Escuridão na tela prateada

Mark Cousins

O cinema da corrente dominante escureceu, tanto temática quanto psicologicamente. O trailer de "Homem-Aranha 3" mostra que no próximo episódio o herói se funde com uma criatura escura de outro mundo. O slogan do filme é "A batalha interior". Em 2005, "Guerra nas Estrelas: Episódio 3" mostrou a batalha interior do próprio Anakin Skywalker. No mesmo ano, Bruce Wayne em "Batman Begins" viu seus pais serem assassinados e teve uma experiência traumática em uma caverna escura, que o colocou, e ao filme, em um rumo tenebroso.

Também em 2005, "A Guerra dos Mundos" foi tão sombria visualmente que os cinemas colocaram placas explicando que a projeção não estava com defeito. No ano anterior, "A Paixão de Cristo" foi um dos filmes da corrente dominante mais para baixo já feitos. Algumas salas estão exibindo atualmente "O Grande Truque", que é sombrio ao extremo, e "Cassino Royale", que nos oferece a batalha interior de 007.

Quase todos os personagens das franquias do cinema comercial - os heróis que sopram na direção dos ventos dominantes cinematográficos e sociais - sofreram traumas ultimamente. O ânimo ensolarado está por baixo. Preto é o novo tom. E isso já aconteceu antes. Nas décadas de 1940 e 50, os emigrantes e cineastas europeus que assistiram ao combate fizeram mais de 300 filmes sombrios sobre corrupção e sexo que ficaram conhecidos como o ciclo do "filme noir".

Nos anos 70 surgiu uma visão mais pessimista da natureza humana, piscando ao sol da Califórnia, e durou cerca de uma década. E nos últimos 30 anos o principal criador de lendas de Hollywood, Steven Spielberg, pareceu profundamente indeciso sobre trauma e escuridão.

O que está por trás dessa nova onda de cinema noir na corrente dominante? A resposta óbvia é o 11 de Setembro, mas outras questões devem ser consideradas primeiro - como as tendências demográficas. Entre 1990 e 2000, a porcentagem de ingressos de cinema vendidos nos EUA para pessoas com mais de 50 anos dobrou, de 5% para 10%. No mesmo período, os jovens de 16 a 20 anos, o principal público de Hollywood desde meados dos anos 70, caiu de 20% para 17%.

Na década atual, a freqüência aos cinemas por pessoas de 55 a 64 anos deverá aumentar 14,6%. A conseqüência para a narrativa é evidente. Se você já sofreu alguns golpes na vida, os filmes em que os personagens também sofrem são mais verossímeis; personagens que sobreviveram a tempos difíceis têm maior probabilidade de comovê-lo. O sucesso de filmes como "Estrada para Perdição" e "Uma Mente Brilhante" é amplamente atribuído às platéias mais velhas.

O segundo fator é a influência do novo cinema asiático. Com notáveis exceções, como o "Projeto Bruxa de Blair", o filme de terror de Hollywood sofreu durante anos de "seqüencite" e de um excesso de piadas pós-modernas.

Hollywood parecia ter esquecido que a sobriedade está na raiz do terror. Depois veio uma enxurrada de filmes de terror japoneses: "O Chamado 2" (1998) e "Água Negra" (2002), de Hideo Nakata, e "Audition" (1999), de Takashi Miike. Estes foram decididamente aterrorizantes, e seu sucesso fez o terror de Hollywood parecer leve. Por isso Hollywood fez o que sempre faz - roubou e copiou, refazendo filmes asiáticos e imitando sua angústia.

Alguns críticos afirmaram que um dos motivos pelos quais os cineastas japoneses, taiwaneses, chineses e coreanos fazem seriedade tão bem é que seus países suportaram uma série de choques traumáticos. Os EUA tiveram suas feridas, mas algumas delas - como a humilhação e a chacina dos indígenas americanos - não pareciam feridas para os cineastas pioneiros. Outras questões como a escravidão, sim, mas foram suportadas por pessoas que nem dirigiam estúdios nem, até recentemente, dirigiam filmes com muita freqüência.

O Vietnã é uma ferida que certamente assombra o cinema americano, mas não é cinematográfica em si e teve de ser reinterpretada por fazedores de mitos e forjadores de lendas como Francis Ford Coppola. O mesmo vale para outros choques nacionais como as mortes de JFK, Janis Joplin e Robert Kennedy.

Você pode ver aonde isto está levando. Nenhum acontecimento nacional foi mais cinematográfico e mais adequado à representação cinematográfica do que os aviões se chocando contra o World Trade Center. Eles sonham com o 11 de Setembro, os executivos dos estúdios que se encontram com seus roteiristas em restaurantes do Sunset Boulevard, comem atum semicru e conversam sobre como Anakin Skywalker, Bruce Wayne e James Bond precisam passar por algo mais sombrio desta vez. "11/9" atingiu esses executivos no plexo solar. Fora a Aids - que foi mais lenta e estigmatizada -, essa foi a primeira vez que Hollywood viu sua própria gente realmente sofrer, e a dor não desaparecia.

Assim, a escuridão atual nos multiplex foi causada por três mudanças: a geração "baby boom", hoje com 50 anos, indo ao cinema criou o público (e o mercado) para a seriedade; o cinema asiático emprestou uma estética capaz de incorporar a escuridão psicológica; e o 11 de Setembro injetou o medo nas vidas e nos sonhos dos cineastas. Fatores sociais, estéticos e psíquicos provocaram essa mudança para a "batalha interior". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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