O trovejar estéril de Raine

Terry Eagleton*

Durante várias décadas, grossas colunas de fumaça de incenso fluem do establishment literário inglês na direção de T.S. Eliot. A última oferta dos acólitos do sumo-sacerdote é o estudo de autoria de Craig Raine, "T. Eliot: Image, Text and Context" ("T. Eliot: Imagem, Texto e Contexto"), que admite que parte da obra dramática de Eliot não é lá essas coisas, mas fora isso não se ouve uma só crítica ao grande homem.

"Não existe evidência de que Eliot tenha sido nem fornicador nem homossexual", observa Raine em tom puritano, como se o fato de ser homossexual fosse um delito merecedor de vigorosa contestação. Ele afirma, imprudentemente, que Eliot também não foi misógino, mesmo que a poesia eliotiana tenha sido marcada do princípio ao fim por medo e abominação às mulheres. Ele procura até minimizar a acusação de que o ascético ex-funcionário de banco tenha sido meio chato e ranzinza, embora o próprio Eliot tenha admitido isso.

Por que os críticos sentem uma necessidade de defender os autores sobre os quais escrevem, como se fossem pais indulgentes que mostram-se surdos a todas as críticas dirigidas aos seus filhos antipáticos? A reputação merecida de Eliot está estabelecida para além de qualquer dúvida, e pintá-lo como figura tão perfeita como o arcanjo Gabriel não o ajuda em nada. É verdade que o poeta era um elitista mal-humorado e reacionário que acompanhava em viagens alguns dos tipos políticos mais desagradáveis da década de 1930, e que como cristão sabia muito sobre fé e esperança, mas pouco a respeito de caridade. Não é preciso fingir que todos os grandes escritores foram heterossexuais paparicadores das suas mulheres, ideologicamente liberais e pró-semitas. Por que Raine escreve como se a descoberta de que Eliot foi pedófilo pudesse modificar a nossa opinião sobre "Four Quartets"?

E não se trata também de uma questão de "ótima poesia, mas política lamentável". O fato de, com exceção de Joyce e de Woolf, quase todos os grandes modernistas "ingleses" terem sido reacionários radicais, curvados na direção do consenso liberal-ortodoxo da época, é uma condição para as suas realizações e não um corolário lamentável.

Raine defende o seu protegido acima de tudo contra a acusação de anti-semitismo, e ao fazê-lo cria pelo menos uma página de insinceridade magistral. Quando Eliot escreve que "qualquer número elevado de livres pensadores judeus é indesejável" e que "um espírito de excessiva tolerância com relação a isso deve ser desaprovado", Raine é capaz de demonstrar com as suas habilidades de análise de texto que na verdade o que emerge é apenas uma crítica moderada. Isso porque, conforme se pode constatar, o indesejado é um grande número de tais judeus, e não todos eles; e é a tolerância excessiva, e não qualquer antiga tolerância, que deve ser desaprovada. Assim sendo, tudo bem quanto a essas passagens.

Porém, temos que ser gratos pelo fato de o livro manter-se a maior parte do tempo longe das idéias, a não ser quando nos informa que o "significado" da poesia de Eliot reside no tema da vida sepultada. A preocupação constante do poeta, sugere Raine, é uma incapacidade de viver plenamente. Essa é uma alegação incrivelmente reducionista. Se algum pobre desafortunado crítico de esquerda sugerisse que os escritos de Ted Hughes dizem respeito única e exclusivamente ao destino da natureza nos períodos mais recentes do capitalismo, o establishment literário cairia sobre o escriba azarado como uma tonelada de tijolos.

Raine não entende que a poesia de Eliot não é, para início de conversa, uma questão de significado. Para Eliot, o significado de um poema é uma questão bem desimportante. Ele certa vez observou que o significado é algo como um pedaço de carne que o ladrão joga para o cão de guarda para distrair o animal. De forma verdadeiramente simbolista, Eliot estava interessado naquilo que um poema fazia, e não no que dizia - na ressonância do significante, nos ecos dos seus arquétipos, nas associações fantasmagóricas que assombram a sua granulosidade e textura, no trabalho oculto e subliminar do seu inconsciente. O significado era para as aves, ou talvez para a pequena burguesia.

Eliot foi um primitivista, assim como um sofisticado, um escritor que moveu guerrilhas contra o inconsciente coletivo. Apesar de todo o seu intelectualismo, ele era avesso à racionalidade. Na sua poesia o significado é como a figura misteriosa que caminha ao lado do leitor em "The Waste Land", e que desaparece quando olhamos diretamente para ela.

Quando Raine indaga, referindo-se a umas duas linhas de um poema de Eliot, se o leitor está no interior de um bordel, a única resposta fiel à própria estética de Eliot é que estamos em um poema.

Portanto, o livro de Raine é na verdade mais um guia para os leitores de Eliot, abrindo teimosamente caminho de poema a poema, perseguindo alusões e explicando as partes difíceis. Grande parte desse trabalho é perfunctório, embora alguns trechos sejam brilhantemente perceptivos. O narrador em "Gerontion", por exemplo, é "uma figura psíquica não convidada, um não combatente, um opositor demasiadamente consciencioso, um ascético constitucional".

Apesar disso, o livro é excelente quando menciona a influência de Eliot sobre Jules Laforgue, e conta com o ouvido astuto de um poeta para captar os efeitos do som e da sintaxe. O problema é que ele tende a tecer paráfrases baratas como, "Deus, a Palavra, existe; mas por razões diversas as pessoas acham difícil aceitar a Palavra, difícil acreditar em Deus". O livro também tem problemas em distinguir inteligência de presunção.

Talvez a melhor coisa que se possa afirmar a respeito da crítica de Raine, assim como da sua poesia, é que ela é cintilantemente superficial. Ele é a pessoa certa para identificar os detalhes incomuns, mas é indiferente quando se trata da visão moral ou do quadro maior. A confusão verbal e a pretensão dos seus escritos contrastam com a sua pobreza conceitual. Se existe escassez de emoção absoluta e autêntica no trabalho de Eliot, há também uma ausência desses componentes nos comentários de Raine. No entanto, o autor é notavelmente generoso nos seus comentários sobre outros críticos. "Um ensaio feito por Ann Pasternak Slater é a melhor descrição que pode ser encontrada do casamento de Eliot", assegura Raine. Felizmente ele se lembra de acrescentar que Pasternak Slater é a sua mulher.

*Terry Eagleton é professor de teoria cultural na Universidade de Manchester UOL

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