Comunidade dos blogs literários inventa o "diálogo confortável dos estranhos"

Por Jason Cowley*
especial para a Revista Prospect

Existe um aspecto excessivamente convencional na maneira com que os livros são resenhados e discutidos em nossos jornais e revistas culturais. Apesar do poder e do alcance da Internet, que inclui grandes lojas online tais como a do site Amazon, o processo por meio do qual os livros são selecionados para serem resenhados e então avaliados pela imprensa local permanece praticamente o mesmo já faz 40 anos.

É extremamente incomum ver um novo livro que não foi editado na Grã-Bretanha ser enviado para publicações britânicas para ser resenhado, até mesmo aqueles títulos americanos que já são parte integrante da atualidade e têm voz ativa no discurso político geral. Em vez disso, o público é forçado a aguardar as datas de lançamento no país, o que pode significar uma espera interminável.

Com a exceção de Michel Houellebecq, cujos romances são publicados na França antes de serem lançados na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos, eu não consigo me lembrar de muitos exemplos recentes de um escritor de língua estrangeira que tenha tido uma das suas obras resenhadas na Grã-Bretanha em sua primeira publicação no exterior. Assim, para se manter informado do que está acontecendo no mundo dos livros em outros países da UE, sem mencionar o resto do mundo, o melhor lugar para começar não é a mídia impressa estabelecida, e sim a "blogosfera".

Muito já foi dito a respeito do potencial revolucionário da nossa nova era dos blogs na Web; a respeito de como o poder, conforme o jornalista americano Trevor Butterworth escreveu no "The Financial Times", está "escapulindo do controle dos guardiões da mídia tradicional, o que permite o advento de uma sociedade de informação mais aberta e fluida". A blogosfera é parte integrante dessa nova fluidez. Estima-se que existem hoje não menos de 28 milhões de blogueiros tagarelando por aí, e dá até para supor que muitos o fazem entre eles mesmos - eles têm até mesmo o seu próprio software de busca, que serve para descobrir quem está "blogando" a respeito do quê, no endereço www.technorati.com.

Há uma quantidade excessiva de blogs que não passam de exercícios de narcisismo, tão tediosos de ler quanto devem ser de escrever - é só pensar em todas aquelas palavras, em todo aquele trabalho não remunerado. No passado, dizia-se que toda pessoa tem ao menos um livro dentro de si; hoje em dia, pode parecer que toda pessoa tem um blog para escrever. Além disso, no que eles têm de pior, muitos blogs não são diferentes daqueles livros cujos autores pagaram para que sejam editados: ouça-me, eu preciso ser ouvido! Se adaptarmos a antiga máxima de Warhol, parece que todo mundo pode ser de fato famoso para 15 "amigos" na Internet, onde o cultivo de uma rede de relacionamentos é tão valorizado.

Ainda assim, apesar de todos os excessos não editados e dos supérfluos encontrados na blogosfera - os comentários banais, as opiniões instantâneas, os mexericos pouco confiáveis - é possível encontrar alguns blogs fascinantes. Inevitavelmente, os meus prediletos são os blogs sobre livros, dos quais os melhores podem oferecer uma poderosa alternativa àquilo que costuma ser encontrado nos suplementos culturais semanais dos jornais, com as suas convenções estáticas e a sua estreiteza de vista, firme e decidida.

Quase todas as manhãs, antes de ler um jornal, eu ligo o meu computador e, após ter conferido o site da BBC, que é a minha "home page", visito o "Web Log of the Complete Review" (www.complete-review.com/saloon). Este é o mais internacional de todos os blogs sobre livros; ele oferece diariamente novos links para artigos de interesse publicados em qualquer lugar no mundo, e ainda notas informando qual autor foi contemplado com qual prêmio, além de comentários incisivos e não raro sarcásticos sobre todos os principais lançamentos. É um site fantástico, que também oferece uma listagem de outros blogs a serem consultados.

Uma das características notáveis dos blogueiros que se dedicam ao mundo dos livros é o fato de eles se apoiarem muito uns aos outros; no caso, parece não haver nenhuma rivalidade entre eles. Eles criam links mútuos para os seus sites com a maior freqüência possível, e fazem comentários sobre os comentários dos seus colegas, que fazem o mesmo com os deles.

Assim, no endereço moorishgirl.com, Laila Lalami (uma romancista e jornalista marroquina radicada nos Estados Unidos) poderá escrever a respeito de algum texto que ela leu no blog de Maud Newton, maudnewton.com (Newton é uma das blogueiras literárias as mais prolíferas e influentes), que, por sua vez, irá mencionar algo que ela leu num terceiro site. E por aí vai.

Existe sem dúvida um caráter auto-referencial e parasítico inerente a todo esse universo: possivelmente um pavor de estar escrevendo no vazio, de não ser lido. Ao menos, se você criar um link com um outro colega blogueiro, existe uma boa chance para que ele ou ela devolva a gentileza, criando um link para o seu site, e, com isso, uma espécie de diálogo pode estar começando. Este poderia ser chamado de "o confortável diálogo dos estranhos".

* Jason Cowley é um editor sênior do "The Observer" Na Internet, blogueiros que não se conhecem fazem referência uns aos outros e criam uma espécie de solidariedade entre eles Jean-Yves de Neufville

UOL Cursos Online

Todos os cursos