Uma capital do capital

Simon Parker e David Goodhart*

Dentro de poucos anos, a cidade de Londres deverá recuperar o seu papel histórico de capital financeira do mundo, relegando uma traumatizada Nova York pós-11 de setembro para o segundo lugar.

A Londres de 2007 é praticamente irreconhecível em relação àquela da qual o seu prefeito atual, Ken Livingstone, havia sido ejetado em 1986, quando o antigo Greater London Council (GLC - literalmente Conselho Superior de Londres) fora abolido por Margaret Thatcher. Na época, ele estava no comando de uma cidade em declínio. A indústria havia se mudado e a população estava decaindo. De um ponto de vista mais geral, ninguém gostava das cidades. Os futurólogos anunciavam um mundo no qual a maioria trabalharia em casa, assim como a expansão da "cidade periférica".

De fato, a abolição do GLC coincidiu com o fim do declínio de Londres. Na época, isso não apareceu claramente, mas o governo Thatcher estava implantando as fundações de uma nova Londres. Ele estava transformando a economia britânica numa das mais abertas e menos regulamentadas do mundo, acelerando a atividade como um todo, desde a indústria até os serviços. Os serviços financeiros e empresariais, além do turismo, das artes e da aviação civil, se transformariam no futuro da Grã-Bretanha - sendo todos eles centrados em Londres. Os desdobramentos econômicos globais consolidaram a posição de Londres, tanto na Grã-Bretanha quanto internacionalmente. A mobilidade crescente do capital e do trabalho tornou mais difícil para os governos gerenciarem a atividade econômica fora da metrópole.

Além do mais, Londres apresentava vantagens significativas. Era a capital de um país dotado de um governo relativamente bom, de encargos fiscais moderados e de um sistema legal forte. O seu fuso horário se justapunha tanto com o dos países asiáticos (de manhã) quanto com o de Nova York e Toronto (na parte da tarde). Falava-se inglês. A Cidade de Londres como corporação atuava como um líder da torcida em contato estreito com as suas indústrias locais. O resultado disso é que Londres agora é líder mundial de um bom número de setores financeiros, inclusive do câmbio exterior, dos mercados financeiros derivados (que fornecem contratos padrões para as transações com ações, dos seguros e das ações internacionais). A cidade emprega diretamente cerca de 300.000 pessoas no setor dos serviços financeiros, as quais recebem um salário médio de mais de US$ 180.000 (cerca de R$ 360.000) por ano.

A chegada do governo Blair em 1997 em nada prejudicou o vigor de Londres. De fato, ele promoveu várias mudanças que ajudariam Londres mais adiante. Uma delas foi a criação da Greater London Authority (GLA - Autoridade Superior de Londres) e outra foi a instalação da sede da prefeitura de Londres, o que permitiu a Ken Livingstone, o londrino do sul de voz nasalada, ressurgir em 2000 como o patrão socialista de uma cidade Estado hipercapitalista. Durante os 15 anos precedentes, a governança de Londres havia conseguido progredir, apesar de lidar com uma confusa colcha de retalhos de organizações quase não-governamentais e de acordos entre circunscrições de Londres. A GLA destinava-se a proporcionar uma perspectiva mais estratégica para a sua gestão.

Uma outra mudança benéfica, promovida a partir de 1997 foi o abrandamento das regras britânicas de imigração, que deu início a um período de forte crescimento do saldo líquido da imigração na capital. De 1997 a 2006, cada ano trouxe um afluxo líquido de 100.000 estrangeiros para Londres, ao qual deve ser acrescentado o crescimento natural da população (mais nascimentos do que mortes) de 50.000 para 75.000 anualmente.

Esses aumentos são em parte compensados por um fluxo anual de cerca de 80.000, rumo às outras regiões da Grã-Bretanha - se excluirmos o processo migratório desta análise, a população da capital, segundo algumas estimativas, teria diminuído de cerca de 600.000 entre 1993 e 2000. O efeito direto deste encolhimento populacional é que a população de Londres (7,5 milhões) inclui uma proporção aproximada de 35% de pessoas nascidas no exterior, uma estatística que está evoluindo rapidamente rumo aos 50%.

A contribuição decisiva do New Labor (o Partido Trabalhista) para o caráter globalmente atraente de Londres tem sido a questão mais difícil de medir, no quadro do prosseguimento dado a uma cultura política tolerante e favorável ao princípio do "viva e deixe viver". Para os nômades do mundo, sejam eles ricos ou pobres, Londres é uma metrópole onde é possível instalar-se facilmente e beneficiar de uma aceitação anônima (enquanto a regra fiscal britânica conhecida como dos "não-domiciliados" permite a muita gente rica evitar pagar o imposto de renda sobre lucros obtidos no exterior).

A bazófia da Londres rica raramente esteve mais segura de si, e as suas salas de leilões, suas agências imobiliárias, seus restaurantes cotados com estrelas no Guia Michelin e suas instituições de alta cultura são florescentes. Existem 108.000 pessoas em Londres que ganham mais de US$ 200.000 (cerca de R$ 400.000) por ano. Ora, proporcionalmente ao tamanho da sua população, isso corresponde a mais do dobro dos dados registrados em nível nacional. E ainda existem 38.000 cidadãos que ganham mais de US$ 400.000 - ou seja, mais de um terço do total nacional. Até mesmo os salários anuais médios em Londres são muito mais elevados que no restante do país: mais ou menos US$ 75.000 (R$ 150.000), a comparar com os cerca de US$ 49.000 (R$ 98.000) na Grã-Bretanha como um todo.

O crescimento econômico de Londres escorou-se numa simples permuta: ao longo dos últimos 30 anos, 600.000 empregos na indústria foram perdidos e 600.000 postos nos setores dos serviços financeiros e de negócios foram criados. Este último setor foi responsável por 65% do crescimento do número de empregos em Londres desde os anos 1970, e em breve ele estará mais perto de 80%.

Quando Ken Livingstone retornou à sua função de prefeito de Londres, em 2000, ele havia mudado tanto quanto a cidade. Ele ainda se considera um socialista, mas reconhece que a realidade da globalização liberal e os seus próprios poderes, limitados, transformaram por completo os termos do debate sobre Londres. Atualmente, os principais poderes do prefeito e da Greater London Authority consistem em rejeitar projetos de grande alcance oferecidos para planejamento e em ter competência para determinar despesas e investimentos no âmbito das principais formas de transporte público.

Além disso, eles têm poderes sobre a reforma da cidade, a cultura e o meio-ambiente, assim como o controle orçamentário sobre a polícia, os corpos de bombeiros, os transportes e a Agência de Desenvolvimento de Londres. A prefeitura arrecada apenas cerca de US$ 1,6 bilhão (R$ 3,2 bilhões) por ano dos impostos locais para o seu próprio orçamento, ou seja, menos de 10% dos cerca de US$ 20 bilhões gastos pela GLA com serviços em Londres. O prefeito é também é o lobista e o estrategista em chefe de Londres.

Livingstone gostaria de poder intervir no sentido de redistribuir a riqueza e impor uma taxa sobre transações financeiras. Mas, como ele sabe que isso não é possível, ele busca implementar no lugar um programa pragmático de reformas menores. O "novo" Ken também chegou a adotar reviravoltas surpreendentes. O homem que fora aos tribunais nos anos 1980 para defender o seu direito de subsidiar as passagens do Metrô está cobrando agora uma das tarifas as mais elevadas do mundo desenvolvido. O novo Ken se mostra também mais amigável com os empreiteiros do que se poderia prever. É claro, ele conta com eles para realizar muitos dos seus objetivos sociais. Se você quiser construir um novo complexo de escritórios, terá que fazer alguma doação em benefício de algum projeto social, ou para uma biblioteca.

Os dois mandatos de prefeito de Livingstone desde 2000 têm-se caracterizado menos por políticas radicais do que pelo seu empenho em ajudar Londres a gerenciar o seu status de cidade global. Conforme ele mesmo diz: "Trata-se de trabalhar junto com as forças mais progressivas do capitalismo e do governo... de modo a fazer desta cidade um lugar globalmente mais feliz de se viver".

Para o prefeito de Londres, a globalização traz como bonificação extra uma crescente diversidade étnica - algo que ele tem celebrados desde os dias em que ele era vereador de Lambeth, no coração negro de Londres. Ele valorizou fortemente a mistura étnica da cidade durante a campanha para conquistar os Jogos Olímpicos de 2012, apresentando um filme sentimental que mostrava as crianças de muitas raças diferentes que vivem em Londres.

Enquanto Londres vai se adaptando ao seu novo status de cidade global, dúvidas permanecem em relação à qualidade de vida que ela pode oferecer à maioria dos seus habitantes. O crescimento de Londres já está dando origem ao surgimento de severas desigualdades. Os novos empregos que estão sendo criados tendem a estar no extremo topo e no piso da escala dos salários. Apesar de toda a riqueza gerada na cidade, Londres apresenta um dos mais elevados níveis de pobreza do país, assim como a taxa de desemprego a mais importante, situada acima dos 7%. De 2002 a 2005, 52% das crianças do município de Londres viviam abaixo do limite de pobreza.

Modos de vida tradicionais da cidade estão sendo destruídos pela reestruturação da economia e pela chegada de novos imigrantes. Muitos são os londrinos de longa data que se revelam incapazes de tirar vantagem das oportunidades que a cidade passou a oferecer, e que ficam ressentidos ao verem recém-chegados se dando bem. O mais óbvio dos sintomas de estresse social é o crescimento do apoio dado aos extremistas políticos em Londres, um desafio para a visão cor-de-rosa de Livingstone de uma cidade alegremente multicultural e livre de toda segregação.

Para o restante da Grã-Bretanha, Londres pode parecer um ferrabrás arrogante que vem devorando uma parte crescente da economia e se transformando num lugar que é completamente diferente do resto do país. Mas, apesar dos ressentimentos regionais diante do sucesso da capital, os líderes políticos das cidades do norte sabem que Londres proporciona o volume de impostos de renda suficiente para permitir níveis escandinavos de despesas públicas no restante do país - enquanto os londrinos representam 12,5% da população da Grã-Bretanha, eles contribuem com 19% dos seus impostos.

Ainda assim, segundo concluiu um estudo dos dados levantados pelo censo de 2001: "O país está sendo dividido em dois. No sul, predomina a metrópole da Grande Londres, ao passo que no norte e no oeste se estende o 'arquipélago das províncias' - ilhas de cidades que se caracterizam por estarem afundando lentamente, nos planos demográfico, social e econômico".

É difícil avaliar os efeitos que as mudanças dos últimos anos exercerão sobre a cidade num prazo mais longo. De que maneira o excesso de população e as tensões sociais conseguirão coexistir com as sua riqueza e sua criatividade? Londres sobreviveu ao declínio de mais de um século da Grã-Bretanha e conseguiu garantir para si um papel de cidade Estado semi-independente. Mas o que dizer do preço a ser pago para tornar-se uma cidade global? Será que ele se revelará elevado demais para aqueles que vivem de fato nesta capital?

*Simon Parker é o diretor de pesquisas sobre serviços públicos na Demos, um centro de análises e reflexão baseado em Londres. David Goodhart é o editor da "Prospect Magazine" Enquanto Londres vai se adaptando ao seu novo status de cidade global, dúvidas permanecem em relação à qualidade de vida que ela pode oferecer aos seus habitantes Jean-Yves de Neufville

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