exemplar da sua
revista? Tem alguém aqui que eu adoraria que você conhecesse". Uma pequena festa de chineses que aparentavam ser do além-mar estava acontecendo atrás dele.

"Este é o meu primo de Nova York e a sua família. Ele foi embora de Xangai dez anos atrás". O homem apertou a minha mão e apresentou sua mulher num inglês perfeito.

"Agora vamos", disse o empresário. "Mostra a sua revista. Eu quero que eles vejam o quanto as coisas mudaram em Xangai".

Enfiei a mão na minha pasta. Mal eu a havia extraído, ele arrancou das
minhas mãos a mais recente edição.

"Olhe para isso!" Ele já estava voltado para o seu primo. "Viu? Agora nós temos uma revista de entretenimento para a cidade digna desse nome. O meu teatro foi até mesmo objeto de resenhas algumas vezes, não foi mesmo?" Ele voltou-se para mim com um olhar malicioso.

O primo parecia estar impressionado. "Rapaz, as coisas mudaram mesmo! Posso ficar com ela? Eu adoraria mostrá-la para os meus amigos, quando voltar pra casa, de que maneira a minha antiga cidade andou evoluindo".

Poucos minutos mais tarde, eu estava conversando com um jovem jornalista local cujo editor eu havia entrevistado para esta nova edição. Eu havia extraído um outro exemplar e o estava abrindo quando um homem baixinho de terno surgiu do nada e o arrancou da minha mão. Ele se dirigiu com palavras ríspidas ao meu interlocutor. Constrangido, fiquei assistindo à cena em silêncio enquanto o desconhecido dava leves pancadas nas páginas e apontava seu dedo para os anúncios. Ele estava ficando vermelho de tanta fúria. Eu me esforçava a tentar entender os principais pontos da sua diatribe, proferida no dialeto "duro" de Xangai.

"Ilegal... não deveria ser permitida... não é justo... propaganda demais... dinheiro demais... parar..." Então ele fez um movimento com o dedo indicador de um lado para outro da garganta e, produzindo um efeito dramático, apontou o mesmo dedo para a capa.

"Com licença", disse eu em mandarim. "Mas acho que nós não nos conhecemos". Eu lhe ofereci meu cartão de visita.

"Você não precisa saber quem eu sou", rebateu ele, rechaçando meu cartão e jogando-o para longe.

"Ainda assim, você parece saber quem eu sou", insisti.

"Pois bem", grunhiu. "Já que você é tão ignorante, fique sabendo então que eu sou um dos seus dirigentes. Eu tomo conta de você. Nós sabemos o que você pretende fazer. A sua revista vai ser proibida. Vou me assegurar pessoalmente disso".

Ele jogou a revista sobre mim e foi se afastando a passos largos.

Cinco minutos antes um oficial de Xangai elogiara efusivamente a "That's Shanghai". Agora, outro oficial queria nossa morte.

Só existia uma maneira de sair dessa encrenca. Foi assim que eu me encontrei num dia frio da primavera de 2004, sentado em companhia de sr. Yuan no seu apartamento decorado no estilo casa de campo, perto de Pequim, esperando que ele me explique como as minhas batalhas haviam agora terminado.

No decorrer desses cinco anos eu havia comprado a empresa de Kathleen,
fundado uma companhia de consultoria para joint venture estrangeiras, e
investido 3 milhões de iuanes (R$ 760.060) para levar a minha fórmula para o norte, até a capital, lançando "That's Beijing" (Pequim), com uma tiragem de 20.000 exemplares, que se somou aos outros títulos, "That's Shanghai" (agora distribuída a 45.000 exemplares) e "That's Guangzhou" (15.000). Não houve um centavo investido ou financiado por terceiros. A companhia e as revistas eram inteiramente "autodidatas".

O meu apoio mais sólido, a organização que cuidara de mim contra ventos e marés e me ajudara a chegar até aqui, era a agência de notícias estatal do povo de Yangzhou. Não era nem sequer uma editora e ela nem possuía um "kanhao", mas Yangzhou era a cidade de origem de Jiang Zemin, então o presidente da China, e a panelinha de Yangzhou era poderosa. A população de Yangzhou também entendeu o que eu estava tentando fazer: promover a China para os estrangeiros de uma maneira que eles apreciavam. Em troca, era com prazer que eu publicava anúncios amenos, sutilmente assinalados como tais, sobre Yangzhou. Eu gostava muito do lugar.

Eu tinha um contrato de consultoria com Yangzhou, a qual, desde 2002, tinha um contrato editorial, que eu mesmo havia elaborado, com a China
Intercontinental Press, com a qual nós tivemos de nos aliar quando nos
tornamos grandes demais.

Eu havia rechaçado os ataques de rivais invejosos e fora objeto de
investigações de praticamente todas as agências que tivessem algum vínculo, por menor que fosse, com o setor editorial, e por muitas outras que nem sequer tinham esse vínculo. Foram nove no total. Fui obrigado a desembolsar mais de 1 milhão de iuanes em multas, e Deus sabe o quanto mais em taxas administrativas para as "agências" do governo. Eu havia sido acusado de ser um alcoviteiro, um "divisionista" da China, um simpatizante do Falun Gong (movimento espiritual chinês que surgiu em 1992, foi duramente reprimido pelas autoridades que o acusaram em 1999 de ser uma "seita herética"), um espião.

A minha equipe de profissionais fora extraditada, os computadores da minha empresa foram confiscados, e as minhas revistas foram confiscadas quando elas ainda estavam sendo impressas. Consegui tudo isso de volta. Eu estivera associado com oito editoras do governo antes do meu acordo com a China Intercontinental Press, e com meia-dúzia de agências publicitárias.

As três revistas "That's" que eu havia construído por meio de um
investimento de US$ 20.000 estavam gerando um faturamento superior a US$ 4 milhões por ano, com lucros anuais, só para Xangai, de meio milhão, que foram re-investidos no negócio. Uma vez que Pequim conseguisse se pagar, eu estaria dentro da minha meta. Eu estava dirigindo 120 funcionários e quatro escritórios, e imprimindo revistas cujas tiragens somadas eram de quase 100.000 exemplares por mês. Mas elas existiam apenas como papel impresso. Elas não eram propriedades de ninguém. Nem minhas, nem de uma das inúmeras editoras com as quais eu trabalhei, nem de uma das agências de publicidade que estiveram associadas ao meu negócio, nem mesmo de agências governamentais tais como a agência de notícias Yangzhou News, que nos deu guarita. A editora, hoje a China Intercontinental Press, detinha as licenças, as quais dela aluguei. Eu detinha a patente-marca registrada do nome "That's", o meu trunfo infalível, e eu controlava as operações das
revistas a partir de uma zona cinzenta que separa a sanção oficial do apelo popular.

Enquanto isso, eu me casara com uma chinesa, tivera dois filhos, e tomara um longo arrendamento - e gastara uma fortuna restaurando - numa velha casa de verão perto de Xangai. Eu estava comprometido com a China. Eu viera para cá porque adorava o lugar, para a aventura, para ter uma chance de fazer algo que ninguém tinha feito antes. Não havia como voltar atrás. Os meus colegas de classe que costumavam me chamar de "Chinky" ("Chinesinho") por causa da sonoridade oriental do meu sobrenome (originário de Cornualha) poderiam se sentir ofendidos.

O prefeito de Xangai levou uma coleção de números da "That's Shanghai" para Paris em 2002, quando ele apresentou seu projeto bem-sucedido para a Exposição Universal de 2010. Posso afirmar que um exemplar da "That's
Beijing" fez parte do dossiê da candidatura da capital a sediar os Jogos Olímpicos. Eu havia ressuscitado uma outra revista para o birô de turismo de Xangai, tanto para ampliar meu currículo quanto para convencer os dirigentes da cidade das minhas boas intenções. É da minha autoria a mensagem que saúda os visitantes num outdoor na entrada de Xangai, no caminho do aeroporto de Pudong até a cidade: "Sete Maravilhas do Mundo, Sete Dias em Xangai!" Acima de tudo, com as minha três revistas "That's" eu havia criado uma coisa à qual o governo chinês dava um imenso valor, mas nunca havia acreditado que ela pudesse existir: a propaganda lucrativa. Eu até mesmo os remunerei generosamente por isso. Eu havia dado a minha contribuição para a China.

Portanto, quando ouvi o Sr. Yuan me dizer que ele tinha "boas notícias" a respeito de uma joint venture "em princípio", eu tomei por certo que o fato de me tornar proprietário de uma parte daquilo que eu havia criado seria a minha recompensa. Mas então, ele prosseguiu: "Nós podemos lhe oferecer uma joint venture com a 'That's China'". Tive a sensação de ter recebido um soco no estômago. A "That's China" era uma versão nacional pouco lucrativa e editorialmente embaraçosa das minhas bem-sucedidas revistas metropolitanas. Eu não estava envolvido nela, mas ela utilizava minha marca registrada "That's" no título. "Quanto você poderia investir para pô-la para funcionar?", perguntou.

"Sr. Yuan", respondi, me sentindo doente, "você sabe o que eu acho da
'That's China'. Você a lançou sem a minha participação. Você pegou a marca que eu construí e a barateou. Os artigos de 6 páginas sobre a criação de porcos em fazendas faz escárnio de tudo o que eu criei. Você ofereceu publicidade gratuita para os meus clientes e agora, as minhas revistas para as cidades mal conseguem cobrar o suficiente para pagar as taxas do kanhao... Se você está querendo me dar uma joint venture com a 'That's China', por que não me dar uma para as revistas metropolitanas?"

"Nós não temos esse poder", respondeu. O sr. Yuan havia me avisado que essa não seria uma negociação de igual para igual. Ele também me dissera que ele poderia decidir a lei.

"E se eu desviasse meu contrato de consultoria de Yangzhou para a sua
companhia?" Os dirigentes de Yangzhou eram grandes amigos meus, mas, o que eu podia fazer?

"É ilegal para uma agência governamental ter um contrato de consultoria com uma joint venture estrangeira", respondeu ele.

Nem é preciso dizer, havia muitas provas visíveis do contrário. O sr. Yuan me prometera garantir meu interesse de proprietário quando nós começamos a trabalhar juntos dois anos antes. Agora, ele havia renegado aquela promessa. A luz no fim do túnel - a expectativa de uma propriedade formal - que eu vinha procurando pacientemente por sete anos, havia se apagado. As revistas que eu havia construído pertenciam agora ao Sr. Yuan e ao Conselho de Informação do Estado. É claro, eu sempre poderia continuar a tomar conta de "That's Shanghai", "That's Beijing" e "That's Guangzhou" e fazer o que eu bem quisesse com os lucros - antes que eles sejam engolidos pela interferência habitual. A partir de agora, acrescentou o Sr. Yuan, as "taxas administrativas" para o kanhao passariam a ser triplicadas.

Quatro meses mais tarde, eu fui expulso do meu escritório em Xangai. O sr.Yuan estava lá dentro com o meu diretor financeiro e meu diretor nacional de vendas, discursando para os meus empregados. Eles tiveram de escolher entre trabalhar para o governo e a agência de publicidade do meu diretor financeiro,que eu mesmo havia fundado, e tentar sua chance comigo. O sr. Yuan presenteou-os com um anúncio da China Intercontinental Press, afirmando que o meu envolvimento pessoal com as revistas "That's" era terminantemente ilegal. Os riscos que corriam aqueles que se mantivessem fiéis a mim, eram claros. Os funcionários sabiam perfeitamente quem estava por trás da China Intercontinental Press. A esposa chinesa do meu gerente-geral em Pequim já havia sido ameaçada com prisão caso ela não me traísse.

Eu vi o sr. Yuan mais uma vez em fevereiro, no tribunal. Um ano se passara desde que ele tomara de mim o meu negócio. Ele havia iniciado uma disputa em torno da logomarca embora fingisse querer negociar um acordo de cessão de direitos para o nome "That's" - uma vez que as marcas registradas são os únicos bens vinculados à mídia, dos quais um indivíduo pode ser o proprietário em boa e devida forma na China, ela ainda me pertencia. Graças a dois elementos de prova decisivos que ele produziu durante o processo, ele venceu a disputa. Agora, eu estava recorrendo contra essa decisão, e dizendo ao juiz acreditar que aqueles elementos de prova haviam sido forjados. Tudo o que me restava era a lei, fortificada pelos esforços amplamente divulgados que o governo chinês vem empenhando para proteger a propriedade intelectual.
O juiz sem dúvida se manteve muito atento quando eu lhe apresentei
depoimentos de pessoas que o Sr. Yuan havia contratado para fabricar a
prova. Eles admitiam ter participado da conspiração. O Sr. Yuan não parecia nem um pouco feliz. Vai ser preciso esperar durante meses antes de haver uma sentença.

Existe uma teoria sobre fazer negócios na China que diz - renda-se primeiro, e então espere vencer mais tarde. Mas as intenções virtuosas e os sinais de boa-fé aqui são considerados como admissões de fraqueza. Ao forçar os investidores estrangeiros a se renderem, a China mantém todos os trunfos em suas mãos. O frenesi em torno do Google e de outras companhias da Internet é apenas o exemplo mais recente e mais evidente disso.

A desvantagem para nós, empreendedores ocidentais, é que nós acreditamos em probidade e em eqüidade. Mas a China de hoje não acredita em eqüidade. Ela acredita em poder e dinheiro.

Eu não entreguei minha alma à China, assim como tantos empreendedores
estrangeiros fizeram, mas eu a empenhei por um tempo. Finalmente, eu fui convidado a desistir do sonho que eu acalentava há muito e a aceitar todo e qualquer benefício de curto prazo que eu conseguisse recuperar de um sistema que eu pensava ingenuamente poder mudar apenas o bastante para ser reconhecido e aceito como um estrangeiro com boas intenções.

No final, recusei o convite. Durante a disputa em torno da minha logomarca, o Conselho de Informação do Estado enviou uma carta oficial para as agências Gongshang, cuja ajuda eu havia requisitado para proteger meus direitos de proprietário do nome "That's", um exemplo valioso de propriedade intelectual. A carta dizia o seguinte: "(...) Por favor, mantenham seus departamentos na linha (...) este é o caso de um estrangeiro que vem prejudicando o trabalho sério da propaganda da China no exterior". Eu suponho que a essa altura, isso seja verdade. Isso me deixa sinceramente desolado. Eu ainda gostaria de fazer algo útil na China. Empresário britânico do setor editorial que, a partir de 1998 resolveu lançar revistas de entretenimento em cidades chinesas dirigidas à colônia estrangeira, conta as desventuras por que passou Jean-Yves de Neufville

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