A França profunda

Tim King*

Durante todo o último verão, a companhia energética francesa Suez fez lobby para conseguir a aprovação parlamentar para sua proposta de fusão com a Gaz de France. Em julho, poucas semanas antes do debate na Assembléia Nacional, a Suez convidou 20 políticos importantes para uma viagem de três dias a Berlim, incluindo ingressos para a final da Copa do Mundo entre França e Itália. Teria sido na esperança de influenciar a votação no Parlamento?

O debate sobre a corrupção está no ar novamente na França, assim como na Grã-Bretanha e na Alemanha. Mas não é tanto sobre a corrupção milionária no nível corporativo da BAE ou da Siemens: a França passou por isso alguns anos atrás com sua companhia de petróleo Total. É mais do tipo cotidiano, insidioso e ambíguo diante da qual os cínicos dizem: "O mundo é assim".

Um estudo de cinco anos que está sendo realizado pela Cevipof, o departamento de pesquisa política da Sciences Po, revela que 78% da população francesa consideram o governo "bastante ou muito" corrupto.

Setenta por cento acreditam que seu presidente é corrupto e 68% dizem que membros do Parlamento também o são. Enquanto o país se aproxima de uma série de eleições - presidencial em abril, parlamentar em junho -, isto é deprimente, especialmente para os políticos que tentam se reeleger. Mas a Cevipof tem notícias tranqüilizadoras para eles: uma fase duradoura de corrupção não prejudica suas chances nas urnas. Nem mesmo uma condenação judicial por corrupção é empecilho para uma carreira política - na verdade, pode até ajudar.

Há vários exemplos de políticos condenados que foram reeleitos, mais recentemente Alain Juppe, ex-membro do Parlamento, ex-prefeito de Bordeaux e ex-primeiro-ministro (e "o melhor entre nós", segundo o mestre da ironia Jacques Chirac). Condenado em 2004 por desviar dinheiro dos contribuintes para pagar funcionários do partido, Juppe teve sua sentença original de dez anos de inelegibilidade reduzida em apelação para 12 meses. Depois de um agradável período no Canadá, ele voltou para casa dizendo que queria reaver todos os seus cargos, a começar pela prefeitura de Bordeaux. Mas havia um prefeito excelente no lugar e só haveria novas eleições em 2008. Isso não é problema! Um terço da Câmara de Vereadores (o partido de Juppe) renunciou, obrigando a uma nova eleição. Juppe voltou com uma maioria de 56%.

Mas esse número é menos que a metade da história, já que menos da metade do eleitorado de Bordeaux votou - 55% se abstiveram. Assim, enquanto uma condenação por corrupção pode não afetar os partidários fiéis, desanima muitos outros de votar ou os empurra para o único partido que adotou a política de acabar com a corrupção na política: a Frente Nacional. A corrupção entre os políticos foi o segundo motivo dos votos em Le Pen na última eleição.

Foi exatamente por isso que Severine Tessier criou a Anticor, uma associação de políticos que combatem a corrupção, principalmente entre seus colegas.

Diante do aumento de abstenções e do apoio a Le Pen, ela acredita que algo deve ser feito para melhorar a imagem dos políticos antes das eleições deste ano. Para começar, a Anticor quer tornar lei a inelegibilidade vitalícia para qualquer político condenado por desvios financeiros.

Depois existe a área cinzenta do lobby. Tessier está bem posicionada para conhecer a fina separação entre lobby e corrupção - ela é uma assistente parlamentar que trabalha na Assembléia Nacional em Paris. Os assistentes são empregados diretamente pelos deputados e pagos com dinheiro de uma pequena "caixinha" mensal. Se os deputados não forem reeleitos, seus assistentes perderão o emprego. O baixo salário e a insegurança no trabalho os torna vulneráveis às empresas que desejam influenciar os políticos. Eles recebem todo tipo de indução, incluindo sinecuras bem-remuneradas, em troca de ajudar uma determinada causa. "O lobby em si é aceitável, mas precisa ocorrer dentro de limites definidos", disse Tessier.

Mais quais são os limites? E aqueles ingressos para a Copa? A Cevipof acha que muitas pessoas têm dificuldade para definir o que é aceitável ou não - especialmente no dia-a-dia. Por exemplo, (ab)usar da amizade com um político local para conseguir um apartamento ou emprego para um amigo - 70% dizem que não é grave. Para conseguir empregos ou casas, vale tudo. Mas um prefeito que concorda em ajudar somente se você entrar para seu partido é considerado corrupto. Mais ambíguo é aceitar um cruzeiro pago por um cliente: a maioria diz que não é corrupção, simplesmente uma maneira de agradecer. Mas e se o cruzeiro foi mencionado antes?

A corrupção é um problema grave na França, segundo 60% dos pesquisados pela Cevipof, mas quase um terço diz que não a denunciariam. A percepção e a tolerância dependem da educação e da renda. Os que não têm diplomas e têm rendas menores são mais severos; os melhor qualificados e remunerados a toleram, talvez porque se beneficiam dela ou esperam beneficiar-se no futuro. Se isso for verdade, é pequena a probabilidade de uma mudança de atitudes. A única maneira de endurecer é legislando - improvável, porém, já que exige uma maioria de deputados incorruptos... A menos que a Anticor leve apenas os ligeiramente corruptos em uma viagem para algum lugar. Berlim, talvez? Não é a mesma coisa sem a Copa do Mundo.

*Tim King é escritor e vive na França Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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