Esquerdas iliberais

David Clark

Nas últimas semanas tem sido difícil evitar os argumentos do jornalista britânico e autor Nick Cohen em seu livro "What's Left?: How Liberals Lost Their Way" (O que é esquerda?: Como os liberais perderam o caminho) sobre a condição da esquerda moderna depois da oposição à guerra no Iraque e à guerra ao terror.

As conclusões de Cohen são impiedosamente críticas e profundamente pessimistas. Roubada de seu propósito histórico pelas derrotas dos anos 80, grande parte da "esquerda liberal" (termo amplo que Cohen usa para todo matiz de opinião de esquerda) vivenciou uma "sombria liberação" da política responsável e optou por um oposicionismo auto-indulgente, que na melhor das hipóteses trai suas mais nobres aspirações e, na pior, a torna cúmplice ativa da direita autoritária. Em resumo, a esquerda liberal está moral e politicamente falida.

Cohen está correto quando diz que a doutrina "o inimigo de meu inimigo é meu amigo" levou setores da esquerda a algumas conclusões verdadeiramente grotescas. Uma delas foi que o grande crime cometido nos Bálcãs nos anos 90 não foi a matança étnica infligida por paramilitares sérvios, mas os esforços do governo ocidentais para detê-la. Outra foi a transformação de Saddam Hussein de tirano coberto de sangue em uma vítima nobre do imperialismo americano. O melhor do livro de Cohen é quando expõe esses absurdos, especialmente quando destrói as tentativas de George Galloway de explicar porque bajula Saddam.

Se Cohen está correto ao apontar que alguns esquerdistas estão preparados a tolerar ou até apoiar movimentos totalitários em serviço do antiimperialismo, sua afirmativa de que isso é sintomático de uma nova e profunda doença da esquerda liberal está errada.

Certamente não é nova. Cohen descreve sua desilusão ao descobrir que a esquerda não é uma "família feliz", como pensara, composta essencialmente de "pessoas decentes". Assim, parece um comunista confuso ao descobrir sobre o discurso secreto de Khrushchev - tem dificuldades em aceitar algo que nós sempre soubemos.

A esquerda engloba um amplo espectro de opiniões, e personalidades totalitaristas estiveram presentes em suas fileiras desde o início. Gracchus Babeuf e a Conspiração dos Iguais anteciparam Pol Pot em quase dois séculos, com seu plano de criar a sociedade perfeita pelo efeito purificador do extermínio em massa. E houve muitos imitadores desde então. Além dos ultra-esquerdistas que abertamente desprezam a democracia liberal, sempre houve colegas dispostos a dar um apoio suave.

Cohen considera deplorável o fato de os manifestantes contra a guerra em março de 2003 não terem gritado slogans contra Saddam, mas ao menos nenhum deles cantava a favor dele. Compare isso ao que os esquerdistas de 68 - nostalgicamente considerados símbolos da virtude progressista pelo herói de Cohen, Paul Berman - que cantavam sua devoção ao despótico Ho Chi Minh sempre que podiam.

Apesar de a maior parte do livro de Cohen ser dedicada a atacar os que glorificam o baathismo e o islamismo, ou ao menos aqueles que os preferem ao bushismo, seu verdadeiro alvo são os que procuram "racionalizar o irracional", ou seja, os que lidam com os islamitas e outros como fenômenos políticos, em vez de simples manifestações do mal. Essa diferença é crucial. Se o terrorismo e o extremismo são influenciados pela política, então é possível lidar com eles por um processo de engajamento - talvez não com os próprios terroristas e extremistas, mas certamente com os suscetíveis a sua propaganda. Se, ao contrário, eles não são nada além de patologias violentas, qualquer tentativa de explicação racional pareceria conciliação e provavelmente pioraria o problema.

Cohen não tem dúvidas de que pertence ao último campo, mas não parece ser liberal, como alega. Ele constrói seu argumento de forma a fechar a discussão sobre o que é islamismo e como lidar com ele. Em vez de manter nossa capacidade de reflexão e autocrítica - uma força única das sociedades abertas - devemos abandonar esses luxos e confrontar o mal em seus próprios termos. Talvez Cohen não compreenda, mas é na política temerosa de segurança nacional que, em geral, estão as verdadeiras sementes do totalitarismo.

É difícil evitar a conclusão de que o verdadeiro propósito da polêmica de Cohen é profundamente pessoal. Quase todos que mudam de posição política começam alegando que continuam verdadeiros aos seus princípios, enquanto seus camaradas de outrora os traíram. No caso de Cohen, a afirmativa não convence. Suas advertências sobre os perigos da dependência da previdência social e da educação ampla sugerem que seu desencanto com a esquerda é sobre mais do que política externa, mesmo que o Iraque tenha sido o catalisador.

Nisso certamente não está sozinho. Enquanto seu livro estava sendo publicado, o intelectual francês ex-esquerdista e pró-guerra André Glucksmann estava anunciando seu apoio a Nicolas Sarkozy para as próximas eleições presidenciais. Qualquer um que conheça as origens do movimento neoconservador como "socialistas para Nixon" entende o significado. É a esquerda pró-guerra que está se movendo, não a "esquerda liberal" que Nick Cohen condena com tanta veemência.

David Clark foi assessor especial do ex-secretário de Estado britânico Robin Cook Deborah Weinberg

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