Barbeiro de Moseley

Nibras Kazimi

Por que um homem bonito, que gosta de se divertir de Birmingham e que recém conseguiu cidadania britânica, vende sua empresa lucrativa e volta ao Iraque para morrer em uma chuva de balas? Muhammad Hussein, que nunca foi considerado particularmente religioso, recentemente vendeu sua barbearia no subúrbio de Moseley e levou sua mulher e filho de dois anos para um assentamento perto de Najaf, onde provavelmente foi morto quando forças iraquianas e americanas invadiram as instalações do culto dos Soldados do Céu, no final de janeiro. Seu passaporte britânico queimado foi encontrado nos destroços. Na contagem final, 263 membros da seita foram mortos.

Antes de ir embora, Muhammad disse a uma fonte, tomando cerveja em uma boate de Birmingham: "Vou fazer trabalho humanitário no Iraque", onde o "Mahdi vai emergir". Muitos dos mortos no prédio dos Soldados do Céu estavam acorrentados uns aos outros, e é possível que Muhammad não soubesse que estava sendo recrutado para lutar.

Os islâmicos xiitas vivem a expectativa messiânica, e sua história é cheia de falsos candidatos ao papel de Mahdi - o 12º imame xiita, cujo retorno à Terra trará a era da justiça. Este último período parece adequar-se à profecia, que diz que justo antes do advento do Mahdi um exército vai varrer Jebel Sinam, na fronteira do Kuwait com o Iraque, e as pessoas vão testemunhar "montanhas de fogo e uma montanha de alimentos". A invasão por terra americana foi iniciada pelo Kuwait, e as duas montanhas foram explicadas como o poder militar e a economia americanos.

Quando os Soldados do Céu foram atacados, houve confusão sobre sua identidade, porque há tantos movimentos xiitas messiânicos atualmente em operação no Iraque. Um deles, o Musta'ajiloon (ou "apressadores") defende o roubo e o seqüestro para apressar o advento do Mahdi. Os Soldados do Céu estariam planejando tomar a cidade de Najaf - o Vaticano xiita - e executar altos clérigos, a começar pelo grande aiatolá Ali Sistani, assim cumprindo outra profecia, pela qual o Mahdi massacra 70 clérigos xiitas que o rejeitam.

No xiismo, o Mahdi veio a este mundo por parto natural como qualquer outro imame xiita. Com tanto mal no mundo, ele passa por períodos se escondendo, ou períodos de ocultação, e o último durou 11 séculos. O Mahdi foi visto pela última vez em 939 a.C. descendo um poço em Samarra, que por isso se tornou um dos maiores templos xiitas. Foi a destruição desse templo por jihadistas sunitas há um ano que precipitou as convulsões sectárias atuais no Iraque.

O estabelecimento xiita criou profecias elaboradas e condições impossíveis para a aparição do Mahdi, tentando impedir alegações falsas. Ainda assim, surgem pretendentes. Normalmente são desmascarados com histórias de desvios sexuais. Os Soldados do Céu foram menosprezados pelo governador de Najaf como membros da seita Sulukiyya, místicos com rituais estáticos que, segundo dizem, terminam em orgias. Um clérigo associado ao escritório de Sistani foi mais compreensivo: "Eles foram desviados", disse por telefone de Najaf.

Os Soldados do Céu, assim como outros cultos xiitas no Iraque, devem ser considerados variações do movimento sadrista. Muqtada Al Sadr herdou o manto de seu pai, Muhammad Al Sadr, cujo maior trabalho foi um relato de quatro volumes sobre a ocultação do Mahdi e os sinais de seu iminente retorno. Quando Muqtada formou a milícia, ele a chamou, talvez inevitavelmente, de exército Mahdi.

Por enquanto, o xiismo dominante tolera esses fanáticos, acreditando-os exóticos demais para serem dominantes. Então, quando o templo de Samarra foi explodido, Sistani pediu calma, enquanto o exército Mahdi mergulhou em matanças por represália que deixaram milhares de jovens sunitas mortos. Muitos dos corpos tinham a assinatura macabra do misterioso Abu Dera, uma espécie de Zarqawi xiita que está entre os homens mais procurados pela coalizão no Iraque - se ainda estiver no país.

O verdadeiro nome de Abu Dera é Ismael Hafidh Al Hilfi. Ele foi criado na cidade de Amara, no Sul, filho iletrado de um peixeiro. No exército iraquiano, esteve na linha de frente como sargento durante a guerra Irã-Iraque, antes de ser liberado por um ferimento que o deixou manco. Ele tornou-se proeminente na Cidade de Sadr como especialista em projéteis, durante a segunda rodada de confrontos entre as forças dos EUA e o exército Mahdi, no outono de 2004.

Depois do atentado de Samarra, Abu Dera consolidou seu papel de "protetor" da Cidade de Sadr, e sua gangue foi responsável por uma quantidade desproporcional das matanças por vingança contra sunitas, muitas das quais com sua arma característica: a furadeira elétrica.

Os excessos de Abu Dera mostram como é difícil para a hierarquia de Al Sadr controlar o milenarismo, retaliações e a brutalidade das ruas que usam o nome do exército Mahdi. A hierarquia de Al Sadr recusa-se a admitir Abu Dera como membro, mas tampouco o inclui em sua lista de membros renegados. Desde o início de novembro que ele vem se escondendo no Irã, de acordo com uma fonte que o conhece.

*Nibras Kazimi é professor visitante do Instituto Hudson, em Washington Deborah Weinberg

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