Quais foram as causas dos ataques de 11 de setembro? Teorias falhas, mas plausíveis

Peter Bergen*

Nenhum evento nos últimos tempos produziu tantas explicações quanto os ataques de 11 de setembro, cinco anos atrás. No espaço de uma hora, a Al Qaeda infligiu mais dano direto aos EUA do que a União Soviética fez durante a Guerra Fria. Bastaram 19 homens armados de pequenas facas para destruir o World Trade Center, demolir uma ala do Pentágono e matar 3.000 pessoas.

O feito levou alguns -especialmente no mundo muçulmano- a procurar um culpado mágico para explicar o que de outra forma pareceria inexplicável. Os judeus estão por trás dos ataques; a "junta de petróleo Cheney-Bush"planejou-os para que pudessem dominar os campos da Ásia Central e assim por diante.

O próprio Osama Bin Laden alega que a Al Qaeda foi a única responsável por 11 de setembro. Em 2004, ele divulgou um vídeo no qual explicava seus contatos com o principal seqüestrador, Mohammed Atta. Depois da maior investigação criminal da história, o governo americano também concluiu que a Al Qaeda foi a única responsável pelos ataques.

Isso nos leva à questão: o que levou a Al Qaeda a lançar os ataques?
Explicações pelos ataques podem ser classificadas em duas categorias - as que parecem plausíveis, mas são falhas e as mais prováveis.

Teorias falhas, mas plausíveis

Pobreza


Muitos políticos e comentadores vêem a pobreza do Oriente Médio como fator. Esse argumento não é baseado em evidências. Os que atacaram no dia 11 de setembro eram filhos da classe média e alta, não eram necessitados. Na história recente, desde anarquistas russos até a gangue alemã Baader-Meinhof nos anos 70, o terrorismo em grande parte tem sido uma empreitada burguesa.
Al Qaeda não é diferente.

Madrassas

Um argumento relacionado à pobreza é que as madrassas, as escolas religiosas que ensinam o Alcorão, são sementeiras de terroristas. O oposto. Alunos graduados nessas escolas raramente, ou talvez nunca, se envolveram em importantes ataques contra o Ocidente. Nenhum dos seqüestradores de 11 de setembro freqüentou uma madrassa e a maior parte tinha cursado uma faculdade, algumas no Ocidente.

Eles nos odeiam porque somos amantes da liberdade

O presidente George W. Bush tem sido o principal expoente dessa opinião. Em 2004 Bin Laden respondeu perguntando por que, se isso fosse verdade, ele não atacou os amantes da liberdade na Suécia?

A CIA

A teoria que diz que Bin Laden é uma criação da CIA e que os ataques no World Trade Center e no Pentágono foram efeito colateral é uma análise padrão entre esquerdistas do mundo todo. A romancista indiana Arundhati Roy escreveu que Bin Laden estava "entre os jihadistas que se mudaram para o Afeganistão em 1979, quando a CIA começou suas operações no país. Bin Laden tem a distinção de ter sido criado pela CIA."

Essa teoria não tem evidências que a comprovem. O verdadeiro escândalo aqui não é se a CIA ajudou a criar Bin Laden durante os anos 80, mas o fato de a agência não ter idéia da importância dele até 1996, quando montou uma unidade especial para caçar o exilado saudita.

Estados debilitados e fracassados

É um argumento comum entre teóricos de relações internacionais que Estados fracos e fracassados são bases atraentes para terroristas e criminosos. O fato do ataque de 11 de setembro ter germinado em 1996, enquanto a Al Qaeda mudava sua base de um Estado fraco, Sudão, para um Estado fracassado, Afeganistão, parece confirmar essa teoria.

Certamente a Al Qaeda prosperou sob o governo incompetente do Taleban.
Entretanto, grande parte do plano de 11 de setembro tomou forma em Hamburgo, onde a maior parte dos pilotos e segundo escalão dos planejadores se tornaram mais radicais do que eram quando viviam em sua terra natal. Foi a experiência que adquiriram no Ocidente que os tornou mais militantes e os preparou para desempenhar os ataques.

Financiadores sauditas

Há pouca ou nenhuma evidência de que sauditas estavam patrocinando a Al Qaeda. O relatório do comitê de inquérito de 11 de setembro determinou que não havia indicações que o dinheiro dos ataques veio da Arábia Saudita. Além disso, o terrorismo é uma forma barata de guerra. A força da Al Qaeda não está em seus recursos materiais, que são poucos, mas em suas crenças.

Os sauditas em geral

Alguns comentadristas imputaram grande parte da responsabilidade pelo crescimento da Al Qaeda aos sauditas. Segundo eles, a família real saudita fez uma aliança pouco sagrada com a seita purista Wahabbi para aumentar sua credibilidade debilitada como guardiã dos sítios sagrados de Meca e Medina.

A exportação saudita do wahabbismo eventualmente deu frutos desastrosos no Afeganistão com o advento do Taleban. No entanto, desde meados dos anos 90, pelo menos, o principal objetivo da Al Qaeda tem sido a destruição da família real saudita, e então fica difícil culpar o Estado saudita pelas recentes atividades da Al Qaeda. Além disso, há milhões de muçulmanos que seguem uma versão wahabbista do Islã, mas ainda assim poucos se voltam para a violência.

O confronto de civilizações

Samuel Huntington famosamente previu que os confrontos entre civilizações iam substituir as rivalidades da Guerra Fria, e os ataques de 11 de setembro pareceram vindicar essa teoria. Mas será verdade? A maior parte dos muçulmanos condenou os ataques de 11 de setembro. Além disso, a tentativa de Bin Laden de acender um choque de civilizações logo após os ataques foi esvaziada. A opção americana pela guerra contra o Iraque teve maior papel em galvanizar o anti-americanismo entre muçulmanos.

Terrorismo suicida, incluindo 11 de setembro, é uma resposta à ocupação estrangeira

Em seu livro influente de 2005, "Dying to Win" (morrer para vencer), o cientista político Robert Pape examinou uma série de campanhas suicidas modernas e concluiu que são movidas não por zelo religioso, mas por ocupações estrangeiras. A teoria de Pape talvez explique porque 15 dos seqüestradores de 11 de setembro eram sauditas, já que havia presença americana substancial no reino saudita naquela época, mas não explica os outros quatro -do Líbano, Egito e Emirados, ou seja, nenhum país ocupado pelos EUA.

Além disso, os homens-bomba no Iraque são em grande parte estrangeiros; acredita-se que metade ou mais são sauditas e o resto de outros países do Oriente Médio e alguns europeus. Em 2003, as forças americanas na Arábia Saudita -casus belli original de Bin Laden- foram reduzidas quase a zero, ainda assim Bin Laden e seus seguidores continuaram a defender o ataque aos EUA

Estamos em um confronto com a ideologia totalitária, similar ao comunismo>/b>

O proponente mais sério dessa idéia é Paul Berman, cujo livro de 2003 "Terror and Liberalism" (terror e liberalismo) compara o "binladismo" às ideologias totalitárias modernas como o fascismo e comunismo. Enquanto a idéia tem seus atrativos, o binladismo não impõe a ameaça existencial ao Ocidente apresentada pelas ideologias totalitárias do século 20. O binladismo não é apenas outra ideologia totalitária -a Al Qaeda talvez use tecnologia moderna, mas é movida por uma visão do mundo do século sete, que não tem nada em comum com Hitler ou Stalin.

O último suspiro do islamismo político

Seriam os atentados de 11 de setembro o último suspiro dos islâmicos radicais? O acadêmico francês Gilles Kepel defendeu o argumento que Estados islâmicos como o Sudão e o Afeganistão do Taleban se tornaram fracassos abjetos. Em seu livro "Jihad: the Trail of Political Islam" (jihad: o caminho do islamismo político), publicado depois de 11 de setembro, Kepel argumentou: "Apesar do que muitos disseram, o ataque aos EUA foi um símbolo desesperado de isolamento, fragmentação e declínio do movimento islâmico, não um sinal de sua força". Entretanto, Kepel estava escrevendo antes da ocupação americana do Iraque, das eleições do Hamas na Palestina e dos atuais problemas do Líbano.

*Peter Bergen é autor de "The Osama Bin Laden I Know" -o Osama Bin Laden que eu conheço, publicado pela Simon & Schuster Deborah Weinberg

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