Anna e Alexander

Thomas de Waal*

Como muitos outros que a conheceram, eu fiquei devastado com o assassinato de Anna Politkovskaya, a mais corajosa jornalista de direitos humanos da Rússia. Agora meu desalento cresce ainda mais pela forma como sua morte foi subordinada à história perturbadora, mas bem mais obscura da morte de Alexander Litvinenko. São duas histórias bem diferentes, apesar de exporem verdades semelhantes sobre a Rússia de hoje.

Os traços de menino de Litvinenko eram uma constante em reuniões em Londres e eventos sobre a Rússia nos últimos anos. Ele era sem dúvida um homem corajoso, mas eu tendia a evitá-lo porque ele era protegido de um homem que personifica para mim o pior da Rússia nos anos 90: o empresário, político e exilado Boris Berezovsky.

Alegações de Litvinenko alimentaram a vingança política de Berezovsky contra Vladimir Putin. Muitas delas pareciam requentadas ou politicamente tendenciosas. Como outros, Litvinenko sugeriu que o Serviço Federal de Segurança, o sucessor doméstico da KGB, poderia estar envolvido nos misteriosos atentados aos prédios de apartamentos em Moscou em 1999, que mataram cerca de 200 pessoas. Se for verdade, esta é uma perspectiva aterrorizante - mas a versão de Litvinenko ignorava o papel de seu próprio patrão. Em 1999, Berezovsky era uma das três ou quatro pessoas encarregadas do que o Kremlin chamava de "Operação Sucessor", uma busca desesperada por um herdeiro de Boris Yeltsin.

Putin, na época uma autoridade relativamente obscura indicada para tal papel, era um joão ninguém político em comparação a Berezovsky. Foi a dura resposta aos atentados em Moscou que ajudaram a conduzi-lo à presidência. Se realmente houve conluio oficial nos atentados de 1999 em Moscou, Berezovsky provavelmente saberia a respeito.

Berezovsky, um dos novos bilionários russos que se apoderaram dos ativos da antiga economia soviética a preços de barganha, travou guerras territoriais brutais e escapou de tentativas de assassinato. No exílio ele continua sendo um homem sem princípios óbvios, mas, como dizem os americanos, com "um grande Rolodex", usando uma rede desconcertante de pessoas, que incluem o parlamentar liberal Sergei Yushenkov; Ivan Rybkin o burocrata centrista do Kremlin; Akhmed Zakayev, o nacionalista tchetcheno pró-Ocidente, e Movladi Udugov, o ideólogo islâmico tchetcheno - assim como Litvinenko, o ex-agente da KGB. Todas as bases estavam cobertas.

Em Londres, era difícil não ser convidado para os projetos e eventos de Berezovsky. Alguns deles, como o festival de cinema tchetcheno, valiam genuinamente a pena. Anna também participava deles. Mas eu me senti confuso quando, após uma única entrevista, eu recebi um cartão de Natal do ex-oligarca.

A morte horrível de Litvinenko aconteceu no contexto da disputa de Berezovsky com Putin. Ele era uma peça neste jogo obscuro tanto quanto vítima. E se o rastro apontar na direção da Rússia, a morte de Litvinenko ilustrará que os problemas fundamentais da Rússia pós-soviética passaram da era de Yeltsin para a de Putin.

A distribuição de poder é diferente. Yeltsin era um czar fraco que fracassou em arbitrar a concorrência entre oligarcas e cortesãos. Putin reforçou a instituição da presidência, atraindo os oligarcas que concordaram em jogar seu jogo, como Roman Abramovich, e exilando ou prendendo aqueles que não, como Berezovsky e Mikhail Khodorkovsky. Mas sob ambos os líderes, o poder tem sido arbitrário e personalizado e a lei silenciosa. Putin destituiu de poder as instituições de equilíbrio que estavam começando a crescer sob Yeltsin, como os governos regionais e o Parlamento, investindo mais no poder da presidência. Esta superestrutura é muito mais frágil e há pouco para proteger a Rússia em 2008 de outra destrutiva disputa de poder para instalação do próximo czar.

Duas inovações de Putin são especialmente danosas. Ele ampliou os poderes do Serviço Federal de Segurança, cujos dedos agora alcançam todo canto da sociedade, da indústria petrolífera às forças armadas. Este é o motivo para não ser muita extravagância imaginar que agentes de segurança desgarrados, desfrutando do clima de impunidade, tenham sido responsáveis pela morte de Litvinenko.

Putin também suprimiu a independência da imprensa, a ponto do debate público agora ser menos livre do que na era da glasnost de Gorbachev. Anna Politkovskaya era uma exceção reluzente a esta tendência. Apesar de trabalhar para um jornal de circulação mediana, não ter acesso à televisão e ser banida dos círculos oficiais, ela ainda conseguia defender os direitos dos destituídos. Apesar de Putin ter declarado sua morte como sendo "insignificante", na época de sua morte havia várias dúzias de processos judiciais pendentes, baseados em artigos que ela escreveu - muitos dos quais podem ruir por causa da morte da testemunha principal.

A indiferença coletiva da sociedade russa com a morte de Anna foi perturbadora. Assim como a permissão dada a Berezovsky para que falasse em uma vigília em Londres em homenagem à ela -ela não era um deles. Anna era destemida, difícil, atormentada e compassiva. Ela também era solitária. Pouquíssimas pessoas, tanto na Rússia quanto no Ocidente, prestavam atenção nas notícias que ela trazia das zonas escuras dos oprimidos. Quão cruel é o fato de que a falta de lei que ela entendia tão bem, que também a matou, agora esteja obscurecendo a clareza de sua mensagem.

*Thomas de Wall trabalha para o Institute for War and Peace Reporting George El Khouri Andolfato

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