Barack Obama

James Crabtree

Ele já foi capa da revista "Time" e recebeu apoio de Oprah. Seu recente livro, "The Audacity of Hope" (a audácia da esperança), chegou ao primeiro lugar na lista de best sellers do "The New York Times" e também ganhou um prêmio Grammy por melhor gravação falada. Suas palavras são analisadas em busca de pistas, tanto sobre seu caráter quanto suas intenções. O que há no jovem político negro novato com um nome estranho que conquistou a atenção dos americanos?

Jason Reed/Reuters 
Dois fatores são cruciais para Barack Obama: seu estilo consensual e seu uso público da fé

Barack Hussein Obama ingressou na consciência americana com um discurso na convenção democrata de 2004, em Boston, que teve uma recepção extática. Na época ele era um político provincial pouco conhecido, concorrendo ao Senado em Illinois. Naquela noite, ele deu uma amostra dos temas que atualmente cativam os Estados Unidos: uma história pessoal notável e a capacidade de usá-la para articular uma versão esperançosa, refletida, do sonho americano.

O discurso foi dividido em dois. Primeiro, ele apresentou uma versão de fácil assimilação de sua criação. Ele apresentou seu pai queniano, que "cresceu pastando cabras, freqüentou a escola em um barraco com telhado de zinco", e seu avô, "que foi cozinheiro e empregado doméstico dos britânicos". Ele contou como o trabalho árduo de seu pai o trouxe aos Estados Unidos, um país onde "as portas da oportunidade permanecem abertas a todos", onde ele conheceu e se casou com uma garota branca do Kansas.

A segunda metade de seu discurso lidou com temas de esperança e oportunidade e com as barreiras modernas a elas. Em uma passagem muito citada, ele atacou "os mestres do 'spin' (distorção para dar aspecto positivo aos fatos), os boateiros negativistas", e declarou: "Os estudiosos gostam de dividir nosso país em Estados vermelhos e azuis; Estados vermelhos para os republicanos, Estados azuis para os democratas. Mas eu tenho notícias para eles. Nós adoramos um Deus incrível nos Estados azuis e não gostamos de agentes federais bisbilhotando nossas bibliotecas nos Estados vermelhos. Nós treinamos ligas infantis nos Estados azuis e, sim, temos alguns amigos gays nos Estados vermelhos".

Da noite para o dia, Obama se tornou uma celebridade política. A forma como o discurso foi feito foi parcialmente responsável, mas apenas oratória não é capaz de explicar o arrebatamento. Após quatro anos de presidente Bush, os democratas estavam desesperados atrás de líderes capazes de articular uma visão. Foi neste discurso que Obama usou a frase "a audácia da esperança", que se tornou o título de seu segundo livro e a mensagem de sua nascente candidatura presidencial.

Raça continua sendo uma questão definidora na política americana. Sem causar surpresa, a pergunta feita com mais freqüência em relação a Obama é: "A América está pronta para um presidente negro?" Obama é atualmente o único negro no Senado e apenas o terceiro desde a Reconstrução. Entender seu apelo envolve primeiro entender o motivo pelo qual sua cor não afasta as pessoas. Não ser descendente de escravos, ele reconheceu, serve como um ponto de partida diferente de muitos líderes negros.

Dois outros fatores são cruciais: seu estilo consensual e seu uso público da fé. Em seus comentários públicos e em seus livros, Obama consegue o raro feito de acrobacia política de parecer tanto confortador quanto franco. Ele não mede esforços para mostrar que considerou respeitosamente as idéias de seus oponentes e se esforçou para encontrar um meio termo. Após dois presidentes altamente divisórios, Obama sente que há um enorme dividendo eleitoral para o político que puder superar a polarização dos anos Clinton e Bush. De fato, a história pessoal de Obama e sua rearticulação refletida dos dilemas americanos oferecem vislumbres de algo novo: uma política pós-baby boomer (a geração pós-Segunda Guerra Mundial).

Há limitações óbvias a esta abordagem. Obama encontrará dificuldade para navegar em meio às exigências conflitantes dos eleitores de uma política bipartidária, consensual, e uma liderança forte. O comentarista conservador David Brooks, um fã confesso de Obama, comentou recentemente que o senador poderia ser visto como o "tipo de sujeito que entra em um restaurante dizendo que há 16 motivos para pedir o peixe e 19 para pedir a carne". Resumidamente, sua ponderação cuidadosa corre o risco de ser rotulada como uma fraqueza, não como uma força.

Também há menos formação de consenso em Obama do que parece. "The Audacity of Hope" está cheio de passagens no qual busca um meio termo com seus oponentes. Mas ele também tende a fazê-lo em temas relativamente pouco controversos.

Apesar de sua lucidez, "The Audacity of Hope" é notavelmente leve em propostas políticas originais. A seção sobre globalização, por exemplo, faz um relato coerente de como a crescente concorrência global está mudando o mercado de trabalho americano. Mas suas soluções experimentais a estes desafios tendem a ser pequenos ajustes, como a introdução de prontuários eletrônicos de pacientes para reduzir gastos em saúde, ou generalizações mornas sobre um "novo pacto social" em educação e investimento. Freqüentemente não está clara qual é a posição de Obama sobre questões como maior liberalização do comércio, maiores proteções ao mercado de trabalho ou reforma dos caros sistemas de aposentadoria e saúde dos Estados Unidos.

A segunda chave para o apelo de Obama, como demonstrado em seu discurso na convenção, vem de sua capacidade de falar na linguagem da religião. Assim como em sua abordagem à raça, a facilidade de Obama com a fé e valores vem em parte de sua criação. Seu pai foi criado como muçulmano, mas se tornou ateísta. Sua mãe era uma batista não praticante, e igualmente não convencida pela religião. Obama cresceu como cético. Em junho de 2006, ele fez um grande discurso sobre religião no qual explicou como foi atraído gradualmente para a fé, tanto pela certeza moral que fornecia quanto por sua contínua crença "no poder da tradição religiosa afro-americana de promover mudança social". Ele destacou "nosso fracasso como progressistas em explorar as fundações morais da nação".

Não é difícil entender por que os democratas estão tão empolgados com a capacidade de Obama de envolver uma política liberal relativamente ortodoxa em linguagem religiosa convincente. Quando Obama escreve que os americanos estão incomodados porque "querem um senso de propósito, um arco narrativo para suas vidas", ele faz uso de uma visão plena de uma boa vida para animar nosso entendimento da política. Isto é mais fácil de dizer do que fazer. Falar de valores e moral na vida cívica é fácil, mas os liberais freqüentemente empacam diante de suas implicações. O que, por exemplo, defende o direito de aborto, de liberdade de expressão ou ação afirmativa a não ser uma estrutura inflexível de direitos liberais?

Tudo isto, é claro, pouco importará se Obama decidir não concorrer. Mas no momento os sinais são de que irá. Ele é popular. Ele provou ser competente em arrecadar fundos. Antes de se tornar senador, ele era contra a guerra no Iraque e agora defende a posição democrata de uma retirada gradual. Ele é jovem e inexperiente. Mas, como ele sem dúvida apontará, Bill Clinton e Abraham Lincoln também eram.

E se ele concorrer? É bem possível que ocorra o que aconteceu com Howard Dean e sua campanha fracasse. Mas mesmo se isto acontecer, a ascensão de Obama nos diz algo sobre o que os americanos querem em seus líderes. Eles vêem em Obama aquele senso de otimismo que seus melhores políticos -Kennedy, Reagan, Clinton- projetam. Mas é nisto, em vez das deficiências de suas políticas, que Obama enfrenta o maior risco de fracasso.

Em seu mais recente livro, ele descreve o fim de um comício de campanha. "As pessoas geralmente sobem para apertos de mão." Quando falam com ele, elas freqüentemente dizem: "Por favor, permaneça fiel a quem você é... por favor, não nos decepcione". A passagem é escrita com conhecimento. No final, Obama certamente decepcionará muitos daqueles que agora o exaltam. O quanto disto será capaz de fazer sem fracassar politicamente determinará se sua promessa extravagante é mesmo que parcialmente realizável.

*James Crabtree é um alto assessor de políticas da New Democrat Network George El Khouri Andolfato

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