Quais foram as causas dos ataques de 11 de setembro? As explicações mais possíveis

Peter Bergen*

Nenhum evento nos últimos tempos produziu tantas explicações quanto os ataques de 11 de setembro, cinco anos atrás. No espaço de uma hora, a Al Qaeda infligiu mais dano direto aos EUA do que a União Soviética fez durante a Guerra Fria. Bastaram 19 homens armados de pequenas facas para destruir o World Trade Center, demolir uma ala do Pentágono e matar 3.000 pessoas.

O feito levou alguns -especialmente no mundo muçulmano- a procurar um culpado mágico para explicar o que de outra forma pareceria inexplicável. Os judeus estão por trás dos ataques; a "junta de petróleo Cheney-Bush" planejou-os para que pudessem dominar os poços da Ásia Central e assim por diante.

O próprio Osama Bin Laden alega que a Al Qaeda foi a única responsável por 11 de setembro. Em 2004, ele divulgou um vídeo no qual explicava seus contatos com o principal seqüestrador, Mohammed Atta. Depois da maior investigação criminal da história, o governo americano também concluiu que a Al Qaeda foi a única responsável pelos ataques.

Isso nos leva à questão: o que levou a Al Qaeda a lançar os ataques?

As explicações mais possíveis

Nenhuma das seguintes explicações é por si só suficiente para explicar os ataques, mas juntas nos ajudam a compreender 11 de setembro. Estão descritas em ordem ascendente de importância.

10. Radicalização provocada pela jihad afegã

A guerra Afegã contra a União Soviética radicalizou uma geração de militantes árabes. Eles trocaram cartões de visita e passaram a acreditar que tiveram um grande papel na destruição da União Soviética. Esses fatores levaram à fundação da Al Qaeda, em 1988.

9. Uma leitura específica de textos islâmicos

Se você perguntar a Bin Laden, ele dirá que essa guerra é sobre a defesa do islamismo. Ele baseia sua justificativa em um corpo de crenças muçulmanas e freqüentemente invoca os versos de "espada" do Alcorão, que instam ataques não provocados contra infiéis. Esta é uma leitura seletiva do texto e não significa que o islamismo seja uma fé inerentemente violenta.

8. Declínio e estagnação no Oriente Médio e a "humilhação" do mundo muçulmano

Bernard Lewis é o mais famoso expoente da idéia de que o mundo muçulmano está em uma crise em grande parte atribuível a séculos de declínio, simbolizados pelo destino do poderoso império otomano e sua divisão infame pelos britânicos e franceses, após a Primeira Guerra Mundial.

Três semanas após 11 de setembro, os EUA começaram a lançar ataques aéreos contra posições do Taleban, e um vídeo de Bin Laden foi transmitido pela Al Jazeera. Na gravação, ele dizia: "O que os EUA agora estão saboreando é algo insignificante perto do que passamos por muitos anos... nem os EUA nem o povo que ali habita sonharão com segurança antes que a tenhamos na Palestina, e não antes dos exércitos infiéis deixarem a terra de Maomé."

Para Bin Laden, o acordo Sykes-Picot, de 1916, que dividiu o império otomano entre franceses e britânicos, tem a mesma ressonância que o tratado de 1919 de Versailles teve para Hitler.

7. A disseminação da tecnologia de comunicação

A comunidade global de muçulmanos está muito mais consciente dos conflitos em torno do mundo islâmico -e do papel do Ocidente em alguns deles- do que há dez anos. Na última década, canais de satélite em árabe e sites jihadistas proliferaram, conscientizando muçulmanos sobre a opressão de seus correligionários na Cachemira, Palestina, Bálcãs e assim por diante. Esses desgostos alimentaram a disseminação da ideologia da Al Qaeda.

6. Regimes do Oriente Médio autoritários ajudaram a incubar os militantes

Sayyid Qutb, o Lênin do movimento militante jihadista, e Ayman Al Zawahiri, número dois de Bin Laden, radicalizaram-se nas prisões do Cairo. Não é por acidente que muitos membros da Al Qaeda são egípcios e sauditas.

5. A alienação de imigrantes muçulmanos no Ocidente

Três dos quatro pilotos de 11 de setembro e dois importantes planejadores, Ramzi bin al Shibh e Khalid Sheikh Mohammed, tornaram-se mais militantes quando moraram no Ocidente. Saudade de casa, alienação e sensação de discriminação parecem tê-los inspirado a tomar uma direção mais radical. A pesquisadora Swati Pandey e eu examinamos a biografia de 79 terroristas responsáveis por cinco dos piores ataques terroristas recentes contra o Ocidente. Descobrimos que um em cada quatro tinha freqüentado faculdades no ocidente.

4. Políticas estrangeiras americanas no Oriente Médio, em particular seu apoio a Israel

Segundo o próprio Bin Laden, é por isso que a Al Qaeda está atacando os EUA. Sua crítica nunca foi cultural; ele nunca menciona Hollywood, homossexualidade ou drogas em suas diatribes.

3. Bin Laden é um líder tático astuto e ator político racional, travando uma guerra religiosa que sente profundamente contra o Ocidente

Como outros antes dele, Bin Laden fez uma escolha racional ao adotar o terrorismo como atalho para transformar o cenário político.

Está claro pelo relatório da Comissão de 11 de setembro que Bin Laden interveio para fazer duas importantes decisões que garantiram o sucesso dos ataques. A primeira foi nomear Mohammed Atta como líder seqüestrador; a segunda foi cercear os planos de Khalid Sheikh Mohammed, de jogar 10 aviões ao mesmo tempo contra alvos na Ásia e na Costa Leste dos EUA. Esse número de ataques teria sido difícil de sincronizar e poderia não ter tido sucesso.

2. O dia 11 de setembro foi dano colateral de um confronto dentro do Islã

A opinião de que 11 de setembro foi um resultado de um conflito dentro do mundo muçulmano foi brilhantemente articulada no início de 2002 pelo acadêmico do Oriente Médio Michael Scott Doran, em um ensaio na Foreign Affairs, "A Guerra Civil de Outro". Doran argumentou que os seguidores de Bin Laden "consideram-se uma ilha de verdadeiros crentes, cercada por um mar de iniqüidade, e acham que o futuro da própria religião, e portanto do mundo, depende deles e de sua batalha."

Os egípcios da Al Qaeda acreditavam que deviam derrubar o "inimigo próximo" -regimes do Oriente Médio, dirigidos por governantes "apóstatas".

Bin Laden deu mais um passo, salientando que a raiz do problema era o "inimigo distante", os EUA, que sustentavam o status quo no Oriente Médio.

1. Os ataques de 11 de setembro foram o fruto do raciocínio estratégico falho de Bin Laden

O total domínio da Al Qaeda por Bin Laden tornava a organização refém de sua visão estratégica. Bin Laden considerava os EUA um tigre de papel, que bateria em retirada após apenas alguns golpes e deixaria os regimes aliados no Oriente Médio vulneráveis. Mas a resposta americana a 11 de setembro foi destruir o regime do Taleban e dizimar a Al Qaeda.

Apesar de 11 de setembro ter sido um sucesso tático para a Al Qaeda, de fato ameaçou o futuro da organização.

Para concluir, 11 de setembro foi um dano colateral de uma guerra civil dentro do islamismo político. De um lado há os que, como Bin Laden, querem instalar teocracias ao estilo Taleban da Indonésia ao Marrocos.

Do outro, há uma maioria silenciosa de muçulmanos preparados para lidar com o Ocidente, que não vêem o Taleban como modelo de funcionamento para Estados islâmicos modernos e rejeitam a violência.

Ainda assim, Bin Laden e seus atacantes nos EUA ajudaram a formular um movimento ideológico que viverá mais que eles. O binladismo ganhou tremenda energia com a guerra no Iraque e provavelmente conquistará mais seguidores com o conflito no Líbano.

Hosni Mubarak era presidente do Egito quando advertiu, em 2003, que a guerra no Iraque poderia gerar "100 novos Bin Ladens". Essa nova geração de militantes é o legado de Bin Laden.

*Peter Bergen é autor de "The Osama Bin Laden I Know" -o Osama Bin Laden que eu conheço, publicado pela Simon & Schuster Deborah Weinberg

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