A honra de Sabreen...

Nibras Kazimi

Em março, o Instituto Al Furqan para Produções da Mídia divulgou uma filmagem de um grupo de homens vendados, ajoelhados em uma vala rasa, sendo executados. Eles supostamente seriam membros de um grupo de 18 soldados e policiais iraquianos que foram seqüestrados dois dias antes, enquanto estavam de licença de suas unidades na província de Diyala. O grupo que reivindicou a responsabilidade, o Estado Islâmico do Iraque (ISI) liderado pela Al Qaeda, emitiu anteriormente um ultimato ao governo iraquiano: a menos que suas exigências fossem atendidas, todos os seqüestrados seriam mortos em 24 horas. Quatro dos corpos que foram encontrados posteriormente tinham sido decapitados.

A principal exigência do grupo era a entrega dos oficiais de uma brigada de ordem pública, acusados de terem estuprado uma mulher sunita de 20 anos, Sabreen al Janabi. Em meados de fevereiro, Janabi apareceu na TV Al Jazeera para descrever seu caso e o mundo árabe sunita enlouqueceu.

A entrevista na televisão foi arranjada pelo Partido Islâmico do Iraque, o maior partido sunita no Parlamento, cujo líder, Tariq al Hashemi, é o vice-presidente do Iraque. A história foi apresentada como um exemplo de como os xiitas foram longe demais no molestamento da honra sunita, representada por Janabi. Poucos dias depois, o chefe da Al Qaeda na Mesopotâmia, Abu Hamza al Muhajir, divulgou um vídeo de um discurso no qual alegava que "a honra foi violada, a religião foi profanada". Após tomar conhecimento do estupro de Janabi, ele disse, "300 combatentes iraquianos pediram para participar de operações de martírio (...) 50 deles são da tribo de Janabi, sendo que 20 deles a pediram em casamento se ainda não for casada".

Para não ficar atrás, o emir do Exército Islâmico do Iraque (IAI), o segundo maior grupo rebelde sunita, fez um discurso anunciando que as operações de seu grupo no próximo mês seriam chamadas de "vingança de Sabreen". Desde tais pronunciamentos, o ISI lançou vários ataques sob a bandeira da "Vingança da Honra", enquanto o IAI chamou sua campanha de "Ajudando Nossas Irmãs". Ambos os grupos alegam ter infligido centenas de baixas às forças americanas e iraquianas.

Mas a verdade é que não há uma Sabreen al Janabi, a pessoa que alegava ser ela não é uma sunita e é muito improvável que tenha sido atacada. O vice-ministro do Interior para inteligência do Iraque, um curdo, apresentou documentos que alegam provar que a mulher que apareceu na Al Jazeera é uma xiita de vinte e tantos anos chamada Zaineb al Shimmeri, que é procurada pelas autoridades por ajudar grupos rebeldes e seqüestradores. O Ministério também revelou que ela é uma divorciada atualmente casada com dois homens - um dos quais está na prisão por atuar na insurreição.

O procedimento de coleta de evidência, o "kit estupro", ministrado em um hospital americano em Bagdá concluiu que não houve ataque. Também foi revelado que dos três oficiais acusados de estupro, pelo menos um é um árabe sunita.

E não termina aí. Segundo fontes do governo, um corpo recentemente foi encontrado no jardim de uma casa na qual Al Shimmeri costumava viver com seu marido detido, e uma ex-vítima de seqüestro se apresentou e a identificou como membro do grupo de seqüestradores.

Duas fontes confiáveis identificaram Al Shimmeri como tendo trabalhado nos anos 90 em um bordel dirigido por uma mulher chamada "Umm Liqa", na área de Qadisiyya de Bagdá, e outra fonte descreve Al Shimmeri como uma prostituta que trabalhou para uma mulher que certa vez salvou sua vida das forças de segurança de Saddam. O local de trabalho de Al Shimmeri atendia principalmente baathistas do segundo escalão, uma clientela turbulenta. Em 2000 ela foi considerada acabada e abriu um salão de cabeleireira.

Que bela isca da "honra sunita" que a Al Jazeera engoliu e que os grupos wahabistas supostamente vingaram com sangue. Se não fosse por todo o mal que o episódio causou, seria engraçado ver estes jihadistas e baathistas sunitas lutando juntos por uma prostituta xiita.

Os orquestradores desta farsa tinham metas mais específicas do que simplesmente inflamar o sectarismo e incitar homens sunitas a defenderem a honra de suas mulheres. Eles queriam sabotar o clima de esperança que acompanhava o novo plano de segurança de Bagdá, que foi eficaz em deter os esquadrões da morte e a limpeza sectária, apesar de menos eficiente em deter carros-bomba. E também precisavam conter os crescentes conflitos entre jihadistas. Os vários grupos rebeldes sunitas, como o ISI e o IAI, têm entrado em choque recentemente e a honra de Sabreen foi considerada uma causa ideal para unir suas fileiras.

O emir do IAI, por exemplo, deixou claro que a "farsa" contra "Sabreen" deve estimular todas as facções a deixarem de discutir sobre metas futuras e voltarem a "combater os apóstatas".

Se por um lado os 20 galantes rapazes de Janabi que se candidataram a se casarem com este modelo de virtude dúbia provavelmente terão que encontrar outras noivas, o caso pelo menos acrescentou outro termo ao léxico iraquiano: alguns xiitas de Bagdá, em um novo espírito de amor fraternal, estão superando a divisão sectária chamando os sunitas de "irmãos de Sabreen".

*Nibras Kazimi é um membro visitante do Instituto Hudson, em Washington George El Khouri Andolfato

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