O conflito entre esquerda e direita definiu o século 20. O que vem depois?

Da Prospect Magazine

Julian Baggini, filósofo
Uma das tarefas dos políticos é entender quais valores são universais e quais não. O novo conflito é entre o universalismo liberal e um comunitarismo que afirma a necessidade das culturas de manter seus próprios valores e tradições. Será este último apenas um freio temporário do primeiro, ou o sonho universalista morrerá?

Philip Obbitt, autor de política
Nação contra mercado. Partidos políticos da nação-Estado viam a lei como meio de alcançar seus objetivos morais. Partidos do mercado-Estado tentam maximizar as escolhas dos cidadãos, seja desregulamentando indústrias ou a reprodução das mulheres, sem assumir nada no sentido de concordar com objetivos comuns. Entre outras conseqüências, essa nova ordem constitucional vai gerar uma nova forma de terrorismo.

Robert Cooper, membro do governo da UE
A história, disse Hegel, é a noção crescente da liberdade. No século 19, a liberdade veio com o Estado de direito e o Estado. Neste século, a liberdade virá da lei internacional, mas não há Estado internacional. A grande questão é como organizar este mundo no qual a política e a identidade são nacionais, mas só conseguimos sobreviver e prosperar se agirmos internacionalmente. Tudo bem falar de "comunidade internacional", mas quem é, e como pode funcionar?

Diane Coyle, economista
Tecnocracia contra democracia. Já há áreas importantes de política pública sendo administradas por especialistas, no lugar de políticos eleitos, e funcionam melhor do que quando a pressão eleitoral afetava os resultados: a política monetária é o exemplo óbvio. Mas há tensão aqui. Por um lado, as novas tecnologias nos dão uma hiperdemocracia, uma pressão rápida e gigantesca on-line. Pelo outro, a ciência cognitiva e ciência social empírica constroem uma base de evidências mais confiável para tecnocratas sobre como as pessoas tomam decisões e quais serão suas conseqüências na prática.

Brian Eno, músico
Intervencionistas versus o 'deixa estar'; globalistas versus nacionalistas; comunidade geográfica versus comunidade de escolha; vida real versus vida virtual; extensão da vida para todos versus extensão da vida para alguns. (Comentários completos sobre cada uma dessas categorias on-line em www.prospect-magazine.co.uk) Duncan Fallowell, autor Toda política no futuro será sobre sobrevivência, pura e simples. A migração em massa das regiões quentes às temperadas já começou. A batalha entre a generosidade e o interesse pessoal será cada vez mais motivo de ataques de pânico coletivos. O medo já está em toda parte.

Gerald Hotham, economista
O novo alinhamento combinará conservadores sociais e igualitários de um lado, unidos sob a bandeira do patriotismo e da responsabilidade em relação aos outros cidadãos, apoiados pelos votos dos menos competitivos. Eles enfrentarão a oposição de meritocratas e libertários, apoiados pelas grandes empresas. O confronto entre a política de identidade e a política do dinheiro ficará explícito. Atualmente, as tensões são contidas porque a globalização, apesar de erodir a comunidade, está gerando prosperidade. Mas isso é instável.

A globalização, ao fornecer ampla de mão-de-obra para a economia mundial, levou a um aumento dos lucros e um declínio do salário em todos os países industrializados. Nas economias emergentes da Ásia, criou condições do século 19, onde os lucros e o investimento são responsáveis por 50% do produto interno bruto. No Ocidente, enquanto os salários não se mantiveram, o consumo sim, graças a uma explosão da dívida do consumidor. Nem investimento nem dívida do consumidor podem crescer indefinidamente mais rápido do que o PIB, sem uma queda. Quando a queda chegar, as alianças vão se formar em torno de linhas nacionalistas contra globalizadoras.

Pervez Hoodbhoy, cientista
As políticas global e nacional vão ficar simples e hobbesianas em 50 a 70 anos. Enquanto isso, a fome de energia vai levar os países europeus e os EUA a espremerem e roubarem as últimas gotas de petróleo das areias muçulmanas. Enquanto as pontes entre o islã e o Ocidente desmoronam, espere guerra civil global e triunfantes movimentos neotalebans em torno do globo. Se algumas capitais ocidentais forem arrasadas, as capitais muçulmanas serão atingidas por bombas nucleares em retaliação. A antiga ordem planetária está condenada a morrer. Mas o espírito humano ainda poderá prevalecer, e um novo e melhor poderá emergir.

Nicholas Humphrey, cientista
Como alguém pode duvidar que a linha divisória será a religião? Por um lado, haverá os que continuam a apelar para seus valores políticos e morais e o que compreendem como vontade de Deus. Do outro, haverá os ateus, agnósticos e materialistas científicos que entendem que as vidas humanas estão sob o controle humano, sujeitas apenas às restrições relativamente negociáveis de nossa psicologia desenvolvida. O que torna o resultado incerto é que nossa psicologia evoluída quase certamente tende para a religião como uma defesa essencial contra o terror da morte e da falta de significado.

Antaole Kaletsky, jornalista
O socialismo pode estar morto, mas as tensões entre os que têm e os que não têm vão dominar o próximo século, assim como fizeram em cada século anterior. O século 20 foi o único período na história em que o igualitarismo brevemente pareceu ser vencedor. No futuro, a desigualdade prevalecerá, não por ser moralmente correta ou economicamente eficiente ou até inerente à natureza humana, mas porque se tornou aceitável.

As elites em todo o mundo estão descobrindo formas de acomodar e satisfazer as aspirações da maioria, sem minar suas próprias posições privilegiadas, e esse processo continuará. As batalhas do século 20 entre a elite conservadora e o proletariado igualitário acabaram. As novas tensões políticas nascerão entre uma elite de maioria conservadora e proletariado de um lado e, do outro, uma subclasse socialmente excluída que, por razões sociológicas, genéticas ou religiosas, não pode ou não aceita ser cooptada pela sociedade burguesa.

Andrew Moravcsik, acadêmico
Que questão mais européia. Esquerda contra direita pode ser um tema ultrapassado na Europa, mas aqui nos EUA, não. Aqui não é apenas uma questão importante - é a única. Nós americanos habitamos a única grande democracia industrializada que ainda trava as batalhas domésticas dos anos 30 (ou de 1890), essencialmente sem mudanças. Diferentemente da Europa - nesse respeito, o Reino Unido é totalmente europeu - os americanos nunca colheram os frutos da vitória progressista em tais batalhas: o estabelecimento firme da social-democracia, do secularismo e do antimilitarismo.

Em vez disso, continuamos uma nação firmemente libertária. Os custos são evidentes: 40 milhões sem seguro de saúde, a mais alta mortalidade infantil do Ocidente, uma divisão trágica entre negros e brancos, amplo domínio da religião sobre as escolhas pessoais, uma aversão à aplicação da lei internacional e ainda um fascínio insalubre com o poder militar imperial. Na Europa, tudo isso desapareceu há meio século. Aqui, depois de uma geração de domínio conservador, está ressurgindo.

Anshuman Mondal, acadêmico
Não é coincidência que a distinção esquerda/direita tenha se borrado enquanto a religião ressurgiu na vida pública, porque essas categorias foram reprimidas por formas secularistas de pensar e ser. O secularismo vai continuar a ser desafiado, e em jogo estará nada menos que um tipo de "modernidade" ao qual todos nos acostumamos. Haverá também um desafio crescente à hegemonia do "ocidentalismo", à noção de que os modelos ocidentais de política, sociedade e economia representam o objetivo do desenvolvimento humano. Será a próxima etapa de descolonização.

Francis Wheen, autor
A nova batalha será entre o melhor do legado do Iluminismo (racionalismo, empirismo científico, separação da Igreja e do Estado) por um lado e, do outro, várias formas de obscurantismo e relativismo destituído de valores, freqüentemente mascarado como "antiimperialismo" ou "antiuniversalismo" - para dar um verniz atraente radical a atitudes profundamente reacionárias. Algumas coisas realmente são (ou deveriam ser) universais, desde a liberdade de expressão até o valor de pi, mas, no atual ambiente, até essas podem ser apresentadas como imposições ocidentais. O que torna esta batalha tão séria são as forças que estão se unindo contra a versão iluminista da modernidade - pré-modernistas e pós-modernistas, progressistas da nova era e fundamentalistas ao estilo do Velho Testamento. Elas têm pouco em comum, além de uma grande coisa - seu ódio visceral pela razão. Deborah Weinberg

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