Histórias de suicídio

Marc Cousins*

Israel não produziu um só mestre do cinema - nenhum Leone, nenhum Bergman, nenhum Hitchcock. Quando estava escrevendo o meu livro, "The Story of Film" ("A História do Filme"), eu quis incluir filmes israelenses, mas terminei decidindo não fazer tal coisa, assim como não escrevi a respeito de filmes da minha nativa Irlanda. Nenhum dos dois países contribuiu suficientemente para esta área.

No decorrer dos anos vi filmes israelenses decentes sobre o conflito de classe entre judeus ashkenazi e sefarditas, sobre o conflito de gerações e a crise de identidade. Gostei de filmes feitos por Assi Dayan e, especialmente, pelo documentarista veterano Amos Gitai. Vários dos grandes diretores de cinema - Ernst Lubitsch, Billy Wilder, Abraham Polonsky, Steven Spielberg - foram judeus. Mas não israelenses.

Por que esse mau desempenho? Primeiro, Israel é um país jovem e pequeno. Segundo, o seu Ministério das Artes não parece valorizar o cinema - em 1995, apenas 5% do orçamento para a educação foram destinados à esta que é a mais cara das artes. Terceiro, a não emergência de um Leone ou um Hitchcock significa que os jovens israelenses talentosos não contaram com modelos significativos. E, por último, talvez, os cineastas israelenses tenham sido prejudicados por sentirem sobre os ombros o peso da insegurança e da destruição que prevalece em seu país.

O recente filme israelense "Avenge But One of My Two Eyes", ("Vingue Tudo, Mas Deixe um dos Meus Olhos", Israel, 2005), que acaba de ser lançado em DVD, carrega vários fardos nacionais, e se eu estivesse escrevendo o meu livro hoje, teria incluído nele esta obra, bem como o seu roteirista, diretor e editor, Avi Mograbi. Assim como muitos dos melhores filmes sobre o Oriente Médio, esse é um documentário - o quinto do seu diretor. E também como vários filmes desse tipo, ele é alimentado pela sensação de que Israel está cometendo um crime contra a Palestina. "Avenge But One of My Two Eyes" tem início em um alvorecer gelado na montanha sombria de Masada, e se desenrola em um brilhante ensaio cinematográfico sobre as causas da cegueira moral.

Algumas cenas são familiares. Um entregador palestino tentar entrar na zona controlada e é obrigado a falar com um guarda que está em uma torre de observação; os parentes de uma mulher enferma fazem súplicas a soldados israelenses que estão em um tanque, e os militares respondem por meio de um megafone. Mograbi e o seu cinegrafista estão atentos para o absurdo que são tais conversas, e usam-nas para estabelecer o clima que permeia o filme inteiro.

Uma cena recorrente é o próprio Mograbi, tarde da noite, em casa e com a televisão ligada, falando ao telefone com o seu amigo palestino, que por motivos de segurança tem a voz dublada pelo ator Shredi Jabarin. A conversa entre os dois não tem nada daquela urgência presenciada nas comunicações do entregador e da família da mulher doente, mas mesmo assim é cativante. O amigo parece dizer que, neste estágio da segunda intifada, mal vale a pena viver a vida, e esta, devido a isso, é facilmente sacrificada.

O Ocidente fica estarrecido ao constatar que certas pessoas no mundo islâmico estão preparadas para se matar a fim de serem ouvidas. O vigor intelectual do filme de Mograbi - ou, se preferirem, o choque que a obra causa - reside no fato de ele remeter esse estarrecimento de volta a Israel. Ele questiona: "Mas nós também não estamos preparados para matarmo-nos? O tema dos nossos mitos sobre perseguição não é o suicídio?".

Na cena de abertura, filmada com uma câmera portátil na luz azul de uma fria manhã, turistas judeus - adolescentes norte-americanos e vários outros - são mostrados no topo de Masada, observando o Deserto de Judá. Eles são informados a respeito da história do século primeiro, dos 900 zelotes que preferiram se matar a se render aos romanos. Pergunta-se então aos turistas o que eles fariam - matar-se-iam também, ou render-se-iam?

Mograbi faz logo um corte para uma cena na qual crianças israelenses aprendem a história de Sansão. O título do seu filme é retirado da súplica feita por Sansão a Deus - que deixasse que ele se vingasse dos filisteus por estes lhe terem arrancado os olhos. Assim como os adolescentes absorveram a impressão de que os seus antepassados cometeram um suicídio heróico, estas crianças absorvem agora um mito bem mais antigo a respeito de um suicídio em nome de um princípio sublime.

O escritor israelense David Grossman chamou Sansão de "o primeiro assassino-suicida" no seu livro não ficcional "Lion's Honey" ("Mel de Leão"), e, sendo assim, a idéia de Mograbi pode não ser original. Mas o seu filme não traz comentários, e o argumento é apresentado por meio de imagens, e não de palavras.

O diretor soviético Sergei Eisenstein disse que, em se tratando de cinema, um mais um é igual a três. Duas idéias, quando aglutinadas, são capazes de produzir uma terceira idéia - na mente do expectador. É isso o que ocorre no filme de Mograbi, onde a proposição "a morte é preferível à dominação" é apresentada como sendo uma das idéias centrais que dão base ao Estado israelense.

Perto do final, em um encontro com jovens soldados israelenses, Mograbi perde as estribeiras e gritando, diz a eles que cresçam. A princípio a cena me tocou, mas mais tarde me perguntei se essa extraordinária liberação de raiva contribuiu para o filme. Pode-se argumentar que os soldados são rudes porque lhes ensinaram, por meio dos próprios mitos de suicídios que Mograbi vinha mostrando, que os inimigos são ignóbeis. Caso seja esse o caso, então um mais um é novamente igual a três.

A direita de Israel odiou esse filme, e alguns membros da diáspora judaica provavelmente acusarão Mograbi de ser anti-semita. Politicamente, ele é corajoso. Mas também ficou claro que, sob o ponto de vista cinematográfico, ele é inovador. "Avenge But One Of My Two Eyes" é um dos melhores filmes ensaísticos dos tempos modernos, podendo ser comparado ao trabalho de Chris Marker, o mais reflexivo cineasta-ensaísta. Os personagens falam em hebraico. O filme traz legendas em inglês mas, também, e de forma incomum, em árabe. Para um filme sobre o diálogo, isso é apropriado.

*Marc Cousin é autor do livro "The Story of Film" Danilo Fonseca

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