América excepcional

Joshua Kurlantzick*

Os democratas nos Estados Unidos contam apenas com um curto período para capitalizarem o seu sucesso nas eleições parlamentares deste ano. Em seu manifesto "Uma Nova Direção para a América", divulgado em junho passado, eles se comprometeram a adotar uma nova agenda doméstica, mas pouco tiveram a dizer em relação à questão que ainda confunde os democratas: a segurança nacional. O documento trazia apenas promessas brandas de "retomar a liderança norte-americana com um plano duro e inteligente para transformar as políticas fracassadas no Iraque", juramentos enérgicos de "destruir Osama Bin Laden" e planos vagos para a redução da dependência do petróleo estrangeiro.

Durante as eleições parlamentares a postura dos eleitores com relação a diversas questões econômicas aliada à exasperação com relação ao Iraque fizeram com que os democratas fossem bem sucedidos. Mas a segurança nacional continua sendo um ponto forte dos republicanos. Pouco antes das eleições, os eleitores deram aos republicanos uma vantagem de quase 20 pontos percentuais quando lhes perguntaram que partido estaria mais bem equipado para lidar com a defesa nacional. Os democratas não carecem de idéias, mas se eles quiserem conquistar a maioria de um eleitorado que se tornou cada vez mais conservador nas duas últimas décadas, precisarão de uma narrativa política que combine os seus instintos liberais com uma ampla atração de âmbito nacional.

Na esquerda, o Iraque envenenou inteiramente a guerra contra o terrorismo, minando a idéia de que a projeção global do poder dos Estados Unidos, incluindo a promoção democrata, é capaz de produzir algo de bom. Mas essa não é a idéia que prevalece no país a respeito da questão da segurança nacional. As pesquisas demonstram que os norte-americanos de todas as tonalidades políticas ainda vêem no terrorismo a maior ameaça à segurança nacional e, por esse motivo, querem que os Estados Unidos continuem participando ativamente dos assuntos internacionais. A resposta da esquerda tem sido não repensar a sua ideologia de segurança nacional, mas isso para apoiar candidatos veteranos das forças armadas contrários à guerra, dos quais se espera que reflitam valores típicos da população branca dos subúrbios e, ao mesmo tempo, divulgar a mensagem da esquerda contrária à guerra. Esses "combatentes democratas" tiveram um desempenho sofrível nas eleições parlamentares passadas.

Os democratas precisam recuperar a mais importante narrativa da história política dos Estados Unidos: a idéia de que o país não é um líder entre vários outros, mas sim um país excepcional, dotado de princípios morais e generosos, e que é capaz de inspirar outras nações. Os europeus podem citar exemplos de políticas norte-americanas amorais e formuladas em interesse próprio. Mas a narrativa "de excepcionalidade", que se baseia na visão utópica que criou o país, ressoa junto aos norte-americanos.

Líderes democratas como Woodrow Wilson e Franklin Delano Roosevelt já usaram essa narrativa com sucesso. Mas desde a década de 1960, o cada vez mais secular e pluralista Partido Democrata, sentindo desconforto com a idéia da excepcionalidade e cauteloso quanto a sugerir que todos os norte-americanos compartilham valores comuns, abandonou a linguagem de Wilson, Roosevelt e Harry Truman. E, desde a guerra do Iraque, muitos democratas passaram a evitar ainda mais fazer afirmações sobre as morais e os ideais dos Estados Unidos. Mas para que o partido volte a ganhar pontos quando a questão em pauta é a segurança nacional, ele terá que voltar a se familiarizar com a idéia de virtude norte-americana.

Uma excepcionalidade democrata teria dois componentes: um rígido e outro suave. A excepcionalidade rígida implica na recuperação do poderio militar norte-americano. Os democratas precisam enaltecer a grandiosidade militar norte-americana enquanto demonstram como Bush minou essa grandiosidade. Para isso, eles podem oferecer diversas alternativas às políticas republicanas.

Embora Bush alegue que usou todos os seus poderes para combater as ameaças aos Estados Unidos, ele esvaziou o Departamento de Segurança Interna. Os democratas deveriam reinstituir o financiamento das iniciativas de contra-terrorismo no Paquistão e no Afeganistão, e criar um novo serviço de elite doméstico de contra-terrorismo. Embora Bush afirme valorizar as forças armadas dos Estados Unidos, ele exauriu o exército, que atualmente enfrenta dificuldades para encontrar recrutas decentes. Os democratas deveriam propor uma expansão de 200 mil soldados.

Nada disso fornece uma resposta para o conflito Israel-Palestina, nem para o problema representado pelo possível programa nuclear do Irã, e tampouco para quando e quando realizar uma retirada do Iraque. Mas, conforme o mundo presenciou nos últimos dois anos, quando os Estados Unidos não contam mais com uma política crível de persuasão militar, atores como Irã e Coréia do Norte seguem políticas que ameaçam os seus vizinhos e o mundo. E quando a liderança militar dos Estados Unidos diminui, a única alternativa é a Organização das Nações Unidas (ONU) ou lideranças regionais, que hoje em dia enfrentam uma situação similar à do início da década passada: atuam em um grande número de conflitos, estão com as suas forças muito espalhadas, contam com pouco pessoal, são vulneráveis a emboscadas mortíferas ou se mostram incapazes de proteger inocentes.

Na visão de mundo dos democratas, a excepcionalidade rígida deveria coexistir com e reforçar a excepcionalidade suave.

Assim como a primeira pode ajudar a garantir aos norte-americanos que o partido protegerá a segurança do país, a excepcionalidade suave pode se voltar para as causas econômicas e sociais básicas do ódio global contra os Estados Unidos. Uma visão de excepcionalidade suave proporcionaria esperança econômica às nações em desenvolvimento, por meio da eliminação unilateral dos subsídios agrícolas norte-americanos ou do oferecimento às nações mais pobres de acesso sem tarifas aos mercados norte-americanos no que se refere a uma série de produtos. Quanto à imigração, essa visão combinaria a segurança mais rígida das fronteiras com incentivos para que os imigrantes ilegais regularizassem o seu status. Uma política energética democrata se basearia em um compromisso com as conversações climáticas pós-Kioto e na apresentação de novas tecnologias e inovações no setor de energia.

Finalmente, a excepcionalidade suave exige que se tome dos republicanos o discurso a respeito da promoção da democracia. Ao vincular a idéia ao Iraque, os republicanos criaram uma reação contrária a grupos na Ásia Central, no Oriente Médio e em outras regiões que desejam promover a democracia. Esse tipo de visão precisa ser também humilde: os democratas têm que se apresentar como excepcionais - bons e morais - em vez de exemplares.

Conforme Michael Signer observa, Bush promove um tipo de "excepcionalidade vulgar" segundo a qual a Casa Branca se recusa a fazer uso das instituições internacionais ou aplicar a si própria os padrões que exige do Egito ou do Irã. A demonstração de que os Estados Unidos sustentarão novamente os valores que promovem no exterior poderia ser feita por meio de algumas ações de impacto, muitas das quais seriam populares no cenário doméstico. O governo poderia investigar abertamente as alegações de abusos cometidos pelos Estados Unidos em prisões secretas na Europa Oriental, fechar o centro de detenção em Guantánamo e ordenar uma investigação parlamentar sobre como esse centro foi criado e como é operado.

Um político democrata proeminente parece compreender a excepcionalidade: Barack Obama. Em um discurso no verão passado, o senador Obama demonstrou que é um homem que se sente confortável com a linguagem que envolve moral e valores, como nenhum outro democrata desde Bill Clinton. Para sorte dos democratas, Obama poderá ser o candidato presidencial do partido em 2008.

*Joshua Kurlantzick e correspondente especial da revista "The New Republic"

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