Mundos virtuais e segundas vidas

Victor Keegan

Imagine que você está assistindo um filme na televisão - somente que, em vez de atores, há uma representação tridimensional sua, cujos movimentos você pode controlar usando seu teclado. Você pode caminhar - ou voar - e fazer compras, ouvir música, participar de reuniões políticas, tomar aulas na universidade, abrir uma empresa ou visitar uma casa de strip-tease. Você pode começar a construir casas ou objetos sozinho, manipulando blocos de construção básicos de várias formas. E, mais importante, você pode falar, passear, flertar ou brigar com os outros moradores. Tudo isso é possível na Second Life, o fenômeno que poderá dar à Internet uma nova direção.

A Second Life não é um jogo: é o que diz o nome - uma segunda vida, correndo paralela e sobrepondo-se a sua "primeira" vida. Se você simplesmente quiser explorar o mundo da Second Life, não é preciso pagar para adquirir uma identidade (um "avatar", que pode ou não ter sua aparência física). Mas se quiser construir dentro daquele mundo, terá que pagar uma tarifa mensal à Linden Lab - que criou e mantém o Second Life de sua base em San Francisco - além do custo inicial do terreno. O Second Life tem economia e moeda próprias, o dólar Linden, cujo câmbio é em torno de L$ 243 por US$1.

Apesar de minha primeira compra de 512 metros quadrados ter sido barata, como parte do contrato de inscrição, os custos subseqüentes me custaram em torno de L$ 10.000 (cerca de US$ 40, ou R$ 80). Depois, eu precisava de um lugar para morar. Poderia ter construído uma casa desde o início, usando tijolos (cubos, esferas etc), mas decidi comprar uma casa pronta, por cerca de L$ 500, de uma imobiliária montada para isso. Depois de clicar no botão "compre", a casa foi enviada automaticamente para meu inventário na Second Life, de onde a arrastei com meu cursor para o terreno que tinha comprado.

Subitamente, uma casa tri-dimensional surgiu. Eu pude explorar seu interior, ou sentar lá dentro. Depois de uma visita aos inúmeros shoppings da Second Life, comprei uma cascata para meu pátio. Como são bens "virtuais", ou seja, são feitos de códigos de computador, o número de cascatas é teoricamente ilimitado e não custa nada para produzir novas cópias.

Animado com o modesto sucesso de minha casa e jardim, decidi montar uma galeria de arte como plataforma para as obras geradas dentro da Second Life (diferentemente das fotografias de arte importadas do mundo real, que é a coisa mais comum nas galerias do Second Life). Sem ter a menor idéia de como fazer isso, aproximei-me de uma vizinha que dirige uma galeria que vende versões de sua própria arte e de seus amigos (da vida real). Ela -ao menos eu presumo que era do sexo feminino- disse que eu poderia comprar uma pronta, mas seria mais fácil se ela construísse uma para mim. Como insistiu, eu disse a ela que gostaria de uma construção vagamente modernista, de dois andares.

Quando acordei, na manhã seguinte, descobri que minha vizinha (que mora na Austrália) tinha terminado a galeria e, no dia seguinte, um jardim adornado com fontes tinha sido acrescentado.

Tudo isso reflete a cultura de apoio mútuo que caracteriza os membros fundadores, que por sua vez lembra o ambiente da Web antes de sua colonização pelo comércio. A comercialização também está acontecendo na Second Life, enquanto empresas como IBM e American Apparel estabelecem suas marcas, caso a Second Life vire algo grande. Mas o site ainda é um paraíso virtual para conteúdo gerado pelo usuário: quase tudo ali foi construído pelos moradores.

Apesar de estar na infância - com cerca de 5 milhões de residentes, comparados com a rede social do MySpace, de 150 milhões de usuários - a Second Life está crescendo rapidamente. Em julho último, tinha apenas 330.000 residentes. Também se tornou uma economia significativa por si própria. Cerca de US$ 2 milhões (ou R$ 4 milhões) de dinheiro real são trocados por dia, e seu produto interno bruto foi recentemente estimado em torno de US$ 220 milhões (R$ 440 milhões) - e provavelmente já ultrapassou isso.

Moradores "prêmio", que pagam US$ 9,95 (em torno de R$ 20) por mês por uma conta, ganham uma semanada (atualmente L$ 300). Mas todo mundo pode comprar dólares Linden em troca de moeda do mundo real, ou ganhar dólares Linden vendendo terra, serviços ou bens, assim como mesas ou helicópteros para outros moradores. Em fevereiro, cerca de 113.000 pessoas gastaram até L$ 500, e 571 mais de L$ 1 milhão.

Entretanto, a Second Life não é uma utopia. O ambiente liberal do lugar está sendo testado pelas atividades de grupos como o Exército da Liberação da Segunda Vida, que detona bombas atômicas virtuais na porta das lojas dirigidas pela American Apparel e Reebok, em protesto contra a colonização da Second Life por grandes corporações. Sorrio quando um cavaleiro entra a cavalo na minha galeria, mas fico um pouco preocupado com um cara em uniforme quase militar que ocasionalmente anda na frente de minha porta sacudindo uma metralhadora. Não é que ele (ou ela?) possa me fazer nenhum mal - o que me preocupa é a motivação misteriosa da pessoa por trás do avatar.

Quando eu acidentalmente construí um muro na propriedade de um vizinho, nós acertamos amigavelmente. As pessoas, entretanto, ficam tão agitadas na Second Life quanto nas vidas normais sobre seus direitos de propriedade ou sobre quem está se mudando para a casa ao lado. Um avatar, Prokofy Neva, que comprou uma boa casa na praia, alegou que sua vista foi arruinada quando alguém construiu um gigante refrigerador bloqueando sua vista.

Na área em que eu moro ninguém pensou em construir uma rua. Tal cooperação cívica não parece estar na mente de ninguém (apesar de haver muitas ruas em comunidades construídas com um propósito, como shopping centers ou desenvolvimentos corporativos, e planos de construção uma estrada de ferro cortando a Second Life). O resultado é um pouco como o Wild West, com casas, bares, galerias e lojas nascendo em toda parte. Muitos residentes colocam uma tranca eletrônica sobre suas propriedades, o que algumas vezes torna impossível uma simples caminhada. Felizmente, na Second Life você também pode voar (apesar de não sobre propriedades protegidas), ou se teletransportar instantaneamente para qualquer lugar onde você queira ir.

Nada surpreendentemente, os pontos mais populares na Second Life são associados com sexo e jogo. Essas áreas frequentemente alcançam o número máximo de avatares que podem ser acomodados em um único servidor, e têm que colocar avisos de "casa cheia". O distrito da luz vermelha reflete, na maior parte, a vida real, com dançarinas, massagens virtuais e sexo simulado entre avatares em quartos de hotéis de luxo.

Há um debate vivo sobre o tamanho da Second Life. Alguns argumentam que a maioria dos 5 milhões de usuários inscritos fizeram uma experiência e saíram depois de um mês, deixando para trás avatares redundantes ainda contabilizados nas estatísticas.

A Second Life atualmente é uma experiência de consumo, com pessoas gastando dinheiro em roupas, mobílias e terras. Algumas corporações estão vendendo bens virtuais, como sapatos ou carros, e alguns bens verdadeiros, mas tais atividades são geralmente consideradas apenas como ensaios, em caso dos mundos virtuais realmente decolarem.

A Second Life oferece a possibilidade de criação de redes sociais, como MySpace, Facebook ou Bebo, com espaços tridimensionais para encontrar amigos ou sair juntos.

O potencial para a educação também é imenso. Dezenas de universidades já se estabeleceram na Second Life, como fizeram instituições de pesquisa e corpos como o Laboratório Nacional de Física do Reino Unido, que está envolvido em projeto para promover a nanotecnologia e um satélite de observação da Terra.

Os próprios tutoriais do Linden Lab revelam o potencial para o aprendizado à distância, que poderia abrir novas avenidas para a Universidade Aberta. Se essas fontes potenciais de crescimento, prazer, educação e comércio decolarem juntas, então a distinção entre os mundos virtual e real vão se tornar tão vagas que desaparecerão.

Victor Keegan é colunista do jornal britânico "The Guardian" Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos