O retorno do Canadá

Peter Shawn Taylor*

Defender a Passagem do Noroeste foi um trabalho mais fácil em séculos passados. O impenetrável gelo do Ártico manteve todo mundo afastado até 1906, quando Roald Amundsen finalmente conquistou o estreito. Mais recentemente, porém, o aquecimento climático transformou a idéia de uma rota de navegação circumpolar em uma possibilidade real: especula-se que a Passagem do Noroeste poderá ser aberta ao tráfego comercial dentro de apenas 15 anos, diminuindo quase pela metade a distância por navio entre Tóquio e Londres. Para o primeiro-ministro conservador do Canadá, Stephen Harper, isso representa a necessidade de um maior esforço para que o estreito continue sendo canadense.

Uma antiga política americana afirma que os estreitos navegáveis são águas internacionais - e o embaixador americano no Canadá se empenhou nos últimos meses para lembrar isso aos canadenses. É uma posição que lhe valeu fortes críticas. "Vamos defender nossa soberania em todo o nosso território - incluindo as ilhas, vias aquáticas e recursos do alto Ártico -, mesmo que isso entre em conflito com as alegações americanas", disse Harper em um discurso para o Clube Econômico de Nova York em setembro.

Harper também defendeu publicamente a soberania canadense no caso da Passagem Head Harbour em New Brunswick, próxima à fronteira marítima oriental com os EUA. Ele se comprometeu a barrar os perigosos navios-tanques de gás liquefeito natural que esperam chegar aos portos americanos pelo canal. Essas posições fortes e diretas passaram a caracterizar a política externa canadense sob a liderança de Harper. Depois de uma geração em que as relações do Canadá repousaram sobre o poder brando e o multilateralismo, um Canadá muito mais robusto está surgindo no cenário internacional.

Stephen Harper está no poder há menos de um ano, e seu governo conservador minoritário poderia cair a qualquer momento. Mas ele surpreendeu igualmente críticos e seguidores pela velocidade com que está redefinindo a imagem do Canadá. Ele se alinhou fortemente com a guerra no Afeganistão, envolvendo o Canadá em um papel mais agressivo e duradouro. Os 2.300 soldados mobilizados no "território rebelde" ao redor de Kandahar representam a maior mobilização do país no exterior desde a Guerra da Coréia. Afastando-se de seu típico papel de mantenedor da paz dos últimos 25 anos, os líderes militares canadenses pediram para lutar em uma zona de perigo e sofreram 39 baixas desde agosto de 2005.

O novo governo em Ottawa também repudiou o Protocolo de Kyoto, apoiou Israel e presenteou o Dalai Lama com a cidadania honorária canadense, dando um tapa na China em relação ao seu histórico de direitos humanos. Como disse Harper ao Clube Econômico: "Não se enganem: o Canadá pretende ser um ator".

Apesar das palavras fortes sobre a Passagem do Noroeste, Harper também agiu para melhorar as relações com os EUA. Ele conseguiu negociar um acordo de comércio de madeira, resolvendo uma disputa cara e antiga entre os dois países que havia confundido os governos liberais anteriores de Jean Chrétien e Paul Martin. Ele trabalhou para estabelecer uma relação pessoal cordial com o presidente Bush, abandonando as freqüentes posições antiamericanas dos governos liberais.

Para os fãs das antigas tradições canadenses, a nova posição causa perplexidade. Robert Wolfe, um professor de política na Queen's University em Kingston, Ontario, lamenta a assimetria. "Eles criticam a China sobre o Tibete, mas você jamais pegaria Harper fazendo comentários negativos sobre Guantánamo", ele nota. A abordagem de Harper distanciada da União Européia - ele não aceitou participar de uma cúpula em novembro com líderes europeus por causa de discórdias sobre Kyoto - também preocupa Wolfe, que lembra que o ex-primeiro-ministro liberal Pierre Trudeau (1968-79, 1980-84) trabalhou duro para construir as relações com a UE como meio de diversificar a política externa do Canadá afastando-se dos EUA.

Mas com suas expressões mais ousadas dos interesses canadenses e o forte apoio aos militares Harper pode estar simplesmente querendo recuar para antes de Trudeau, para uma época mais influente do Canadá. No fim da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o país tinha a terceira marinha do mundo, um milhão de homens uniformizados e um forte laço com os EUA. Isso deu ao país uma grande voz nos assuntos mundiais. Somente durante a era Trudeau a política externa do Canadá tornou-se tão marcada pela ênfase para o poder brando.

"Por mais chocante que possa parecer, o relacionamento com os EUA é o único que importa para o Canadá", salienta Michael Hart, um especialista em comércio na Escola Norman Patterson de Assuntos Internacionais em Ottawa. "Perdemos muita influência em Washington ao longo dos anos", ele acrescenta. Os dois países são os maiores parceiros comerciais do mundo e sua segurança está rigidamente entrelaçada. Solidificar as relações Canadá-EUA é, portanto, a base para uma política externa coerente.

Enquanto os governos federais anteriores muitas vezes definiram as políticas canadenses simplesmente como o oposto do que os americanos propunham, Harper tem segurança para expressar uma opinião independente canadense. Suas tendências políticas pessoais e partidárias se sobrepõem amplamente às posições americanas sobre questões comerciais, valores ocidentais e segurança internacional - o que inevitavelmente lhe dará mais peso na Casa Branca. Mas isso não significa que ele se sinta obrigado a não discordar sobre outros temas, como a defesa das passagens do Noroeste e Head Harbour.

Ao mesmo tempo em que Harper mapeia uma projeção internacional mais agressiva para o Canadá, porém, seu conceito interno do país está ficando impreciso. Em uma iniciativa para manobrar as forças separatistas em Quebec recentemente, Harper liderou uma moção polêmica na Câmara dos Comuns, reconhecendo que os quebequenses "formam uma nação dentro de um Canadá unido". O reconhecimento explícito de que as tradições sociais, culturais e políticas únicas de Quebec constituem uma nacionalidade poderá eventualmente prejudicar a política externa de Harper. Poderia, por exemplo, levar a diversos pontos de vista canadenses e a minar a legitimidade de símbolos e crenças nacionais.

O governo do Quebec há muito exige uma voz própria em certas questões internacionais, como o apoio ao Protocolo de Kyoto, e seu novo estatuto de "nação" poderá reforçar essas reivindicações. No entanto, parece que Harper não pagará um preço político por sua medida. Seu principal rival é o recém-cunhado líder liberal federal Stéphane Dion, que no início de dezembro derrotou por estreita margem Michael Ignatieff, ex-acadêmico favorável à guerra do Iraque, para a chefia liberal.

Dion também defendeu a moção da nacionalidade de Quebec. Por isso, se Harper puder transformar seu reconhecimento do Quebec como nação em um maior apoio político dessa província, estará bem encaminhado para uma grande maioria na próxima eleição - dando-lhe o tempo e o capital político necessários para completar sua reformulação do lugar do Canadá no mundo.

*Peter Shawn Taylor escreve editoriais para a revista "Macleans" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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