Extremista razoável

Bella Thomas*

Ao contrário dos seus futuros agressores, que desprezavam as idéias dela a respeito do islamismo, Ayaan Hirsi Ali conta com um rol de improváveis críticos liberais, muitos dos quais a subestimam e deturpam o seu argumento.

Hirsi Ali é uma somali que pediu asilo no Ocidente, voltou-se contra a sua antiga religião, meteu-se em encrenca por causa disso e acabou se tornando uma integrante do parlamento holandês - apenas para renunciar ao cargo. Depois que o seu colaborador, o cineasta Theo van Gogh, foi assassinado em 2004, um número surpreendente de pessoas assumiu, erroneamente, que ela era em grande parte a responsável por conflagrar a política holandesa em relação à questão racial e por reverter as tradições de tolerância holandesa.

A sua nova autobiografia, "Infidel" ("A Infiel"), coloca a história da sua vida e a sua posição em um quadro que deverá fazer com que seja bem difícil desprezar a sua argumentação. A história começa com a sua avó nômade na Somália e explica como, quando criança, Hirsi Ali fugiu do seu país (no qual o seu pai era um comandante guerrilheiro que se opunha à presidência de Siad Barre) e morou brevemente na Arábia Saudita e na Etiópia, antes de ir parar no Quênia. A seguir ela escapou de um casamento forçado, pedindo asilo na Holanda no início da década de 1990. Lá ela se tornou faxineira e tradutora, estudando ciência política nas horas vagas.

Enquanto trabalhava como tradutora nos abrigos para mulheres vítimas de espancamento, ela descobriu que algumas das práticas impostas às mulheres muçulmanas (casamentos forçados, mutilação genital), que ela acreditava ter deixado para trás quando saiu da Somália e do Quênia, eram realizadas nos subúrbios de Roterdã e Amsterdã. Ela procurou trazer essas questões à tona em debates políticos, e se transformou em uma crítica feroz da segregação instituída por uma versão cega de multiculturalismo. A seguir ela foi convidada pelo Partido Liberal Holandês para se tornar uma integrante do parlamento.

Apesar da aprovação dispensada ao livro "A Infiel", várias das acusações originais de extremismo feitas contra ela não desapareceram. Assim, Maria Golia alegou no Suplemento Literário de "The Times" que Hirsi Ali faz "oposição à tolerância holandesa", e o "Economist" afirmou que ela "ingressou no parlamento navegando em uma onda de sentimento anti-imigrante" e chamou-a de "camaleoa". Mas Hirsi Ali nunca falou a respeito da necessidade de restringir a imigração: o seu interesse consiste em preservar as liberdades daqueles que emigram para o Ocidente, porque, segundo ela argumenta, tais liberdades foram parte do motivo para que ela emigrasse.

O seu objetivo é alertar para a subordinação das mulheres muçulmanas. É curioso que as feministas não tenham defendido mais a sua causa: seria de se pensar que o islamismo fosse o eleitorado emergente para o feminismo. Se um grande número de muçulmanos tivesse morado na Europa na década de 1960, não teria sido possível para o movimento feminista ignorar o islamismo.

O ateísmo de Hirsi Ali também pode ser um problema, pelo menos para as mulheres muçulmanas devotas. O seu argumento é que os muçulmanos europeus precisam romper terminantemente com aquelas que podem ser consideradas passagens misóginas do Alcorão. Não é preciso rejeitar o islamismo para se fazer tal coisa. O fato de a circuncisão feminina ser praticada também por não muçulmanos (e de a prática não ocorrer em todos os países muçulmanos) não permite que se negue que o costume é legitimado por aqueles que o praticam como uma tradição muçulmana. Não seria de se esperar que uma pessoa que tivesse deixado a Igreja Católica deixasse de fazer comentários a respeito dos abusos que presenciou. Portanto, não fica claro por que o ateísmo de Hirsi Ali retiraria a legitimidade da sua argumentação.

Além disso, o estilo de Hirsi Ali é tido como "não diplomático". Mas ela tem procurado de forma bastante deliberada gerar uma comoção, tanto para trazer à tona as questões quanto para mostrar que os muçulmanos na Europa precisam ser capazes de conviver com críticas agudas. A sua alegação de que o véu é uma forma de as mulheres assumirem a responsabilidade pelo desejo sexual masculino (e que seria preferível que os homens aprendessem o exercício do autodomínio) pode ser uma forma caracteristicamente dura de abordar o problema, mas será que a sua argumentação é equivocada?

Existem reformadores muçulmanos que acreditam que só o gradualismo pode dar resultados. O gradualismo pode ter o seu papel, mas as pessoas que chamam atenção de forma mais urgente para práticas opressivas também têm a sua importância. É revelador o fato de figuras liberais como Timothy Garton Ash e Ian Buruma parecerem alarmadas com a sinceridade de Hirsi Ali. É peculiar que tais pessoas, que não teriam problemas ao ver outras religiões serem atacadas, sintam que, devido às implicações geopolíticas mais amplas, os ex-muçulmanos deveriam se abster de fazer declarações ofensivas e de dizer o que de fato pensam.

Qual é a agenda de Hirsi Ali? Ela quer ter a liberdade de criticar o islamismo, estridentemente, caso seja necessário, da mesma forma que cristãos e judeus podem atacar as suas religiões. Ela quer que os muçulmanos, e especialmente as mulheres muçulmanas, integrem-se às sociedades ocidentais e desfrutem das liberdades destas sociedades. Ela deseja que os muçulmanos tenham a liberdade de abandonar a religião da mesma forma que ela abandonou. E ela quer também que os direitos individuais tenham prioridade sobre os direitos de grupos.

Os seus críticos alegam que o islamismo possui muitas manifestações, e que a religião deveria ser vista sob um prisma mais complexo. A seguir esses críticos geralmente ignoram, desprezam ou relativizam todos os argumentos dela.

Ser capaz de "revisar" a noção do que seria uma boa vida e de decidir abandonar determinado grupo é um valor central do liberalismo, e não vejo por que os muçulmanos deveriam ser excluídos dessa possibilidade. E tampouco é óbvio por que alguém deveria ser chamado de "fundamentalista" por preconizar tal coisa.

*Bella Thomas é diretor do programa da Fundação Ax:son Johnson, na Suécia UOL

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