Carta da Argentina

Nick Pearce*

Quando 2006 chegava ao fim, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, fez um discurso televisionado à nação. Lendo de perto o texto com sotaque espesso e gutural, com os olhos estrábicos varrendo as páginas, Kirchner declarou iradamente que seria firme na defesa dos direitos humanos e no regime da lei. Ele disse que não seria chantageado por vilões para reverter sua política de levar à justiça os torturadores e assassinos da ditadura militar argentina.

Meia hora depois um homem foi atirado de um carro no norte de Buenos Aires. Era Luis Gerez, um operário da construção de 51 anos e ativista de esquerda que tinha desaparecido dois dias antes. Gerez havia declarado em depoimento que foi torturado por um ex-prefeito e delegado de Escobar na década de 1970. No início do ano, outra testemunha no julgamento contra um delegado tinha desaparecido e não foi mais encontrada. O seqüestro político havia voltado à Argentina. O uso de um cadáver como arma política tem uma longa história na Argentina.

A filha mais famosa do país, Eva Perón, foi embalsamada na noite de sua morte, para depois ser exibida a seus milhões de seguidores. Mas o corpo desapareceu quando os militares derrubaram seu marido, Juan Domingo Perón, em 1955, e apareceu anos depois em um cemitério em Milão, aonde os generais o haviam enviado, temendo seu poder simbólico. Para garantir sua volta, guerrilheiros de esquerda seqüestraram o cadáver do ex-ditador militar Aramburu, depois de assassiná-lo por sua participação na repressão aos seguidores de Perón. Hoje ambos estão no cemitério da Recoleta. O túmulo de Eva é uma importante atração turística, com o corpo protegido por cofres e alçapões.

O corpo de Juan Perón também entrou na disputa por seu legado político. Quando ele voltou à Argentina em 1973 para sua última presidência fatídica, atiradores camuflados abriram fogo contra militantes na multidão que o esperava no aeroporto, deixando dezenas de mortos. Essa tragédia se repetiu como farsa no ano passado, quando sindicalistas travaram uma batalha armada sobre o caixão de Perón quando ele chegou para uma cerimônia de re-enterro na cidade onde passava os verões. Em 1987, seu cadáver havia sido mutilado em um ataque ritualístico bizarro. Suas mãos foram decepadas e vários artefatos, roubados. Em seu lugar deixaram uma nota de resgate assinada "Hermes Iai y los 13". Ninguém sabe quem fez isso.

O exílio do corpo sinaliza uma perda insuportável na imaginação nacional argentina. Se o corpo não estiver em seu lugar próprio de descanso, a nação está incompleta. Os restos mortais de José de San Martín, o pai da pátria, foram trazidos de volta de Paris e hoje repousam resplandecentes na catedral de Buenos Aires, envoltos na bandeira nacional.

Ainda no final de 1989, as cinzas do ditador General Rosas, do século 19, foram repatriadas de Southampton, Inglaterra, onde ele morreu como refugiado político. A união nacional é simbolizada pelos corpos dos líderes mortos; sua ausência indica desunião.

O que explica essa luta sobre cadáveres políticos? O escritor Tomás Eloy Martínez a chama de necrofilia nacional: "Como o tango, o pólen da necrofilia tinge o ar do país de melancolia", ele escreveu. Mas os argentinos não são apenas possuídos por uma pulsão excessiva pela morte. Nem tendem a uma predisposição hispânica a celebrar os mortos. Na Argentina o corpo é político por causa das doenças com que o corpo político do país foi afetado.

Nas primeiras décadas do século 20 a Argentina era um dos países mais ricos do mundo. Havia absorvido milhões de imigrantes europeus, unindo-os em um país repleto de símbolos de orgulho nacional e confiante em sua prosperidade. Depois de 1912, ele teve o sufrágio masculino universal, o voto secreto e a votação compulsória. Uma democracia saudável parecia garantida.

No final do século esse otimismo tinha evaporado. A Argentina havia decaído constantemente, ao ponto da fusão econômica em 2001. No centro dessa crise prolongada estava o fracasso em cimentar uma democracia liberal constitucional. Durante a maior parte do século, a Argentina alternou entre o populismo autoritário e a ditadura militar, culminando no Estado terrorista de 1976-83, quando as técnicas de seqüestro, tortura e "desaparecimento" foram aperfeiçoadas nos corpos de milhares de pessoas.

O segredo do sucesso de Perón foi sua combinação de nacional e popular. Ele conclamou "o povo" na luta contra a oligarquia. Ele falou para a carne e o sangue dos trabalhadores, e não de seus direitos como cidadãos liberais. Seu corporativismo era autoritário, mas entremeado de justiça social. Como tal, o peronismo inibiu a formação de partidos políticos regulares do tipo europeu moderno. Quando seu apelo populista excedeu os limites da tolerância da elite argentina, os militares entraram em cena.

O corpo simboliza esse aborto político. De um lado, ele é carregado de um poder ritual há muito descartado pelo discurso nacional das democracias constitucionais. A política do corpo representa o fracasso da modernização constitucional. De outro, é testemunha da modernidade da repressão militar, no aparato de tortura e na ausência fantasmagórica de jovens homens e mulheres cujos corpos continuam desaparecidos. Kirchner está tentando interferir nessa história, levar justiça a suas vítimas e solidificar as normas constitucionais. Ele só pode esperar que os seqüestros do ano passado sejam os estertores mortais do antigo "corpo político".

*Nick Pearce é diretor do Institute for Public Policy Research, em Londres Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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