France Profonde: Le Pen necessita de assinaturas

Tim King*

Políticos e politicólogos de Paris gostam de sentir que as decisões fundamentais sobre a democracia na França se constituem em seu domínio exclusivo, mas graças a circunstâncias não previstas pelos redatores da constituição de 1958, a futura trajetória da democracia francesa está, de forma sucinta e exclusiva, nas mãos dos prefeitos da França rural - em suja maioria diretores de escolas e fazendeiros aposentados que compartilham apenas um cinismo inato em relação aos politicólogos parisienses.

Qualquer um que espere se tornar presidente da França necessita obter 500 assinaturas de representantes políticos eleitos de 30 departamentos (cerca de um terço do total), sendo que não mais de 50 assinaturas podem se obtidas em um único departamento. Isso não é problema algum para os três principais candidatos, que dependem dos membros do parlamento, senadores e prefeitos dos seus partidos. Mas tal tarefa é bem mais difícil para os cerca de 30 aspirantes a candidato dos partidos menores, que têm que se aventurar pela France profounde (a França rural) suplicando assinaturas a prefeitos do interior: em 2002, Jean-Marie Le Pen, líder da ultra-direitista Frente Nacional, obteve 90% das suas assinaturas em comunidades com menos de 500 habitantes.

"Durante quatro anos e meio não ouvimos sequer um grunhido deles", queixou-se um prefeito local à reportagem. "Mas depois, subitamente, começam a chegar as cartas bajuladoras, prometendo-nos a Lua".

A isso seguem-se os telefonemas e as visitas particulares. E à medida que o prazo para a apresentação das assinaturas começa a se esgotar, aumenta o desespero e o assédio moral.

Esse surto de bajulação poderia fazer com que os dirigentes das localidades rurais se achassem muito importantes, mas muitos que assinam acabam se arrependendo. O voto não é secreto. A lista de assinaturas é afixada no conseil constitutionnel em Paris - e atualmente na Internet. A maioria dos prefeitos rurais se constitui dos "sans etiquette", eleitos segundo o entendimento de que governam segundo o bom senso, e não de acordo com dogmas partidários, de forma que, apesar de qualquer assinatura implicar no risco de críticas, o endosso a um candidato extrmista muitas vezes provoca ataques da imprensa local, insultos públicos ou até mesmo a perda do mandato. Os 500 prefeitos que sofrem mais são os que assinam em favor de Le Pen.

Alain Jamet, vice-presidente do partido Frente Nacional, disse-me que os prefeitos rurais tem cada vez mais medo de que, caso endossem Le Pen, tenham as verbas cortadas e os projetos bloqueados por políticos moderados de âmbito regional e nacional que controlam o orçamento. Dos 500 prefeitos que endossaram Le Pen em 1995, somente 20 voltaram a conceder assinaturas ao candidato em 2002.

Mas muitos acham que o fato de não assinar pode ser pior. Um prefeito local expressa a crença de vários outros: "Temos um dever democrático de permitir que qualquer um possa concorrer. De que outra forma as pessoas poderiam decidir? Uma corrida entre dois cavalos não se constitui em democracia".

Mas outros prefeitos argumentam que o seu dever democrático é se recusar a assinar, limitando o número de candidatos e, dessa forma, impedindo uma repetição do fiasco de 2002, quando 16 candidatos dividiram os votos dos eleitores, permitindo que a Frente Nacional fosse para o segundo turno. Antes daquela eleição, Le Pen encontrou enorme dificuldade para obter o número mínimo de assinaturas. As últimas foram obtidas poucas horas antes do fim do prazo. Mesmo assim, naquela eleição ele venceu todos, exceto Chirac.

Mas Le Pen sente que o sucesso, em vez de a sua legitimação, só fez com aumentasse a pressão exercida desta vez pelos principais partidos sobre os prefeitos rurais. Ele adverte que a intimidação orquestrada significa que não obterá as assinaturas das quais necessita - e, no entanto, mais gente declarou a sua intenção de votar nele desta vez do que no primeiro turno da eleição passada.

"Em nenhum outro país um candidato que ficou em segundo lugar em uma eleição se veria impedido de participar da próxima", protesta Jamet.

Em 2002, a France profounde surpreendeu muita gente, ao revelar-se a nova área de expansão da Frente Nacional. Caso Le Pen obtenha as assinaturas, o apoio ao candidato nesta região pode ser ainda maior desta vez. Em uma tradição verdadeiramente populista, ele sempre defendeu o homem simples que se sente esquecido, e que atualmente poucos se sentem mais abandonados do que aqueles que tentam ganhar a vida na França rural. Em 2002, um em cada quatro eleitores votou em Le Pen, "porque eles se sentiram traídos pela Europa e abandonados por Paris", segundo um dirigente local da Frente Nacional.

A vinicultura é uma outra indústria rural em crise. Em 2002, o número de votos na Frente Nacional em diversos vilarejos vinícolas do sul do país aumentou 30%. Atualmente, enquanto o consumo de vinho francês continua caindo, Bruxelas está propondo a destruição de 400 mil hectares de vinhedos. O remédio proposto por Le Pen, no que diz respeito a todos os setores agrícolas, é bater de volta na Europa, interromper a globalização e reconstruir tudo o que é francês.

Mas o fenômeno não envolve apenas os agricultores. Atualmente o interior francês conta com uma proporção de operários maior do que a das cidades. O fim de uma fábrica rural como a Moulineux, da qual dependem várias vilas, teve um efeito catastrófico sobre uma área vata na qual não existe nenhuma outra fonte de emprego. Similarmente, o temor quanto a uma transferência das indústrias da França rural para a Europa Oriental e outras regiões faz com que aumentem as intenções de votos em Le Pen: vários dos novos adeptos do candidato são comunistas desiludidos, e o seu partido está ganhando terreno em antigos redutos da esquerda rural radical.

Algumas áreas da France profounde aumentaram a sua votação na Frente Nacional em 10% em 2002, e Le Pen nomeou um dos seus assessores mais inteligentes, Jean-Claude Martinez, membro do Parlamento Europeu, para coordenar a sua campanha rural. Mas, primeiro, tudo depende de ele ser capaz de persuadir 500 prefeitos a enfrentarem a execração popular e o ostracismo político ao apoiarem a democracia. Mas os prefeitos rurais poderiam muito bem decidir que os interesses da democracia seriam mais bem atendidos caso Le Pen ficasse de fora - frustrando os 5,5 milhões de eleitores que votaram nele na eleição passada. Isso é um verdadeiro teste para o significado da democracia real.

*Tim King escreve a coluna "France Profounde" para a "Prospect Magazine"

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