Frente Nacional

Tim King

Durante muitos anos os editorialistas repetiram o mantra de que a Frente Nacional (FN) não passava de um minúsculo fenômeno neofascista. Mas, com o passar dos anos, o partido se recusou a desaparecer. Fundada em 1972, a FN é atualmente o partido de direita que sobrevive há mais tempo, e ele penetrou na mente francesa, mexendo em nervos profundos - sendo talvez esse o motivo pelo qual gera tamanha animosidade. Ele é a voz eleitoral confusa de uma parcela obstinada da vida francesa.

Guillaume Horcajuelo/EFE 
Jean-Marie Le Pen é habilidoso quando se trata de seduzir grupos específicos de eleitores

Na eleição presidencial de 2002, o líder da FN, Jean-Marie Le Pen, chocou a França e o mundo ao empurrar o socialista Lionel Jospin para um terceiro lugar. Ele acabou conquistando 18% dos votos em um segundo turno com Jacques Chirac.

Le Pen começou a atrair trabalhadores em quantidade significativa em 1995. Muitos operários da indústria pesada passaram a sentir que o Partido Socialista estava abandonando-os para dar prioridade aos problemas dos professores, dos advogados e dos médicos. De maneira similar, vários dos recentes recrutas da FN são ex-comunistas, igualmente desiludidos com a extrema esquerda. Enquanto isso, muita gente na França rural está votando em Le Pen por não acreditar na centro-direita quando se trata de proteger essa parcela da população contra a "Europa". Outros votam em Le Pen devido à velha crença populista de que todos os principais partidos são uma coisa só - e daí se origina o mais popular slogan da FN: "Nem direita, nem esquerda, mas a França!".

Além disso, Le Pen é habilidoso quando se trata de seduzir grupos específicos de eleitores. Por exemplo, entusiasmados com as colocações antijudaicas de Le Pen, alguns árabes acreditam que este os representa. Em abril de 2002, alguns judeus votaram em Le Pen porque viram nele a melhor maneira de conter a influência do islamismo na França. Mas um fator imutável é o fato de a maioria dos eleitores de Le Pen pertencer ao sexo masculino. Se do primeiro turno da eleição presidencial de 2002 tivessem participado apenas os homens, Le Pen teria vencido com uma vantagem bastante confortável. E se somente as mulheres tivessem votado, ele teria ficado em terceiro lugar.

O eleitor francês, assim como outros da Europa, parece estar se deslocando de alguma forma para mais perto do pensamento da FN. Um relatório de 2005 da Comissão Consultiva Nacional de Direitos Humanos revelou que o número de pessoas que acham que há estrangeiros demais na França subiu de 38% para 56% em apenas um ano. E o número dos que disseram que os imigrantes são uma fonte de riqueza cultural caiu de 74% para 62%.

Enquanto isso, a FN está tentando suavizar e moderar a sua imagem sem deixar cortejar aqueles indivíduos que sentem que são os derrotados da França moderna. É Marine Le Pen, filha de Jean-Marie (e sua gerente de campanha) que, juntamente com o secretário-geral Louis Aliot, está liderando essa reforma.

"Até recentemente, quatro pilares sustentavam o edifício nacional: a família, a escola, a religião e o exército. Desde 1968, a revolução silenciosa da anarquia e da globalização destruiu esses pilares. A família tradicional está desaparecendo", alerta o programa da FN. A frente se propõe a oferecer a mães (ou pais) um "salário parental", o salário mínimo, durante três anos para que os genitores tomem conta dos filhos. Esses pais contariam com os mesmos benefícios da previdência social e direitos de pensão dos trabalhadores empregados.

"Queremos devolver à mulher a liberdade de não trabalhar", afirma Marine Le Pen. "A grande equação financeira francesa se baseia na existência de uma alta taxa de natalidade: o nosso sistema de pensões não pode sobreviver caso tenhamos cada vez menos filhos e vivamos por mais tempo. Para que haja confiança na família, é necessário haver proteção estatal". A população francesa já está, de fato, aumentando, devido ao atual apoio familiar generoso. Mas muita gente acredita que as mães não francesas são as responsáveis pela maior parte desse crescimento - uma crença que é encorajada pela FN.

As questões polêmicas relativas a raça, nacionalidade e imigração emergiram na campanha eleitoral em meados de março, quando o candidato favorito, Nicolas Sarkozy, anunciou inesperadamente que, caso seja eleito, criará um Ministério da Imigração e da Identidade Nacional. A idéia é chocante, até mesmo para a centro-direita. Para a maioria das pessoas o conceito de identidade nacional está intrinsecamente vinculado a nacionalismo e guerra. "Identidade republicana" é algo mais aceitável. Mas para Jean-Marie Le Pen, tudo diz respeito a ossadas: "A nacionalidade tem a ver com o local onde os pais do indivíduo estão sepultados. Acho que um estrangeiro que quer a nacionalidade francesa só começa a se tornar verdadeiramente francês quando os ossos dos seus pais se dissolvem no solo da França".

E como é que uma preferência nacional assim tão intensa afetará aqueles membros da União Européia que desejam viver na França? "Não há problema algum", afirma Marine Le Pen. "Para aquelas pessoas que contam com os recursos para tomar conta de si, não há dificuldade. Não somos xenófobos. O que nos preocupa é o fluxo de imigrantes de fora da Europa. Segundo o Ministério do Interior, somente 5% deles possuem contratos de trabalho. Com a nossa enorme dívida, não podemos arcar com essa situação".

A FN fez campanha contra a Constituição Européia, mas Jean-Marie Le Pen parece menos visceralmente hostil com relação à União Européia do que seria de se esperar. "Eu gostaria simplesmente de que a França tivesse na Europa o mesmo status que o Reino Unido", diz ele. "Uma moeda nacional, por exemplo, que nos propiciasse uma soberania razoável. Tem gente que diz que eu quero colocar muros nas fronteiras. De jeito nenhum. As fronteiras são filtros. Quero renegociar o Schengen (o tratado europeu de 1985) apenas porque a Europa nos disse suavemente: 'Acabem com as suas fronteiras, nós cuidaremos da sua segurança'. Bem, eles não fizeram tal coisa, e nem poderiam. Para mim, o patriotismo jamais substitui o dever de ser generoso para com a humanidade. Se vamos ajudar países pobres, então que isso seja feito por meio da educação, mas primeiro vamos reconstruir as bases para a nossa prosperidade".

Aos 78 anos de idade, Jean-Mariel Le Pen ainda é retratado como sendo a face inaceitável da França. Em 1986, um breve flerte com a representação proporcional deu à FN 35 cadeiras no parlamento, mas após dois anos, o país voltou a adotar a maioria simples, que, combinada com astutas alianças interpartidárias, acabou fazendo com que atualmente a FN não tenha nenhuma cadeira. Nas eleições parlamentares de 2002, o partido UDF de François Bayrou, o atual candidato centrista a presidente, obteve 4,9% dos votos e 29 cadeiras. Já a FN conquistou 11,3% dos votos, mas ficou sem cadeiras no parlamento.

Sob a direção de Jean-Marie Le Pen a FN jamais se tornará parte da direita mais normal, conforme desejava Bruno Megret quando desafiou Le Pen pelo controle do partido há quase dez anos. Apear de toda a nova imagem e das políticas de moderação veiculadas pelo partido, ele continua se vinculando demais à face sombria da história francesa. Quando a FN eleger um líder mais jovem - talvez Marine Le Pen ou Louis Aliot - ela poderá se aproximar mais do poder, apesar de - ou talvez devido ao fato de - ter sido ignorada solenemente pelos principais partidos e pela mídia. Mas, para o futuro próximo, o partido continuará sendo o intruso barulhento da política francesa.

*Tim King é escritor e mora na França UOL

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