O xá do Paquistão

Pervez Hoodbhoy*

O general Pervez Musharraf é um homem ocupado. Ele está se preparando para 2007, quando, se tudo correr bem, as eleições ampliarão o seu governo de sete anos de regime quase militar por um período de mais cinco anos. Ele quer permanecer presidente não porque tem sede de poder, mas sim porque ninguém mais é capaz de reformar o Paquistão. Quem mais poderia manter os fanáticos islâmicos radicais sob controle e, ao mesmo tempo, promover um crescimento acelerado da economia? "O que o país precisa é de uma ditadura democrática", afirma o general.

Esse argumento tem sido bem recebido nos Estados Unidos, onde a recente turnê de lançamento do livro de Musharraf foi um sucesso estrondoso. O seu livro de memórias, "In the Line of Fire" ("Na Linha de Fogo"), já atraiu um grande número de leitores, mas não se trata de uma peça edificante de literatura. Nele lemos que o "precoce" jovem Musharraf se transformou em um valente soldado que "deveria ter recebido duas condecorações por bravura", e não apenas uma. Ele declara que, quando se tornou oficial, os seus superiores viram nele "um líder excepcional", que "sempre foi adorado" pelos seus subordinados.

O general presta muita atenção nos locais em que reside o poder. Talvez seja por isso que ele tenha lançado as suas memórias nos Estados Unidos - país que, conforme ele revela no livro, ameaçou bombardear o Paquistão "de volta à Idade da Pedra", caso o governo paquistanês se recusasse a cooperar após os ataques do 11 de setembro. Quando lhe perguntaram a respeito disso durante uma entrevista coletiva à imprensa em conjunto com o presidente George W. Bush, ele afirmou que o contrato editorial proibia que revelasse o conteúdo do livro prematuramente. De fato, Mussharraf deu mais importância às exigências dos seus editores do que à situação dos 165 milhões de indivíduos que ele governa. Mas, deixando esse episódio de lado, as suas manifestações explícitas de lealdade aos Estados Unidos mais uma vez lhe renderam elogios de Bush, que o chamou de "vigoroso defensor da liberdade".

Para Musharraf, o quarto general em 40 anos a usurpar o poder no Paquistão, a ruptura ocorreu em 11 de setembro de 2001. Em uma questão de horas, o seu papel de promotor da jihad na Cashemira deu lugar ao de principal caçador de recompensas dos Estados Unidos.

Mas o seu sucesso em rastrear os líderes da Al Qaeda e do Taleban não se comparou com aquele que alcançou como reformador social. Em 2004, Musharraf introduziu a frase "moderação iluminada", apresentando-a como uma mudança radical: o seu país não mais funcionaria como um Estado teocrático medieval. No entanto, sete anos após o golpe, o que se vê é mais continuidade do que mudança, e é difícil enxergar como é que as suas políticas seriam capazes de conter a onda de radicalismo religioso.

A dependência de Mussharraf do Ocidente exige que o seu regime seja visto no exterior como um Estado liberal dedicado ao combate dos islamitas radicais. Mas, na realidade, para preservar o poder ele precisa manter o status quo. Os conflitos ensaiados entre Musharraf e os mulás são portanto um ingrediente comum da política paquistanesa.

Em 2000, Musharraf anunciou um novo procedimento tornando mais difícil entrar na Justiça com casos relativos à lei da blasfêmia. Este delito, para o qual a pena máxima é a morte, era usado com freqüência pelos mulás para assediar os oponentes. A modificação introduzida por Musharraf teria se constituído em um modesto avanço, mas semanas após anunciá-la, ele recuou, justificando a sua decisão com a alegação de que a lei da blasfêmia "é uma exigência unânime dos ulema (clérigos muçulmanos) e do povo". Uma guinada semelhante aconteceu em 2004, quando Musharraf declarou que os detentores de passaportes não mais teriam que especificar a sua religião, apenas para reverter essa decisão depois que os partidos islâmicos denunciaram-na como sendo um plano para secularizar o Paquistão.

Embora geralmente cordial com os mulás, Musharraf se mostrou preparado para usar um punho de ferro em outras instâncias. Os exemplos do Waziristão e do Balochistão se destacam. Em 2002, agindo supostamente sob ordens de Washington, o exército paquistanês montou bases militares na região do Waziristão do Sul, que fica no nordeste do país, e que havia se tornado um refúgio para os combatentes do Taleban e da Al Qaeda que fugiam do Afeganistão.

Apesar do incessante fogo de artilharia e do uso dos helicópteros de ataque Cobra fornecidos pelos Estados Unidos, o exército se deparou com uma resistência feroz, que os generais de Musharraf atribuíram a "umas poucas centenas de militantes e terroristas estrangeiros". Em 2004 o exército se viu obrigado a fazer um acordo de paz com os militantes, concedendo a estes o Waziristão do Sul. Porém, o conflito já se espalhara para o Waziristão do Norte, onde um "acordo de paz" similar foi assinado em setembro de 2006. Como resultado da campanha desastrosa, todo o Waziristão agora está sob o firme controle do Taleban paquistanês.

Além disso, existe a questão do Balochistão, no oeste do Paquistão. Oito anos atrás, não havia nenhum movimento separatista visível naquela região, que corresponde a quase 44% da massa terrestre do Paquistão, e contém reservas de gás e petróleo. Agora existe uma intensa insurgência motivada pelas queixas do povo local, especialmente aquelas referentes ao fato de o Balochistão não receber uma fatia justa dos seus recursos naturais. Atualmente a reconciliação parece ser um sonho distante.

Os problemas do Paquistão estão se multiplicando. Dentro de 15 anos a população do país será maior que a dos Estados Unidos. A economia se mostra incapaz de fornecer empregos e o sistema educacional inadequado contribui diretamente para o crescimento das madrassas (escolas religiosas muçulmanas) que promovem o jihad (guerra santa muçulmana). A atenção da mídia internacional se concentra principalmente no generalíssimo bajulador da imprensa que atua ao mesmo tempo como personagem respeitável no palco mundial e negociador de pactos com os mulás no cenário doméstico.

As memórias de Musharraf não trazem nenhuma indicação de que ele pretenda aposentar o uniforme nas próximas eleições. Mas quando o atual "xá do Paquistão" sair de cena, o Paquistão poderá se transformar em um outro Irã - com uma diferença. Com uma população três vezes maior, um arsenal nuclear bem desenvolvido, com grupos jihadistas independentes bem organizados e com uma sociedade civil frágil, o Paquistão provavelmente será mais perigoso do que o Irã, tanto para o seu próprio povo quanto para o mundo.

*Pervez Hoodbhoy é professor de física da Universidade Quaid-e-Azam, no Paquistão

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