A última luta de Mugabe

Stephen Chan*

Não há dúvida de que Robert Mugabe, o elegante presidente zimbabuano de 83 anos de idade, é um lutador. Ele lutou a vida toda, muitas vezes contra adversidades tremendas. Agora ele imagina estar enfrentando a maior batalha da sua vida, e imagina que vencerá.

O nível de caos em Zimbábue é o mais estável que o país é capaz de atingir, mas Mugabe não deseja apenas sobreviver politicamente. Ele quer também completar o seu processo de nacionalização - do Estado e da terra - e defender aquilo que fez contra todos os contendores. Ele não é louco, mas sim um fanático. Mugabe é o mais intelectualizado dos presidentes africanos, mas não é um tecnocrata. Ele é o filósofo que perdeu o rumo como rei - Nietzsche sentado no entulho de Harare.

E ele não é um fazendeiro. As suas mãos são muito macias. Elas não seguram uma enxada há décadas. Para Mugabe, a terra é uma necessidade ideológica, mas o seu cultivo é apenas uma fantasia. Ele não faz idéia do processo que estava colocando em andamento quando, finalmente e abruptamente, se mobilizou para confiscar as fazendas. Um pouco, talvez, como os Estados Unidos entrando em Bagdá, esperando que a população se regozijasse com uma democracia espontânea.

Mas as fazendas eram a espinha dorsal da economia do país. O resultado, sete anos depois, é uma inflação de quase 2.000%, com a possibilidade de chegar a 4.000% ou 5.000% até o final do ano. Mugabe percebe a paciência fleumática dos seus cidadãos, acha que as manifestações lideradas pelos oposicionistas são uma aberração - e procura esmagá-los de acordo com esse ponto de vista. Mas, por debaixo dos panos, os seus próprios, e anteriormente próximos, assessores alimentaram dúvidas durante os últimos dois anos e, agora, procurando garantir os seus próprios futuros, estão pensando no fim do governante.

E o mais ameaçador para Mugabe é o fato de os presidentes africanos que ele liderou intelectualmente manterem agora um contato próximo com exatamente aqueles ex-assessores, e também com os líderes dos dois partidos de oposição. Por que isso demorou tanto a acontecer? Em parte devido à liderança intelectual de Mugabe. Na África existe um grande desejo de se ser autônomo em pensamento, assim como em ações. Existe até mesmo um chauvinismo, quase uma autarquia, na imagem de uma África sem o Ocidente - ainda que isso signifique uma África em processo de transição, que acabará tendo a China no lugar do Ocidente.

O presidente sul-africano Thabo Mbeki publicou artigos elogiando o escritor queniano Ngugi wa Thiong'o e o seu apelo pela "descolonização" da mente - a fim de que se afirme a própria linguagem, o próprio pensamento, a própria terra e o próprio destino. Essas idéias são compartilhadas por Mugabe, pelos seus ex-assessores e pela oposição. Existe ainda um projeto de descolonização.

Mas no caso de Mugabe esse projeto sofreu um descarrilamento terrível. No início foi principalmente a África do Sul que absorveu o tranco. Agora os outros presidentes do sul da África percebem o impacto do colapso do Zimbábue nas suas próprias economias. Durante dois anos, o presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo, se recusou a manter qualquer vínculo com Mugabe. Atualmente, até mesmo a "maioria silenciosa" de presidentes está pronta a entrar na briga zimbabuana.

De certa forma eles sentiram que não tinham escolha, a não ser esperar. Nenhum deles ficou impressionado com a capacidade da oposição de formar um governo alternativo. O momento da mudança foi aquele no qual os ex-aliados de Mugabe abandonaram a causa do presidente. E quem são esses ex-aliados?

Existem dois campos fundamentais. O primeiro é liderado por Solomon e Joyce Mujuru, o marido e a mulher heróis da luta pela libertação. Joyce Mujuru é a vice-presidente que, usando o seu nome de guerra Teurai Ropa (Derramar Sangue), derrubou uma aeronave de combate rodesiana e liderou ataques quando estava grávida de vários meses. O seu marido foi o comandante das tropas de libertação. Existe uma alquimia curiosa entre marido e mulher - eles são rivais políticos bem como aliados - mas contam com uma grande lealdade residual dentro das forças armadas. Por ora, eles se aliaram a Didymus Mutasa, o chefe da polícia secreta, o que significa que contam com poder de coerção.

O segundo campo é liderado por Emerson Mnangagwa, que também conta com lealdades dentro do aparato de defesa e da polícia secreta. Essas pessoas não são figuras agradáveis. Não é que eles não contem já com apoio suficiente para persuadir Mugabe a renunciar; eles simplesmente não conseguem chegar a um acordo quanto quem seria o próximo presidente.

Muita coisa vai depender de qual campo o ex-ministro das Finanças de Mugabe, Simba Makoni, escolherá. O Ocidente enxerga nele um legítimo e relativamente imaculado tecnocrata. Essa também é a opinião dos sul-africanos. Mas os sul-africanos e os zambianos gostariam também de ver o líder do maior partido da oposição, Morgan Tsvangirai, incorporado a um "governo de unidade" pós-Mugabe. Para Mbeki, que agora começa a se ver emaranhado nas suas próprias lutas pela sucessão, o jogo de xadrez se resume exclusivamente no alinhamento dessas peças. E Mbeki gostaria de persuadir Mugabe a renunciar, em vez de esperar que alguns dos ex-amigos do presidente zimbabuano colocasse uma arma na sua cabeça.

O comitê central do partido Zanu-PF, de Mugabe, atendeu ao seu desejo de disputar as eleições presidenciais de 2008, para um mandato de cinco anos. Até lá ele terá 89 anos de idade. O externamente saudável Mugabe já é um grande consumidor de produtos da medicina tradicional e alternativa fabricados no Ocidente e na Sérvia. Eles parecem funcionar. Há o boato de que ele arrumou uma nova amante, bastante jovem. Mas a questão não é saber se ele viverá o suficiente para concluir o mandato. A questão é se o Zimbábue será capaz de sobreviver nesta situação em que se encontra no decorrer dos próximos meses.

Em Pretória circula o boato de que em agosto próximo, se tudo o mais falhar, os sul-africanos cancelarão alguns auxílios econômicos fundamentais. Esse será o sinal para que os ex-amigos de Mugabe entrem em ação. Isso dá a Pretória a maior parte do verão para montar a sua coalizão preferida. Na verdade, o governo pós-Mugabe será escolhido de uma forma tão pouco democrática quanto Mugabe se elegeu.

*Stephen Chan é professor de relações internacionais da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres

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