Mudança climática

Adair Turner*

Hoje poucos cientistas respeitados duvidam que o mundo esteja se aquecendo, que as emissões de dióxido de carbono (CO2) produzidas pelo homem sejam em grande parte responsáveis por isso e que o aquecimento aumentará ao longo do século. O ritmo da mudança e o impacto sobre o clima de regiões específicas é discutível. Mas está claro que o aquecimento global é uma realidade e que há probabilidade de graves conseqüências - que vão da elevação do nível do mar à disseminação de doenças tropicais.

Mas apesar do amplo apoio ao recente relatório Stern sobre os aspectos econômicos do aquecimento global, uma ação rápida e significativa para combatê-lo ainda é contestada por adversários, que se vêem inserindo as realidades econômicas em um debate exageradamente emocional. Bjorn Lomborg, do Centro de Consenso de Copenhague, argumentou que evitar a mudança climática deveria ter baixa prioridade, comparado com outros desafios globais como a Aids. Grupos de lobby empresarial afirmam que medidas para reduzir as emissões prejudicariam a competitividade.

O Protocolo de Kyoto, em particular, é muitas vezes atacado como ineficaz e prejudicial, ao restringir as emissões dos países ricos e deixar a China e a Índia livres para usar energia de baixo custo e adquirir vantagem competitiva. Mas esses argumentos não são convincentes. Existe uma tese econômica sólida a favor da ação rápida para enfrentar a mudança climática. E enquanto Kyoto é uma política imperfeita em um mundo imperfeito sua abordagem geral está certa.

As projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU, encarregado de analisar o problema, sugerem que os níveis de emissões globais de CO2 de 1990 poderão mais que duplicar até 2050.

O crescimento econômico sob a suposição de que "tudo está bem" - sem uma ação para conter as emissões - provocará um aumento maciço no estoque de gases do efeito estufa na atmosfera. Nos 500 mil anos que antecederam a Revolução Industrial, as concentrações de CO2 oscilaram entre cerca de 150 e 280 partes por milhão. Hoje elas alcançaram 380, e sem uma ação provavelmente atingirão de 540 a 970 partes por milhão até o final deste século.

As implicações exatas para a temperatura não estão claras, e as reduções de emissões necessárias para limitar as concentrações a um nível seguro são discutíveis. Mas evitar uma grande mudança climática provavelmente exigirá cortes radicais de 60% ou mais do nível atual de crescimento econômico. Diante dessa escala de ajuste, os adversários da ação apresentam um segundo argumento, salientando os enormes custos e afirmando que, em vez de aceitar as implicações para o crescimento e os padrões de vida, o mundo deveria se adaptar à mudança climática.

Mas a descoberta mais crucial dos estudos econômicos da mudança climática é que o custo de cortes radicais nas emissões não é enorme. Em relação ao PIB total, as estimativas variam de diminutas a muito pequenas. A melhor estimativa do relatório Stern é que o custo de reduzir as emissões globais em 25% abaixo dos níveis atuais até 2050 seria de apenas 1% do PIB global.

Se o mundo tomar as medidas necessárias para evitar o aquecimento global, o impacto sobre o crescimento do PIB global no século 21 será quase imperceptível.

Um argumento econômico contra a ação para evitar a mudança climática ainda pode ser defendido, porém. Embora fosse factível passar para uma economia de baixo consumo de carbono ao custo de, digamos, 2% do PIB até 2050, não seria ótimo se as conseqüências adversas da mudança climática, ou o custo de adaptar-se elas, representassem menos de 2%. Portanto, ao se elaborar modelos do custo comparativo das conseqüências da mudança climática, a redução e a adaptação são vitais para o debate.

Fazer essas comparações exige inúmeras suposições, e economistas diferentes usando modelos diferentes produzem resultados muito díspares. Mas os custos econômicos e humanos da mudança climática quase certamente superarão em muito os custos da redução. O relatório Stern sugere que no nível atual as conseqüências negativas em longo prazo para o bem-estar humano poderão ser tão altas quanto 5 a 20% do PIB global. E duas conclusões comuns aos modelos mais realistas oferecem fortes argumentos para uma ação rápida.

Primeiro, as implicações do aquecimento global combinam uma alta probabilidade de prejuízos significativos com uma possibilidade não desprezível de conseqüências catastróficas. Isso reflete profundas incertezas da ciência e da economia. A tradução de um determinado aumento nas emissões de gases do efeito estufa em aumento de temperatura é inerentemente incerta, ainda mais devido à possibilidade de efeitos auto-intensificadores. Por exemplo, o aquecimento poderia causar a liberação do metano atualmente preso na tundra gelada, e o aumento resultante dos gases de efeito estufa poderia provocar ainda mais aquecimento.

O segundo argumento para a ação rápida é que as regiões mais quentes sofrerão mais que as frias. Até um certo nível, o aquecimento poderia ter efeitos positivos nas regiões mais frias. Um aumento moderado de temperatura no Canadá poderia resultar num aumento das produções agrícolas, mas temperaturas ligeiramente mais altas na Índia prejudicariam a produtividade agrícola e a saúde humana.

Agregando esses efeitos, alguns modelos sugerem que as conseqüências negativas globais de aumentos modestos de temperatura são insuficientes para justificar até pequenos custos de redução, mas quase todos os modelos mostram que algumas regiões - como a Índia e grande parte da África - perderiam significativamente com uma política de inação. Assim, alguns economistas afirmam que o mundo desenvolvido, em vez de agir para reduzir as emissões, deveria fazer transferências de renda para países mais vulneráveis para ajudar na adaptação. Mas outros, como Lomborg, rejeitam esse argumento.

O importante ambientalista pediu que os oito economistas considerassem um conjunto de iniciativas que o mundo desenvolvido poderia financiar e as classificassem de acordo com seu benefício para a humanidade. Os economistas colocaram três políticas diferentes de ação contra a mudança climática (incluindo o Protocolo de Kyoto) quase no final da lista, preferindo projetos de combate à Aids, malária e desnutrição e obras de saneamento.

Lomborg cita esse exercício como evidência de que Kyoto tem defeitos. Essa interpretação das conclusões do Consenso de Copenhague, porém, é profundamente enganosa. É muito possível concordar que os programas contra Aids e malária devem ter prioridade e ao mesmo tempo apoiar a ação rápida sobre a mudança climática. Além disso, muitas ações para reduzir as emissões não disputam recursos limitados, mas na verdade os liberam. Se as pessoas forem para o trabalho de bicicleta ou comprarem carros de consumo mais eficiente, terão mais recursos disponíveis para doar aos fundos contra a Aids.

Se os governos aumentarem os impostos sobre os combustíveis fósseis, assim encorajando as pessoas a se comportarem de maneira mais benéfica ao meio ambiente, não terão menos recursos para apoiar o desenvolvimento externo, e poderão ter até mais.

Isso não significa que toda ação contra a mudança climática não tenha um custo. Melhorar a eficiência energética talvez não, mas pedir que os indivíduos comprem energias renováveis mais caras exigiria que eles sacrificassem outras formas de consumo. Uma questão econômica chave, portanto, é se é melhor para a humanidade fazer sacrifícios hoje ou no futuro. Vários economistas afirmam que as medidas para reduzir as emissões serão apropriadas em certo momento, mas a maior parte da redução deve ser adiada, já que o futuro crescimento tornará as pessoas mais ricas e melhor situadas para sacrificar o consumo marginal.

Análises e modelos econômicos isolados não podem definir uma política ótima para a mudança climática - há muitos fatores subjetivos em jogo. Mas a análise econômica pode estreitar o leque de opções sensatas. Ela sugere que o objetivo a longo prazo deveria ser reduzir em muito o risco de ultrapassar limites potencialmente perigosos de concentração de gases do efeito estufa e de aumento da temperatura. Isso implica que uma política ótima evitaria reduções de emissões radicais que pudessem prejudicar seriamente o crescimento econômico, enquanto estabeleceria um esquema para aumentar as reduções com o tempo. E a análise econômica reconhece que mesmo reduções iniciais modestas podem ajudar a estimular tecnologias que tornarão as reduções posteriores menos dispendiosas.

*Adair Turner é ex-diretor-geral da Confederação da Indústria Britânica Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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