Pervez Musharraf, o homem do meio

Jonathan Power*

Durante uma conversa abrangente de duas horas no palácio presidencial, Pervez Musharraf, o homem-forte do Paquistão, não se esforçou para me convencer de que os taleban e a Al Qaeda estão sendo derrotados, ou de que a guerra no Afeganistão está indo bem. Houve uma ausência de bravata e uma aparente abertura a novas idéias - como falar de maneira mais formal com os militantes e até comprar a colheita de papoulas do Afeganistão. "Comprar a colheita é uma idéia que poderia ser explorada. O Paquistão não tem dinheiro para isso. Precisaríamos de dinheiro dos EUA ou da ONU. Mas poderíamos comprar toda a colheita e destruí-la. Dessa maneira os agricultores pobres não sofreriam", ele disse.

AFP 
Pervez Musharraf, o homem forte do Paquistão, não nega que há extremistas ativos no país

Os soldados ocidentais enviados ao Afeganistão para combater o terrorismo também estão, pelo menos de modo intermitente, travando uma guerra contra as drogas que exige a destruição de uma parte importante da economia afegã - a colheita de 2006 valia US$ 3,1 bilhões, equivalentes a quase a metade do PIB do país. Segundo um relatório recente da ONU, o ópio é produzido hoje em 28 das 36 províncias do Afeganistão, e o ópio afegão representa 92% do estoque mundial. No ano passado a colheita de ópio afegã foi 50% maior que em 2005 e 3.000% maior que em 2001, quando os taleban estavam no comando.

A Otan ainda não tem uma estratégia adequada para enfrentar a questão do ópio: tropas de diferentes países seguem táticas diferentes. E, com o ópio valendo 12 vezes mais que a agricultura convencional, não é de surpreender que muitos pequenos agricultores procurem os taleban para protegê-los das tropas ocidentais.

Antes de visitar Musharraf, tive uma conversa em Nova Déli com o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh. Posso resumir em poucas palavras sua reação às minhas perguntas sobre as relações com o Paquistão: Como você espera que eu promova um acordo de paz sobre a Caxemira quando militantes vêm do Paquistão a intervalos de meses para detonar bombas na Índia?

A disputa da província de Caxemira, dominada pelos muçulmanos, reivindicada pela Índia e pelo Paquistão desde sua independência, levou a três guerras e pelo menos numa ocasião quase a uma guerra nuclear. Como o consenso entre altos diplomatas dos dois países é de que Singh é o principal pacifista indiano - e que se ele não conseguir levar a Índia a um acordo talvez ninguém consiga -, então sua pergunta parece certa.

Mas quando digo isso para Musharraf ele responde irritado: "Não concordo com essa maneira de ver a coisa. Se todo o mundo procurasse a calma e a paz antes de chegar a uma solução, nunca alcançaríamos a paz em lugar nenhum. É o acordo político em si que pode produzir a calma. Explosões de bombas são uma conseqüência do problema. Não vamos colocar a carroça antes do boi".

Musharraf falou de maneira positiva sobre o modelo da Irlanda do Norte para o Caxemira, aceitando implicitamente a continuidade do governo da Índia em parte do país, mas criando uma fronteira bem mais porosa. Agora é a vez de a Índia responder e de Singh dizer ao país que essa medida é do interesse da Índia - não apenas para conter as explosões ocasionais, mas para evitar as possibilidades de outra guerra e abrir ainda mais as fronteiras dos dois países às imensas possibilidades oferecidas por duas economias em rápido crescimento. Mas Singh está constrangido pelas forças conservadoras no Ministério das Relações Exteriores, nos serviços de inteligência e até entre os militares.

De maneira reveladora, Musharraf não nega que há vários extremistas ativos no Paquistão. Ele tampouco nega que a Al Qaeda e os taleban têm esconderijos no Paquistão. Mas enfatiza que não ajuda acusar o Paquistão, como fez o chefe da inteligência americana, John Negroponte, em janeiro, de não se esforçar para descobrir os terroristas da Al Qaeda e dos taleban. "Estamos fazendo mais que ninguém", ele insiste. "Por que os EUA não acusam o México de enviar imigrantes ilegais? Alguns problemas não são fáceis de resolver. Não podemos mandar o exército para as ruelas dos campos de refugiados e começar a lutar para capturar os militantes que se escondem lá. Os danos a inocentes seriam terríveis."

A opinião de Musharraf é que os terroristas que hoje operam fora do território paquistanês - seja lutando no Afeganistão, colocando bombas na Índia ou espalhando o terror pelo mundo - são conseqüência de antigos erros de cálculo das potências estrangeiras. Os EUA, depois de armar e usar os taleban para derrotar o exército soviético invasor, deixou o Afeganistão à própria sorte com os militantes plenamente armados. A Grã-Bretanha afastou-se da Índia e do Paquistão deixando a Caxemira sem solução. Hoje, porém, Musharraf teme que se ele for duro demais perderá toda a influência sobre os militantes, que simplesmente desapareceriam nas montanhas e continuariam tentando assassiná-lo.

Musharraf não é santo, mas impressiona um amplo leque de pessoas - até as que se opõem ao regime militar - por sua integridade. É improvável que ele esteja fazendo um complexo jogo duplo, como alguns sugerem, em que parece reprimir os terroristas mas em particular os alimenta, ou pelo menos faz vista grossa. Ainda assim, os EUA e a Grã-Bretanha deveriam pressionar mais pela restauração da democracia plena, em tempo para as eleições parlamentares e presidenciais de outubro, permitindo o retorno dos líderes partidários exilados Benazir Bhutto e Nawaz Sharif.

Entre outras coisas, a disputa democrática nas áreas tribais do norte deveria romper o poder dos partidos islâmicos e dificultar a vida dos taleban e da Al Qaeda. Esse é o trabalho sutil em que a diplomacia ocidental deve se concentrar, e não em incrementar a guerra no Afeganistão e gastar mais tempo e dinheiro tentando erradicar a colheita de ópio.

*Jonathan Power escreve sobre assuntos internacionais no "International Herald Tribune" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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