A questão armênia

Maureen Freely*

Desde a sua criação, em 1923, a república da Turquia está engajada em uma guerra de palavras com os armênios que saíram do país. Estes insistem em dizer que aquilo que vitimou os armênios da Anatólia, em 1915, foi um genocídio. O Estado turco sempre se empenhou em repelir esta acusação, tanto no país quanto no exterior. Os seus aliados tradicionalmente concordaram em "não criar caso quanto a essa questão". E durante 82 anos a intelligentsia turca fez o mesmo.

Em fevereiro de 2005, o escritor e ganhador do Prêmio Nobel, Orhan Pamuk, rompeu com este tabu. A campanha de ódio da qual ele foi vítima foi amplamente divulgada, tanto na Turquia quanto no exterior, assim como a perseguição que sofreu por insultar o "caráter turco". Na imprensa nacionalista do seu próprio país ele foi rotulado de traidor. No Ocidente, foi tido como uma voz solitária, e é desta forma que a maioria das pessoas continua a enxergá-lo.

Mas Pamuk não está só. A questão armênia também está sendo discutida abertamente, em especial pelos integrantes da burguesia urbana, tipicamente turcos muçulmanos, com a sua complexa rede de históricos familiares que são um legado do multiculturalismo otomano.

Em 2005, uma série de reformas promovidas pela União Européia conferiu à Turquia uma nova e democrática face. Uma renascença cultural estava a caminho. As ruas de Istambul estavam repletas de música grega, curda e armênia, e as livrarias cheias de memórias que, embora gentilmente, contradiziam a versão oficial do "caráter turco".

Nesse contesto, o sociólogo e ativista Muge Gocek se juntou as seus colegas e antigos colegas de universidade para organizar uma conferência, a primeira na história da Turquia a permitir que acadêmicos turcos realizassem uma pesquisa séria sobre o genocídio em língua e em solo turcos. Houve forte reação da imprensa de direita, e o ministro da Justiça acusou os organizadores da conferência de "esfaquearem o país pelas costas". Após muitas tentativas de cancelá-la, a conferência prosseguiu, e para os 700 participantes ela foi não apenas um grito pela verdade, mas também pela reconciliação.

No entanto, para o ultra-nacionalista Kemal Kerincsiz, líder do Sindicato dos Advogados Turcos, o evento foi uma traição. Jamais saberemos se Kerincsiz agiu sozinho ou se contou com a proteção de elementos ultranacionalistas do Estado, mas sabemos com certeza que ele deu início a grande parte da perseguição impiedosa movida contra intelectuais do país por insultarem o "caráter turco", os órgãos de Estado ou a memória de Ataturk, o fundador e primeiro presidente da Turquia.

Tendo participado de alguns desses julgamentos, posso afirmar que Kerincsiz e seus colegas usaram cada um desses tribunais como oportunidade para fazer propaganda da linha ultranacionalista em horário nobre de televisão. Vários dos seus alvos - o ativista dos direitos humanos Murat Belge, o escritor Elif Shafak e o jornalista turco-armênio Hrant Dink - foram palestrantes na conferência armênia.

Desde 2005, de acordo com algumas fontes, houve 172 processos movidos de acordo com o infame artigo 301 (que trata dos insultos ao "caráter turco") e leis correlatas. No início, era difícil para os observadores ocidentais enxergar a gravidade desses julgamentos, já que a maioria dos réus foi absolvida ou então os seus casos foram arquivados devido a questões técnicas. Mas a minha percepção era de que estávamos presenciando o primeiro estágio de uma estratégia maior. Depois que proeminentes intelectuais turcos foram publicamente identificados, acusados de traição e alvos de ameaças de morte, nos disseram que coisas piores estavam por vir.

E foi de fato o que aconteceu. Quando Hrant Dink foi assassinado em frente ao seu escritório, em janeiro, o povo de Istambul saiu às ruas em quantidades sem precedentes. Cem mil pessoas compareceram ao funeral do jornalista, vários deles carregando cartazes com os dizeres: "Somos todos Hrant. Somos todos armênios". Uma contra-ofensiva se seguiu, com passeatas nacionalistas e palavras de ordem declarando, "Somos todos turcos", além de outras que diziam que quem não fosse turco deveria ser "neutralizado".

No momento os ultranacionalistas carecem de uma base eleitoral: o Partido da Ação Nacionalista (MHP) não conta com um único deputado na Assembléia Nacional.

Mas este quadro pode mudar quando a Turquia for às urnas no próximo outono, já que a campanha contínua na imprensa contra os traidores que "venderam o país para a Europa para auferirem benefícios pessoais" surtiu efeito. Uma recente pesquisa de opinião revelou que 81% da população desaprova os democratas que saíram às ruas após o assassinato de Hrant Dink.

Depois que um homem preso durante as investigações do assassinato usou as câmeras de televisão em frente ao tribunal para aconselhar a Pamuk que "fosse esperto", o autor laureado decidiu deixar o país. Embora pretenda voltar, pode não ser seguro para ele fazer tal coisa tão cedo: a maioria dos outros indiciados segundo o artigo 301 continua sob vigilância policial. E mesmo aqueles que vivem no exterior não estão livres de assédios ou coisas piores. O acadêmico turco Taner Akcam foi seguidamente assediado durante a turnê pública nos Estados Unidos para o lançamento do seu livro recente sobre os acontecimentos de 1915, "A Shameful Act" ("Um Ato Vergonhoso"), e ficou detido quatro horas e meia em um aeroporto em Montreal.

Um pequeno grupo de colunistas - alguns deles com fortes vínculos com o establishment - está solicitando que a Turquia pare de lutar contra a resolução sobre o genocídio que os membros da diáspora armênia introduziram na legislatura dos Estados Unidos. Outros estão pedindo a abertura da fronteira da Turquia com a Armênia. Várias centenas de escritores participam de uma campanha coordenada de desobediência civil, na qual grupos se apresentam aos promotores, repetem as declarações pelas quais Dink foi julgado e pedem para também serem alvo de julgamento. Muitos escolheram escrever para o "Agos", o jornal turco-armênio editado por Dink. Embora a sua principal platéia seja composta pelos 70 mil armênios da Turquia, o jornal é atualmente o centro simbólico do movimento pela democracia na Turquia.

No Ocidente, Dink ficou conhecido principalmente como ativista defensor dos direitos dos armênios. Na Turquia, ele é aclamado como defensor de todas as minorias reprimidas, muçulmanas ou não. Nos próximos meses, podemos esperar que o movimento pró-democracia continue realizando o seu trabalho. E também podemos aguardar os contra-ataques dos ultra-nacionalistas. As ameaças de morte continuarão. Aqueles sob a guarda policial continuarão a refletir sobre até que ponto podem confiar nos seus protetores. Haverá mais boatos e mais assassinatos. À medida que o problema curdo se agrava, podemos esperar que mais democratas sejam denunciados como radicais e terroristas, sendo talvez até indiciados segundo a recém-fortalecida lei turca anti-terrorismo.

Estes são tempos assustadores - especialmente para aqueles de nós que se recordam de como o exército marchou para esmagar a intelligentsia após os golpes de 1971 e 1980. Mas estes democratas não são ingênuos. Eles sabem como é uma cela de prisão. Os seus princípios foram postos à prova pelo cassetete elétrico. Eles compreendem o jogo. Assim, a história não terminou. Apesar da ascensão do ultra-nacionalismo, ainda existe esperança.

*O mais recente romance de Maureen Freely, "Enlightenment" ("Iluminação") foi publicado pela Editora Marion Boyars. UOL

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