Inquietos, os israelenses ainda sentem os efeitos do "verão do descontentamento"

Por David B. Green
Em Israel

Quando eu digo a simpáticos não-israelenses que muita gente aqui não tem o sentimento de que a existência perene de Israel seja uma realidade consolidada e duradoura, geralmente a reação é de espanto.

Como pode um Estado dotado de um exército tão forte, um arsenal nuclear considerável, uma economia altamente desenvolvida e diversificada, e de um sistema político saudável, considerar a si próprio como um país cuja existência está ameaçada? Considerando-se o seu poder e seu sucesso, a sua descrição de si mesmo como vítima perpétua desponta como uma atitude paranóica, enquanto as suas réplicas brutais às agressões dos seus vizinhos parecem ser extremadas.

Portanto, o que o verão de 2006 significou para os israelenses pode não ser imediatamente evidente para os outros. Um ano atrás, com a conclusão da evacuação pelos colonos israelenses de Gaza e de uma parcela do norte da Cisjordânia, o Estado judeu voltou a sentir-se dono do seu próprio destino. Os israelenses haviam sido bem-sucedidos ao lidar com a intifada, como é chamada a revolta dos palestinos, e deixaram claro para os palestinos que se eles não estavam prontos para participar do jogo de acordo com os termos de Israel, este tinha a opção de agir de maneira unilateral.

O temor de que houvesse um alastramento da guerra civil em Israel - muitos consideravam que ela poderia ser desencadeada pelo "desmanche dos compromissos" de Gaza - não se verificou nos fatos; alguns meses mais tarde, quando um derrame cerebral deixou o ex-primeiro-ministro israelense Ariel Sharon fora de combate, Ehud Olmert o substituiu interinamente no poder com bastante ânimo, e procurou assegurar á população de que ele daria continuidade ao espírito unilateral que havia sido determinado por Sharon. Ele respondeu ao crescimento do Hamas com a mensagem de que Israel só trataria com as novas lideranças palestinas com a condição de que elas se conformassem a certos requisitos básicos, tais como o que consiste em reconhecer Israel.

Israel deu então prosseguimento ao seu cronograma e realizou sua eleição na data que havia sido agendada antes da doença de Sharon, e o seu novo partido, Kadima, hoje liderado por Olmert, conquistou assentos em número suficiente para reunir as condições para formar um novo governo, por meio de uma coligação com o Partido Trabalhista. Isso criou a impressão de que uma maioria multipartidária existia, que ela seria capaz de lidar com a nova agenda social pedida pelos eleitores e com uma retirada dos assentamentos da Cisjordânia.

Talvez tenha sido esse sentimento de segurança, combinado a uma falta de experiência com a guerra compartilhada por Olmert e o seu ministro da Defesa, Amir Peretz, que os conduziu a responder à provocação do Hizbollah. Em 12 de julho, este realizou uma operação que atravessou a fronteira libanesa, na qual foram seqüestrados dois soldados israelenses e mortos outros oito. Israel replicou então por meio de uma vasta campanha de bombardeios contra o sul do Líbano.

Nos anos anteriores, os serviços secretos de Israel haviam detectado uma série de movimentações que deram a entender que o grupo xiita havia empreendido manobras militares, e descobriram que um arsenal avaliado em cerca de 12.000 foguetes de diferentes tamanhos e capacidades estavam agora armazenados por toda a região sul do país, e que eles seriam utilizados contra Israel. Israel precisava de uma razão para agir contra o Hizbollah; ela foi proporcionada pelo seqüestro.

Contudo, os resultados pouco conclusivos da campanha despertaram dúvidas em torno da decisão de invadir, especialmente porque o sucesso relativo do Hizbollah lhe rendeu fama e simpatia pelo mundo muçulmano afora, enquanto a reação "desproporcional" de Israel rendeu a este último até mesmo um número ainda maior de inimigos. Hoje, os israelenses se tornaram indesejáveis não só na Jordânia e no Egito, como também na moderada Turquia.

Não menos assustadores foram os relatos que soldados israelenses trouxeram do front. Reservistas descobriram que eles haviam sido enviados para o combate sem equipamentos adequados nem munições suficientes. As equipes de abastecimento do exército foram incapazes de lhes fornecer água em quantidade suficiente.

Apesar de Israel estar ciente de que o Hizbollah estava armado com foguetes poderosos capazes de perfurar blindagens, o exército empreendeu uma ofensiva com tanques, e viu 46 dentre eles serem atingidos, o que resultou na morte de 20 dos 117 soldados israelenses que participaram da operação.

Entretanto, o pior de tudo foi a indecisão que transpareceu no âmbito dos altos escalões militar e político. Após quatro semanas de combates, o chefe do estado-maior, Dan Halutz, demitiu brutalmente o chefe do comando das Forças de defesa de Israel na região norte, ou seja, o oficial que era basicamente o principal responsável pela condução da guerra. Esta decisão não ajudou nem um pouco em estimular a confiança.

A região norte de Israel levou uma surra, sendo alvo de cerca de 4.000 foguetes do Hizbollah, que causaram a morte de 43 civis e perdas econômicas estimadas em bem mais de US$ 1 bilhão (R$ 2,16 bilhões). Aqueles dentre os cidadãos do norte do país que tinham condições para se mudar para o sul assim fizeram, mas, os mais pobres dentre eles tiveram de se proteger da guerra refugiando-se em abrigos anti-bombas que eram mantidos de maneira inadequada.

Contudo, o procurador-geral de justiça de Israel e os investigadores da polícia continuaram trabalhando, e o que se viu nos últimos meses foi um frenesi de investigações policiais e de processos que tomou conta do país. Essa intensa atividade teve como alvos oficiais do alto-escalão do governo e do exército, inclusive o próprio Olmert, acusado de cometer assédio sexual e estupro, de praticar atos de corrupção e de efetuar transações financeiras suspeitas.

Antes da eleições gerais de março, a ruptura que ocorreu dentro do Likud (partido conservador, de direita, que chegou a formar a maioria governista), e a surpreendente tomada de controle da liderança do Partido Trabalhista por Amir Peretz haviam conduzido a expurgos nas listas eleitorais. Estes foram promovidos pelos principais partidos, que "limparam" os seus quadros de políticos laranja ou clientelistas em final de percurso e de outros, suspeitos e até mesmo condenados, alvos de uma variedade de acusações de corrupção.

Além disso, depois de anos de cortes nos orçamentos do setor social e de um crescimento marcante da pobreza, a previdência social começou a receber a devida atenção no decorrer da campanha. Uma nova era na política de Israel parecia estar se iniciando.

Imagine então, poucos meses mais tarde apenas, a desilusão que deve ter sentido até mesmo o mais cínico dos eleitores ao se deparar com uma enxurrada de novas acusações criminais contra os políticos que estão atualmente no poder, e de denúncias da incompetência com a qual as agências do governo lidaram com as necessidades do norte durante a guerra, isso sem esquecer da condução da guerra em si.

Acrescente a isso os mais recentes desdobramentos da situação no Irã, um país que está envolvido no que parece ser uma corrida desenfreada para obter armas nucleares, e então, talvez seja mais fácil compreender o renovado sentimento de insegurança dos israelenses. Eles enxergam uma linha direta que corre de Teerã a Damas, e da Síria até o fortalecido centro de comando do Hizbollah em Beirute. Então, os israelenses se sentem cercados, e eles não estão mais convencidos de poder confiar em instituições que estão sob suspeita, tais como o exército, nem de que elas poderão protegê-los.

Assim, não é de espantar ver que muita gente aqui começou a perguntar se aqueles que dizem que o tempo não está ao seu lado estão certos. Ao que parece, todas as opções agora já foram exploradas, e nenhuma delas funciona. No plano externo, a ameaça nuclear do Irã assusta e eles se sentem acuados; no plano interno, eles não mais confiam nas instituições, corroídas pela corrupção; por isso, poucos acreditam na perenidade de Israel Jean-Yves de Neufville

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