Uma nova imagem da Turquia

Hugh Pope*

A idéia de um "modelo turco" que poderia tranqüilizar e dar um sentido de direção para o Oriente Médio foi citada muitas vezes nas últimas décadas por políticos esperançosos, principalmente em Washington e Londres. Mas os árabes e iranianos há muito desconfiam dos turcos, e o sentimento foi retribuído. Os muçulmanos mais orientais sentiram que, ao relegar o islamismo à esfera privada, os turcos se ocidentalizaram demais, praticamente tornando-se infiéis.

Por isso, quando virei uma esquina no bazar coberto de arcadas na cidade palestina de Nablus, recentemente, fiquei surpreso ao ver uma floresta de bandeiras turcas com a estrela e a meia-lua, hasteadas diante de uma das antigas lojas. Pedi que o vendedor explicasse. "É o jeans", ele respondeu. "Recebi um novo carregamento de Istambul. Quero que todos saibam."

No Iraque curdo, cartazes anunciam ar-condicionados turcos até nos desfiladeiros no alto das montanhas, apesar da tensão com a Turquia devido às esperanças de independência curda. No Irã, que já ridicularizou muito o "burro turco", anúncios de praia e sol seduzem centenas de milhares a visitar a Riviera turca. O rei Abdullah da Arábia Saudita declarou abertamente seu interesse pelas realizações turcas e neste verão fez a primeira visita em décadas de um rei saudita ao país.

Em outubro, enquanto tropas turcas começavam a chegar ao Líbano para a nova força de paz, não houve o antigo coro de protesto árabe pelo envolvimento turco no Oriente Médio.

A Turquia também mudou. Enquanto o país já foi decididamente secular e voltado para o Ocidente, seu grupo político dominante desde 2002, o partido Justiça e Desenvolvimento, tem origem na política islâmica. A Turquia hoje demonstra uma disposição cautelosa para assumir parceiros do Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, o Ocidente parece mais distante. Apesar da entrada da Turquia na Otan e do apoio dos EUA a seu pedido de ingresso na União Européia, a maioria da população turca manifesta níveis de antiamericanismo dignos do Oriente Médio. Mas a Turquia não está se movendo para leste, em vez de para o oeste. Está, sobretudo, sentindo-se mais confiante de que faz parte de ambos.

A Turquia está explorando sua nova autoridade no Oriente Médio muçulmano. Na Organização da Conferência Islâmica (OCI), que reúne 57 países muçulmanos, a Turquia mobilizou em 2004 uma maioria contra os nacionalistas árabes conservadores que há muito dominavam o grupo. Na primeira votação secreta da OCI, o turco Ekmeleddin Ihsanoglu foi eleito secretário-geral, contra os desejos da Arábia Saudita. Um teólogo com passado acadêmico que abrange Oriente e Ocidente, Ihsanoglu definiu o rumo para a construção de um futuro comum para o Ocidente e o islã moderado.

Antigamente, quando a Turquia se oferecia como mediadora nas disputas do Oriente Médio, os países árabes zombavam. Hoje diplomatas turcos estão em toda parte. A Turquia teve um pequeno papel na retirada das tropas sírias do Líbano em 2005. Em setembro passado, o ministro das Relações Exteriores turco arranjou uma reunião em Istambul entre os chanceleres de Israel e do Paquistão, o primeiro contato público de alto nível entre os dois países.

Garantias turcas ajudaram a convencer os grupos muçulmanos sunitas da corrente dominante a participar das eleições iraquianas em 2005. Enquanto as relações da Turquia com Israel foram calorosas no passado, os habitantes do Oriente Médio notam o tom irado que envolve a voz do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan quando ele critica aquele país.
O relacionamento Turquia-Oriente Médio foi infeliz na primeira parte do século 20. Sob a mão modernizadora de Mustafá Kemal Ataturk, a Turquia dissolveu o califado islâmico em 1924, trocou o alfabeto árabe pelo latino em 1928 e adotou uma série de leis baseadas em modelos europeus. Os olhos da elite turca se fixaram em Paris, Londres, Nova York e Washington.

Enquanto isso, os novos países árabes que haviam feito parte do Império Otomano durante quase 500 anos começavam a construir suas identidades nacionais sobre o repúdio à herança otomana. Nas décadas de 60 e 70, o dinheiro do petróleo reforçou uma nova sensação de superioridade no Irã e no mundo árabe.

As coisas voltaram a favorecer a Turquia nos anos 80. O Irã e o Iraque se empobreceram mutuamente com uma guerra de oito anos. O preço do petróleo disparou. Enquanto isso, a Turquia aumentou suas exportações para o Irã e o Iraque e começou a ditar seus próprios termos em crédito e comércio.

Mas a verdadeira novidade veio depois de uma ameaça aberta da Turquia de declarar guerra à Síria em 1998, que obrigou Damasco a expulsar o líder rebelde turco-curdo Abdullah Ocalan. Isso abre caminho para uma seqüência extraordinária. De crítica mais agressiva à Turquia nas cúpulas árabes, a Síria tornou-se sua mais animada defensora. Damasco foi por sua vez inundada pelo calor que subitamente irradiou de Ancara.

Rateb al-Shalah, diretor da Câmara de Comércio da Síria, disse-me com um suspiro temeroso que a Turquia havia enviado 26 delegações ministeriais em apenas quatro anos. "Os turcos são espertos. Eles têm uma capacidade excedente de produção e sentem que o mercado árabe é muito importante para eles. Da Turquia, a única rota de transporte passa pela Síria. Nós somos sua janela para a maioria dos países do Golfo. Temos muito em comum. Você ficaria surpreso ao ver como os tabus morrem rapidamente."

Os turcos de Istambul e líderes do establishment secular do país continuam determinados a ancorar a Turquia no Ocidente. E é verdade que a maior parte das exportações da Turquia vai para a União Européia e clientes mais distantes. Mas o grande Oriente Médio forneceu mais da metade do valor total dos contratos de trabalho no exterior da Turquia em 2006, um aumento acentuado em relação aos anos anteriores. As empresas turcas hoje têm grande participação na construção do metrô e da cidade das Palmeiras, no litoral de Dubai, e de um novo terminal no aeroporto do Cairo.

Os EUA há muito esperavam que os países do Oriente Médio seguissem o caminho da Turquia. No entanto, a relação Turquia-EUA parece destinada a se deteriorar na medida em que a América parece aceitar a ruptura do Iraque, especialmente se isso der origem a um Curdistão independente. Os temores turcos de que estrangeiros estejam planejando dividir seu território provavelmente empurrarão o país para os braços de outros parceiros no Oriente Médio que não querem um Curdistão independente, como Irã, Síria e o Iraque, xiitas e sunitas igualmente.

Mas o fato de que a Turquia está se tornando mais influente é em parte um tributo ao simples poder de seu sucesso. E esse sucesso está sendo comunicado ao Oriente Médio por um grupo importante de árabes que estudaram na Turquia e passaram a ser intérpretes simpáticos aos assuntos turcos para a mídia árabe.

Uma dessas figuras é um estudante de origem palestina criado na Arábia Saudita, Hazem Abu-Seifan, de 29 anos. Ele explicou a mudança de mentalidade: "Quando cheguei à Turquia em 1990, acreditava na volta ao islamismo fundamental, no antiamericanismo e no ódio ao Ocidente. Eu via os turcos como provincianos retrógrados", disse-me Abu-Seifan. "Agora as coisas mudaram completamente. Com a ascensão de Dubai, os turcos não nos vêem mais como simples condutores de camelos. Falando árabe, vindo da Arábia Saudita, sendo de origem palestina, todos agora são vistos positivamente aqui - eu consigo descontos nas lojas. Eu também mudei. A Turquia tem uma abertura com que os árabes só podem sonhar. Sendo um país muçulmano, a Turquia ajudou a me conquistar."

*Hugh Pope é autor de "Sons of the Conquerors" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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