Feministas de burca

Charlotte Eagar

Quando os EUA, Reino Unido e seus parceiros na coalizão invadiram o Afeganistão, há mais de cinco anos, uma de suas principais preocupações - depois do terrorismo e do plantio de ópio - era o tratamento das mulheres pelo Taleban. A degradação das mulheres no Afeganistão conquistou grande parte da aprovação liberal para a guerra.

afp 
Sob o Taleban, as mulheres era forçadas a usar burcas sob a pena de serem chicoteadas

Sob o Taleban, as mulheres eram proibidas de trabalhar ou ir à escola. Elas eram forçadas a usar longas burcas e esvoaçavam como lamparinas azuis pelas ruas. Se pegas descobertas eram chicoteadas. A punição pelo adultério era a execução em um campo de esportes cercado por multidões, para quem as matanças semanais tomavam o lugar da televisão, cinema, música e outros entretenimentos proibidos.

Depois da queda de Cabul, vieram vários "especialistas em discriminação sexual", dedicados a dar poder às mulheres no Afeganistão. Mesmo assim, um relatório no ano passado de uma ONG que trabalha no Afeganistão desde 2003, Womankind Worldwide, afirma que o status das mulheres no Afeganistão não melhorou significativamente nos últimos cinco anos.

Nem todas as notícias são más. Graças à discriminação positiva na constituição, inspirada pelo Ocidente, que requer que ao menos 25% dos membros do parlamento sejam mulheres, há hoje 68 mulheres parlamentares. O parlamento Afegão tem uma proporção maior de mulheres (27%) do que o Reino Unido (19%) ou os EUA (22%). A escola é obrigatória para meninas entre 7 e 12 anos. A idade de consentimento para o casamento mudou de 7 para 16 anos para meninas. A igualdade das mulheres agora está garantida pela constituição, que afirma: "Cidadãos do Afeganistão -homens ou mulheres- têm direitos e deveres iguais perante a lei."

De acordo com os próprios afegãos, entretanto, e para muitos assistentes sociais que conhecem bem o país, esses avanços freqüentemente não passam de sonhos ministeriais. Muitas meninas em idade escolar não estão na escola; 85% da população feminina é analfabeta (mas também 71% da população é analfabeta) e 1.600 mulheres em cada 100.000 (1,6%) morrem de parto, comparadas com 12 nos EUA (0,012%).

Assassinatos de honra são comuns, casamento de crianças ainda mais. No verão passado, conheci um produtor de papoula em Helmand que me disse que tinha acabado de vender uma de suas filhas, de 9 anos, para casar-se com um traficante de ópio. Ele não revelou quanto ia receber, e disse que não podia alimentar as meninas. A tarifa atual para uma menina saudável é em torno de US$ 3.000 (em torno de R$ 6.600), ou mais, se vier de uma família rica.

De acordo com agentes de desenvolvimento no Afeganistão, o novo Ministério de Assuntos da Mulher recebe pouco apoio em suas tentativas de mudar as coisas. Tanto a ex-ministra Massouda Jalal quanto assistentes sociais ocidentais dizem que ninguém no governo leva o ministério a sério. "Tivemos ameaças de bomba. Mas não temos carros blindados ou segurança adequada", disse Jalal no verão passado. "O governo paga nossos guardas US$ 20 (aproximadamente R$ 44) por mês. Quem vai arriscar a vida por US$ 20?"

Por outro lado, ocidentais que trabalharam dentro dos ministérios afegãos dizem que os novos ministros são mais dedicados a tirar o máximo de proveito para si mesmos e seus acompanhantes do que cumprir seu serviço. O Ministério de Assuntos da Mulher aparentemente não é exceção: suas ocupantes definem "oportunidade igual" para seus próprios propósitos. "Elas acham: 'Finalmente as mulheres têm uma chance de também aproveitar um pouco'", diz um diplomata em Cabul. "Elas passam a maior parte do tempo em viagens ao exterior. Não conseguem resolver nada enquanto estão viajando para os EUA e para a Austrália o tempo todo."

Enquanto isso, a segurança continua uma grande preocupação entre as mulheres trabalhadoras. Jamila Niazi é diretora da principal escola em Lashkagar, capital da província de Helmand, que atende 6.000 meninas e 2.000 meninos.

"Às 9h da manhã de hoje eu tive outra ameaça contra minha vida", ela me contou no final do ano passado. "Um homem veio à escola e disse que queria conversar comigo. Meu guarda-costas encontrou uma arma escondida em suas roupas, e o homem fugiu." Jamila, que ganha US$ 50 por mês, teve várias ameaças à sua vida somente neste ano, tudo porque está educando meninas.

Ao caminhar pelas ruas, o visitante vê que a emancipação estilo ocidental está bem distante. Há poucas mulheres nas ruas das cidades afegãs. Apesar de nem todas as mulheres usarem burca em Cabul, todas cobrem a cabeça em público. Todas dizem que a lei exige.

De fato, a constituição e a lei não exigem nada desse tipo -a constituição meramente afirma que as leis não devem "ser contrárias às crenças e condições" do islã- mas o governo "pediu" às mulheres que cobrissem suas cabeças.

Graças às guerras intermináveis no Afeganistão, há 2 milhões de viúvas no país. Ainda assim a maior parte dos afegãos acredita que é ilegal mulheres viverem sozinhas. Assim como as cabeças descobertas, a verdade é que não é ilegal - mas quase impossível.

Habiba Danish, 26, é uma das mais jovens parlamentares. Ela foi entregue em casamento aos 18 anos, ainda estudante, por seu pai, proprietário de terras e juiz, para ser a segunda esposa de um senhor de guerra em Tahar. Alta e bela, com cabelos negros e longos e pele clara, traços valorizados pela alta classe afegã, Habiba ficou viúva após 38 dias, quando seu marido foi assassinado por seus rivais.

"Todo mundo quer encontrar seu próprio marido e se apaixonar", diz Habiba, na sala de estar acarpetada de sua pequena casa em Cabul. "Mas meu pai me disse que cortaria minha garganta se eu falasse com um rapaz. Eu não vi meu marido até o dia do meu casamento."

Habiba vive cercada por vários parentes homens, mas dá para perceber que a dinâmica tradicional entre eles está mudando. Seus irmãos a obedecem - nos deixam a sós para conversar na sala e trazem o carro para levá-la ao parlamento. Como ela diz, não é só que ela é "uma mulher rica, com terras e cavalos". Seus irmãos também são ricos. A diferença é que sua posição no parlamento parece, por enquanto, superar a deles de homens.

É claro que enfrentam os problemas que as mulheres emancipadas enfrentam em toda parte, problemas que Habiba e suas colegas no parlamento estão começando a descobrir - lidar com o trabalho e o cuidado das crianças, encontrar um parceiro que não seja inibido por uma mulher forte e bem sucedida.

"Decidi casar-me novamente, mas não tive tempo de encontrar alguém ainda", diz ela. "Preciso de um marido que possa me apoiar no meu trabalho, me ajudar com minhas obrigações. Preciso de uma pessoa que possa ir comigo às aldeias. Preciso de uma esposa", ela ri.

Um dos amigos da família - solteiro, 30, que precisa desesperadamente de uma esposa - fica abismado quando pergunto se gostaria de se casar com ela.

"Claro que não, ela é viúva!"

"E qual é o problema? Ela é bela, tem um bom emprego, muito dinheiro."

Encabulado, ele diz: "Bem... eu queria uma virgem."

Ainda assim, no geral, a posição da mulher é muito melhor do que era há cinco anos. Atualmente não se arranca as unhas das mulheres que usam esmalte. Elas -ao menos na classe média- podem pensar em arrumar emprego, exceto, é claro, nas regiões dominadas por islâmicos.

Ceri Hayes da Womankind Worldwide e Anne Johnson da Afghanaid querem deixar claro para mim que as afegãs estão desesperadas por independência. "Nossas parceiras nos dizem: 'Por favor, diga à mídia ocidental que não somos mulheres oprimidas de burca'", diz Hayes. "Elas têm visão muito clara sobre o futuro do país, sobre como reconstruir suas comunidades e forjar elos entre diferentes clãs."

Azarbaijani-Moghaddam tem origem iraniana mas fala dari fluentemente e pode se passar por afegã. Ela acha que o problema é mais profundo do que as guerras, a religião ou a lei. "Está profundamente arraigado na cultura diária, para os dois sexos. Muitas mulheres se sentem nuas sem o hijab. Elas têm pavor das conseqüências. Temos muitas pessoas trabalhando em programas de conscientização de discriminação sexual, mas elas mal tocam nesses comportamentos."

Charlotte Eagar escreve para o The Evening Standard Deborah Weinberg

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