Ian Paisley, o grande sobrevivente

Mick Fealty

Ian Paisley foi a afigura mais divisora na política unionista da Irlanda do Norte, nos últimos 40 anos. Ainda assim, no final de março, o "Dr. Não" concordou em por fim a um conflito que levou quase 3.700 vidas e manchou a vida britânica e irlandesa por duas gerações. No dia 8 de maio, o reverendo de 81 anos tornar-se-á o primeiro ministro de um novo executivo compartilhado da Irlanda do Norte.

Ressaltando a coreografia política trabalhosa por trás do acordo final, os detalhes da fotografia comemorativa exigiram várias horas de trabalho de inúmeros servidores para que ficasse a contento tanto do Partido Unionista Democrático de Paisley quanto do Sinn Fein. Uma semana depois, Paisley estava em Dublin, apertando calorosamente a mão do primeiro-ministro irlandês, Bertie Ahern.

Foi tudo muito diferente do início dos anos 60, quando Paisley -sempre uma presença impressionante, com 1m87, voz poderosa e boa aparência- estava surgindo no cenário político. Naqueles tempos, a República da Irlanda ainda era introvertida e pobre, com uma renda per capita quase um terço abaixo da Irlanda do Norte. Naquela época, o Norte ainda era um posto avançado do Reino Unido, relativamente próspero, com sua maioria unionista protestante trabalhadora e sua minoria semi-excluída católica ainda em grande parte aquiescente.

A entrada de Paisley na política coincidiu com o início de uma épica batalha política sobre como o unionismo deveria responder aos pedidos de igualdade de status da minoria católica crescente e cada vez mais assertiva.

Pairou em torno de Paisley uma suspeita de envolvimento, ou ao menos estímulo à violência durante os "Troubles" (conflitos entre católicos e protestantes). Seu primeiro ato abertamente político, nas eleições gerais de 1964, foi ameaçar organizar uma marcha da prefeitura de Belfast até os escritórios do Partido Republicano em Falls Road, para remover uma tricolor irlandesa, na época proibida por lei. A ameaça provocou distúrbios que tiveram um papel crítico em politizar a juventude republicana local.

Dois anos depois, uma gangue até então desconhecida matou um barman católico chamado Peter Ward, na área protestante da rua Shyankill. Em um comunicado à imprensa, a gangue fez renascer o nome da antiga Força Voluntária Ulster (UVF). No entanto, a degradação para o homicídio e o caos tinha se iniciado várias semanas antes, quando morrera um caixa de loja católico não envolvido em política, no que parecia ser um acidente. A responsabilidade por sua morte foi assumida -apenas depois do funeral- por um "capitão William Johnston", que acrescentou que a guerra ao IRA agora estava declarada.

Embaraçosamente para Paisley, entre esses dois assassinatos ele homenageara o nome da antiga UVF em uma reunião lotada em Ulster Hall. Entretanto, quando o nome UVF foi publicamente associado ao assassinato de Ward, ele retirou seu apoio.

Os críticos de Paisley apontam para as evidências mais circunstanciais que, depois das eleições de novembro de 2003, quando o DUP finalmente conquistou a maioria clara do voto unionista, quase toda a violência paramilitar protestante cessou. Mas não há evidências de que Paisley teve um papel, direto um indireto, nas campanhas de assassinatos das organizações paramilitares fiéis.

Em todas as tentativas de pôr fim ao conflito, o governo britânico insistiu em duas coisas - o compartilhamento do poder e alguma forma de influência irlandesa - e excluiu duas coisas: a unificação irlandesa e a independência da Irlanda do Norte. Mais recentemente, o foco mudou para que o fim da violência do Exército Republicano Irlandês (IRA em inglês) fosse irreversível. Mas em cada uma das principais rodadas de negociação, algo ou alguém estava faltando.

Muitos acreditam que o acordo de Sunningdale - martelado no final de 1973 entre o Partido Unionista Ulster, o Partido Social Democrata e Trabalhista e Aliança da Irlanda do Norte - representou a melhor oportunidade de resolução. O acordo entronava o compartilhamento do poder e um conselho ministerial da Irlanda. Mas enquanto os partidos estavam reunidos em Berkshire, Paisley teve rédeas livres na mídia local e desenvolveu um papel crucial para minar o acordo resultante.

O acordo da Sexta-Feira Santa de abril de 1998 foi mais longe do que o primeiro. O Sinn Fein foi incluído no executivo e vários departamentos dos dois lados da fronteira foram incluídos. Paisley opôs-se ao acordo, explorando a dificuldade que o UUP de David Trimble enfrentava em tentar convencer o IRA a entregar suas armas, enquanto ao mesmo tempo assumia ministérios em Stormont.

Quatro anos depois, em 2002, o prédio caiu quando houve denúncias de que um círculo de espiões do IRA operava dentro do governo. E nas eleições de 2003, depois que Trimble fracassou em segurar um acordo com o Sinn Fein para garantir o desarmamento transparente do IRA, o DUP de Paisley somou 30 assentos aos 27 do UUP, tornando-o a principal força eleitoral pela primeira vez. Não só Paisley ficou na frente de Trimble, mas absorvera um grupo pequeno e imprevisível de partidos unionistas contra o acordo. Paisley agora podia se dizer líder incontestável da tribo protestante.

Paisley é o grande sobrevivente da política do Norte da Irlanda - uma figura significativa antes, durante e depois dos "Troubles"- e agora ele confundiu seus críticos concordando com uma coalizão com seus antigos inimigos no Sinn Fein. Aparentemente, ele está apenas terminando um acordo que Trimble fracassou em fechar. Mas por que demorou tanto? A Irlanda do Norte simplesmente tinha que esperar o ego gigantesco de Ian Paisley chegar ao topo da pilha política?

O contexto é tudo. Sunningdale ocorreu após uma guerra sectária terrível, que viu o maior número de baixas dos "Troubles". Apesar de grande parte do unionismo de classe média estar pronta para fechar um acordo naquele tempo, os protestantes da classe trabalhadora não. O acordo de 1998 veio depois de um período de relativa paz. E enquanto Sunningdale procurou cortar os dois extremos, este quis incluí-los.

O cenário econômico também importa. O Norte da Irlanda e, ainda mais, o resto da Irlanda mudaram. Paisley ainda é um homem de intensa fé evangélica. Mas seu papel de 1960 de defender empregos protestantes ou impedir o Norte de ser superado pelo que parecia um país de terceiro mundo na fronteira não se aplica mais. A perda da indústria pesada, a introdução de leis de emprego justo (desde 1976) e o crescimento de empregos do outro lado da fronteira com a expansão da República mudaram as regras.

A base de votos de Paisley saiu dos guetos da classe operária, ampliou-se e mudou; e o espaço de manobra política de Paisley cresceu junto com os interesses e a renda da classe média em expansão. Enquanto isso, os vizinhos do Sul, antes indolentes, assumiram traços reconhecivelmente protestantes (apesar de seculares) e agora estão mais ricos do que o Norte.

Esse acordo demorou muito para ser firmado, o que pode explicar porque a conclusão formal final foi recebida sem grande entusiasmo na província. E é possível, mas improvável, que ainda desmorone. Os radicais do DUP ainda podem hesitar diante da forma que os representantes do Sinn Fein dos dois lados da fronteira manipulam aspectos do acordo - Jim Allister, principal membro do DUP do Parlamento Europeu, já deixou o partido em protesto. Mas Paisley agora está comprometido demais para liderar uma revolta; de fato, se houver significativa discordância, é mais fácil imaginá-lo seguindo o curso de Ariel Sharon e estabelecendo um novo partido centrista, a partir do DUP e do UUP.

Paisley tem seu lugar na história e não vai deixá-lo escapar agora. Tendo batalhado por 30 anos para trazer a maioria do apoio unionista sob sua bandeira, e tendo encontrado no Sinn Fein um forte oponente capaz de garantir uma paz duradoura, o homem pragmático por baixo da caricatura pública está finalmente em posição de realizar seu último ato divisor benigno no cenário político da Irlanda do Norte.

*Mike Fealty é pesquisador visitante da Universidade de Queen's, em Belfast Deborah Weinberg

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