Uma força francesa

Charles Grant

A exortação de Nicolas Sarkozy para que a França rompa com seu passado faz dele uma figura excitante. Nos últimos cinco anos, durante seus períodos como diretor da União por um Movimento Popular, ministro das Finanças e ministro do Interior - ele se provou um político eficaz e hiperativo. Se alguém será capaz de chacoalhar a economia esclerótica e sistemas burocráticos da França, provavelmente será o candidato gaullista à Presidência. Seu apelo é inegável.

Domenique Faget/AFP 
Nicolas Sarkozy se revela muito menos liberal anglo-saxão do que ele realmente é

Em um comício eleitoral caoticamente organizado em Londres, em janeiro, tantos exilados franceses foram vê-lo que milhares de pessoas ficaram do lado de fora, nas ruas. Sua mensagem para os que conseguiram entrar foi simples: a França deve mudar para atrair de volta os jovens e empreendedores.

O mais recente livro de Sarkozy, "Temoignage" (testemunho), é uma série de histórias desconectadas, reflexões e propostas. Ele conta como conseguiu aprovar reformas difíceis como ministro, como planeja outras como presidente, como combateu difamações e esquemas de seus inimigos e como suas relações tanto com Jacques Chirac quanto com Cecília são realmente muito melhores do que as pessoas imaginam. Sarkozy não apresenta uma filosofia política, meramente afirma que sua interpretação do gaullismo, contrariamente à de Chirac, é que a França precisa uma reforma incessante.

Tal livro pouco intelectual previsivelmente recebeu escárnio da elite de esquerda. Apesar de 30 anos como ativista na direita da política francesa, Sarkozy continua um estrangeiro - com um pai da Hungria e um avô maternal judeu de Thessaloniki, Grécia. Ele nunca freqüentou as grandes escolas. Mas o fato de não ser do "establishment" apenas aumenta seus atrativos, e esse livro vendeu mais de 300.000 cópias na França.

Sarkozy parece pouco interessado no mundo maior, mencionando outros países principalmente como exemplos com os quais a França deve aprender. Nos anos 70, salienta, o Reino Unido era 25% mais pobre do que a França e agora é 10% mais rico. Mas ele não oferece uma análise verdadeira explicando por que o desempenho econômico da França caiu em relação a seus pares, ou quais reformas estruturais são necessárias para deter o declínio. Ele quer relaxar as regras da semana de 35 horas e implora aos franceses para trabalhem mais. Para seu crédito, ele diz que nem a globalização nem a UE têm culpa dos problemas da França e que nenhum dos dois impede o governo de lidar com eles.

Entretanto, Sarkozy tem pouco a dizer sobre o papel exagerado do Estado na economia francesa; sobre a dificuldade em reformar o setor público antiquado, devido ao conservadorismo dos sindicatos; ou sobre as regras de contratação e demissão que impedem as empresas de criarem empregos. Se ele pensa que a França precisa promover um ambiente empreendedor, ele não diz isso. Ele não parece ter consciência de que a França abriga algumas das melhores e mais dinâmicas empresas da Europa - mesmo que algumas apenas consigam se manter lucrativas enviando a produção ao exterior.

Ao menos ele confronta uma debilidade fundamental da economia francesa: o sistema de ensino superior de segunda categoria. Ele se revolta com o fato de a universidade francesa de melhor desempenho ficar em 46º lugar na classificação da Universidade de Xangai. As reformas que ele propõe são inteligentes, inclusive a liberação das universidades do controle central.

Quando Sarkozy escreve sobre os mecanismos da administração econômica, ele se revela muito menos liberal anglo-saxão do que ele (e seus inimigos) dizem. Ele é fortemente contra empresas estrangeiras comprarem as "campeãs" francesas. Ele reclama que o investimento estrangeiro excessivo enfraqueceu a economia francesa e levou muitas das decisões serem enviadas ao exterior. Ele conta como, quando ministro das finanças, ele impediu que a Novartis, suíça, comprasse a Aventis, farmacêutica francesa. Ele também insistiu em salvar a empresa de engenharia Alstom - apesar de objeções da comissão européia - para impedir que a Siemens alemã a comprasse.

Sarkozy diz que as economias européias não podem sobreviver só de serviços, e que o governo francês deve promover setores industriais "estratégicos". Ele fica chateado que "em dez anos, 9.000 empresas francesas foram tomadas por estrangeiros, enquanto 650 empresas estrangeiras se tornaram francesas". Ele quer que a França aprenda com o relativo sucesso econômico do Reino Unido e dos países nórdicos, mas ele não parece entender que seu sucesso é em parte resultado da abertura que ele negaria à França.

Outra coisa sobre a qual Sarkozy escreve pouco é o problema de integrar muçulmanos na sociedade francesa. Apesar de ele chamar os manifestantes suburbanos de "turba", ele não é meramente populista. Ele aboliu a lei de "dupla punição" sob a qual cidadãos não franceses que saíam da prisão eram automaticamente deportados, e quebrou um tabu francês, pedindo uma ação afirmativa em favor das minorias étnicas. Ele zomba do absurdo da lei que impede o Estado de coletar dados estatísticos sobre etnias e, portanto, de saber se grupos particulares sofrem de problemas de desemprego, saúde ou educação.

O que é mais refrescante em Sarkozy é sua iconoclasia. Ele quer mais poder para o parlamento, para equilibrar o do presidente. Ele diz que os franceses exageram em sua insistência em falar sua própria língua em organizações internacionais e, como resultado, perderam influência. Ele pede aos franceses que não vejam os EUA com negatividade, e elogia sua mobilidade - mas assegura-os que fica horrorizado com os sistemas de saúde e bem estar americanos. Como Jacques Chirac levou a "realpolitik" ao limite, aproximando-se dos regimes russo e chinês, é bom ouvir de Sarkozy a promessa que não vai ignorar direitos humanos ao lidar com esses países.

Ele diz pouco sobre a Alemanha: em vez do duo franco-alemão, ele quer que um clube dos grandes Estados membros dirija a UE. Pouco usual para um político francês, Sarkozy admite admirar muito o Reino Unido, inclusive a força de seu parlamento e sua capacidade de gerar emprego.

Leitores britânicos, entretanto, podem ficar espantados com os paralelos entre Sarkozy e outro estrangeiro que adorava a França profundamente, que tinha energia ilimitada e grande apelo popular - e que veio da Córsega.

*Charles Grant é diretor do Centro para Reforma da Europa, um grupo de estudos em Londres Deborah Weinberg

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