Brincadeira de criança

Hans Kundnani*

Para a maior parte das pessoas fora da Alemanha, Guenter Grass é apenas um escritor. Na Alemanha, entretanto, ele sempre foi algo mais. Desde que revelou em agosto que, quando tinha 17 anos de idade, foi membro das Waffen-SS, Grass tem sido regularmente descrito como a "consciência moral" da Alemanha. No entanto, essa descrição não transmite seu papel preciso na Alemanha do pós-guerra nem explica o significado maior da revelação, feita - cinicamente, segundo os críticos - logo antes da publicação de seu livro de memórias "Beim Hauten der Zwiebel" (descascando a cebola).

Nascido em 1927, Grass era um Flakhelfer - um dos meninos da Juventude hitlerista e que foram convocados ao serviço militar, operando baterias antiaéreas no final da Segunda Guerra Mundial. Sua geração vivenciou o período nazista, mas era jovem demais para se sentir culpada.

Essa experiência se tornou o grande tema do trabalho de Grass, a começar pela publicação de seu primeiro romance, "O Tambor", em 1959. Repetidamente Grass instou a Alemanha a romper seu silêncio sobre o período nazista e honestamente enfrentar o passado. Ele interveio em quase todos os debates públicos na Alemanha Ocidental de 1960 em diante, reprovando cada vez mais duramente os outros por sua incapacidade de aprender as lições do passado.

Grass foi de uma geração exemplar, de muitas formas. Outras - como as que nasceram em torno ou depois da guerra e amadureceram durante a rebelião de 1968 - também tentaram expor o passado nazista, mas terminaram chegando a tais extremos de revolta contra a Alemanha Ocidental de Adenauer que repetiram alguns dos erros de seus pais.

Grass sobriamente aceitou a democracia liberal e fez campanha para Willy Brandt e os sociais democratas, que a geração de tudo ou nada de 68 via como vendidos. O escritor e a geração Flakhelfer representavam uma Alemanha que tinha aguda consciência de seu passado e das responsabilidades herdadas -tanto assim que podiam até dar lições a outros países sobre como lidar com os capítulos mais negros de suas histórias. Portanto não foi surpreendente quando Grass foi o intelectual alemão ocidental mais proeminente a se opor à reunificação -ele representava, talvez melhor do que qualquer outro alemão, a "república de Bonn" que a reunificação extinguia.

Agora, entretanto, parece que a história não foi tão simples. Os meninos nascidos em 1927 foram os últimos a serem convocados ao exército no final da guerra. Mas Grass, de fato, tinha se voluntariado mesmo antes de chegar à idade exigida e foi subseqüentemente convocado, com 16 anos, para a 10ª divisão SS Panzer. Com efeito, a admissão de Grass transformou-o de um mero Flakhelfer para um membro da chamada "geração perpetradora". Em "Beim Hauten der Zwiebel", ele eloqüentemente descreve como "o menino que aparentemente era eu" cresceu idolatrando Max Schmeling e sonhando em trabalhar em um submarino. Acreditar em Hitler era, como ele diz, "brincadeira de criança".

Mas justamente porque é difícil culpar Grass pelo que fez em tão tenra idade, é que preocupa o fato de ter mantido sua associação às Waffen-SS em segredo por 60 anos, aparentemente até da sua mulher. Certamente seu passado traz outra luz às suas intervenções em vários debates públicos, em particular seu ataque virulento ao chanceler Kohl por convidar o presidente Reagan para uma homenagem aos mortos em um cemitério militar em Bitburg em 1985, onde membros das Waffen SS estavam enterrados.

A metáfora central de "Beim Hauten der Zwiebel" é que a memória, como uma cebola, tem que ser descascada camada por camada, apesar dos anos, para se chegar à verdade. Entretanto, no capítulo intitulado "Como aprendi a ter medo", no qual fala de seu tempo nas Waffen-SS, Grass usa uma metáfora diferente. A memória se torna um filme antigo que fica turvo, às vezes corre, às vezes quebra. O narrador continuamente enfraquece seu próprio livro de memórias, levantando uma série de questões que deixa sem resposta: sua carta de convocação incluía as iniciais temidas SS, como dizem os historiadores? Como ele reagiu? O que fez em seu tempo nas Waffen-SS?

Grass fornece um relato vago dos meses que passou na frente oriental em 1945, mas deixou claro que se lembra de uma coisa: nunca atirou com sua arma. Depois de se ferir e ir parar em um campo americano de prisioneiros de guerra (onde ele diz que conheceu outro menino católico alemão de 17 anos, Joseph Ratzinger), ele fica igualmente horrorizado em ver os americanos brancos chamando seus soldados de "negros" do que ao descobrir -aparentemente pela primeira vez- sobre o Holocausto. Grass termina evadindo e relativizando o passado nazista, exatamente a atitude que tanto criticou nos alemães e na Alemanha como um todo.

Apesar de tudo isso ser chocante, sua importância agora é principalmente histórica, dada a posição de Grass como alemão exemplar do pós-guerra. Desde a reunificação, Grass tornou-se cada vez mais irrelevante como figura política. Os debates intermináveis e de certa forma narcisistas entre a geração Flakhelfer e a geração de 1968 sobre a identidade alemã depois de Auschwitz se tornaram ainda mais obscuros.

A tempestade em torno das revelações de Grass foi, com efeito, um epílogo da história do pós-guerra da Alemanha. Não terá sido cedo demais se uma de suas conseqüências for torná-lo na Alemanha o que é em outras partes -apenas um escritor.

*Hans Kundnani está escrevendo um livro sobre a geração de 1968 na Alemanha Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos