Lembrem-se da Europa

Anthony Giddens*

Nos discursos na conferência do Partido Trabalhista da Grã-Bretanha este ano, a União Européia foi pouco mencionada.

Ao fazer seu último discurso em conferência como líder do partido, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, reafirmou seu compromisso com a União Européia, mas quase de passagem. O chefe do Tesouro e quase certamente seu sucessor, Gordon Brown, não fez qualquer referência à Europa no que foi o discurso mais importante de sua carreira até agora.
Os dois principais partidos parecem contentes neste momento em minimizar o envolvimento da Grã-Bretanha na Europa. Mas a afiliação à UE é uma das principais características da Grã-Bretanha, muito mais importante sob muitos aspectos do que sua "relação especial" com os EUA.

No último ano participei de um projeto sobre o futuro da União Européia que se concentra no "modelo social": os sistemas europeus de proteção e bem-estar social. A experiência me mostrou como a Grã-Bretanha é diferente da maioria dos outros países da UE. Se você trabalha sobre a "Europa" na Grã-Bretanha, está fora da corrente dominante da elaboração de políticas.

Durante seus dez anos no poder, Blair não conseguiu mudar muito isso. Ele não estava preparado para se arriscar a forçar a entrada da Grã-Bretanha no euro desde o início, quando sua posição era forte. Ele se inclinou sem hesitar para os EUA, mesmo quando um governo de direita foi eleito; e a aposta que ele fez em acompanhar esse governo na invasão do Iraque ajudou a dividir a UE. Em parte por esses motivos, Blair achou difícil trabalhar com os líderes europeus. Existem duas áreas principais em que Blair teve impacto no cenário europeu.

Os britânicos tiveram um papel importante na criação da agenda de Lisboa, lançada em 2000, que pretende promover o crescimento e a competitividade da UE. Ela se mostrou difícil de implementar, mas forneceu metas para o desenvolvimento socioeconômico da UE. Blair também assumiu a liderança na discussão para melhorar a capacidade militar européia, especialmente na criação de uma força capaz de rápida mobilização em pontos problemáticos.

Blair aprovou a constituição, mas é claro que ficou aliviado quando os eleitores franceses e holandeses disseram não. Talvez liberado por essa reprovação, Blair fez seu melhor discurso sobre a UE em junho passado - sobre como a União Européia deveria reagir.

Blair declarou-se "um pró-europeu apaixonado", mas afirmou que havia necessidade de mais inovação e reformas. Os motivos para a rejeição da constituição não tiveram basicamente a ver com o documento em si. Sobretudo, os referendos na França e na Holanda forneceram um veículo para a expressão de descontentamentos mais amplos sobre emprego, padrões de vida e migração.

Sem a reforma social e econômica, grande parte da qual tem de ser em nível nacional, não havia muita possibilidade de maior integração européia.

Mas em seu discurso, assim como em outros, Blair evitou enunciar o que ele achava que deveria ser o futuro da União Européia e o lugar da Grã-Bretanha nela. O mesmo fizeram todas as outras principais figuras do Partido Trabalhista.

Todos sabemos que a liderança trabalhista pensa que a UE não deveria
existir: um sistema federal com poder demais retirado dos países-membros. Mas a UE é na visão de Blair um projeto político? Nesse caso, de que tipo? Os britânicos serão para sempre "europeus relutantes"?

Mais soberania

Existem bons motivos para que o próximo líder trabalhista, seja quem for, assuma uma linha decidida sobre a UE. Também precisamos de um novo cálculo dos benefícios que a UE pode trazer para a Grã-Bretanha, mas que esteja conectado à agenda modificada que surge na política interna. Eu basearia esse cálculo no que chamo de noção de "mais soberania".

Se soberania significa o controle real de nossos próprios assuntos - em oposição à soberania jurídica simbólica -, nós ganhamos mais nos comprometendo com a UE do que ganharíamos fora dela. Ao contrário do que diz Brown, a globalização econômica não produz e não produzirá nada parecido com um mercado mundial totalmente integrado. Uma das principais atrações da UE é simplesmente o fato de ser um grande mercado muito próximo. A idéia da direita conservadora de que a Grã-Bretanha poderia se retirar da UE e ainda ter todas as vantagens econômicas conferidas pela participação é absurda.

Mas o argumento se aplica com a mesma força às questões que chegam ao centro da vida política - migração, criminalidade, mudança climática. É óbvio que essas questões não podem ser enfrentadas por países individuais agindo por contra própria. Elas estão entre as principais razões para pressionar por uma maior integração européia.

Para alcançarmos mais soberania, a UE tem de ser um projeto político, e não apenas econômico. Mas que tipo de projeto político? E onde devem ficar as fronteiras da UE?

Minha resposta pessoal seria que a Turquia e os países dos Bálcãs deveriam ter a oportunidade de aderir, como a UE já concordou em princípio, se eles fizerem as mudanças necessárias; mas depois disso chega. Não mais membros plenos, mesmo que se ofereçam privilégios especiais a países como Ucrânia, Geórgia, Moldávia ou os países do norte da África.

Deveria haver um único ministro das Relações Exteriores europeu, em vez de um cargo dividido em dois, como ocorre hoje. A proposta da constituição de um presidente eleito pelo Conselho Europeu, servindo por um período de pelo menos dois anos, deveria ser apoiada. A atual presidência rotativa de seis meses é uma receita para a descontinuidade na tomada de decisões e o reinado da inércia.

As relações transatlânticas precisam ser reconsideradas. Blair construiu grande parte de sua estratégia de relações exteriores sobre a idéia de que a Grã-Bretanha poderia ser uma ponte entre os EUA e a Europa. Não foi a abordagem correta. Ela implica mais uma vez que a Grã-Bretanha não faz realmente parte da Europa.

A política externa é uma área em que, apesar dos problemas, a UE foi bastante eficaz - ao ajudar a estabilizar a Macedônia, por exemplo, ou ao convencer a Rússia a ratificar o Tratado de Kioto - e poderia ser ainda mais no futuro.

A Grã-Bretanha deveria continuar pressionando pela reforma econômica e a liberalização na UE, como diz Brown. No entanto, existem duas restrições.

A primeira é que precisamos muito mostrar que a reforma social e econômica é a condição para preservar o bem-estar eficaz. Segundo, deveríamos parar de agir como se a Grã-Bretanha não tivesse nada a aprender com o resto da Europa. Os países escandinavos superaram a Grã-Bretanha nos índices de crescimento nos últimos dez anos; eles também têm muito menos desigualdade.

O próximo líder trabalhista vai precisar de aliados, e estes devem transcender as divisões causadas pela aventura do Iraque. A chanceler alemã, Angela Merkel, é uma aliada potencial da Grã-Bretanha, apesar de ser hostil à eventual entrada da Turquia na UE. O primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, e o espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, também poderiam ser figuras amigas, assim como o primeiro-ministro húngaro, Ferenc Gyurcsany, desde que ele supere suas atuais dificuldades.

Supondo que o próximo líder trabalhista seja Brown, ele terá de trabalhar muito mais nas questões acima mencionadas. Espero que eu tenha mostrado alguns dos motivos pelos quais deve fazer isso.

*Anthony Giddens é ex-diretor da Escola de Economia de Londres Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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