Plutão, o planeta caído

De Stephen Eales*

"My Very Easy Method Just Speeds Up Naming Planets" (literalmente, "Meu Método Muito Fácil Simplesmente Acelera o Batismo dos Planetas". As iniciais da frase, em inglês, correspondiam aos nove planetas do Sistema Solar, antes que Plutão fosse retirado da lista. Em português, um exemplo correspondente de frase, ainda com Plutão, poderia ser Meu Velho Tio Mandou Junior Saborear Umas Nove Pizzas). Desde 24 de agosto de 2006, as crianças tiveram que encontrar novas fórmulas mnemônicas para memorizarem os nomes dos planetas do sistema solar, já que a política da União Astronômica Internacional pode interferir até mesmo na astronomia, a mais bela e etérea das ciências.

Nasa - 23.2.2006 
O ainda planeta Plutão e Caronte, em imagem do telescópio Hubble de 2006


Plutão foi descoberto em 1930 por Clyde Tombaugh, um astrônomo norte-americano. O instrumento usado por ele foi um comparador de imagens, um dispositivo elaborado para mostrar de forma alternada rápida duas placas fotográficas da mesma área do céu registrada em ocasiões diferentes. Qualquer objeto que se mova no intervalo se destaca aos olhos do observador.

Durante 14 anos, Tombaugh utilizou o comparador para observar as placas que cobriam 70% do céu. Ele calculou que ao final desse período observou as imagens de 90 milhões de objetos. Desses, todos, com a exceção de 3.970, jamais se movimentaram. E dos 3.970, 3.969 se moviam tão rapidamente que Tombaugh sabia que deveriam ser asteróides, pedaços de rocha de cerca de 1.000 quilômetros de diâmetro cujas órbitas se situam entre as de Marte e a de Júpiter. O objeto que restou se movia tão lentamente que Tombaugh percebeu que ele deveria estar na borda do sistema solar. Esse objeto era Plutão.

Desde o início Plutão foi aquele componente planetário que não se encaixava bem no sistema. Os quatro planetas anteriores a Plutão em ordem de distância do Sol - Júpiter, Saturno, Urano e Netuno - são basicamente bolas de gás muito maiores do que os planetas rochosos interiores (Júpiter tem uma massa 300 vezes maior que a da Terra). Plutão, porém, é sólido e muito pequeno. A sua massa é não só muito menor do que aquela do segundo menor planeta, Mercúrio. Ela representa apenas um sexto da massa da lua terrestre.

A descoberta em 1992 de um objeto ainda menor deu início ao longo processo de rebaixamento de Plutão. O 1992 QB1, ou Smiley, foi descoberto por Dave Jewitt e Jane Luu no Instituto de Astronomia do Havaí. Ele tem um diâmetro de cerca de 200 quilômetros, aproximadamente um décimo do diâmetro de Plutão.

Qualquer idéia de que Smiley fosse o "décimo planeta" foi demolida quando, poucos meses depois, Jewitt e Luu descobriram um segundo objeto, e a seguir um terceiro. Até o momento mais de mil desse objetos trans-netunianos já foram identificados, e atualmente os astrônomos estimam que haja mais de 100 mil deles orbitando o Sol além de Netuno. Esse cinturão de objetos, denominado Cinturão de Kuiper, é uma espécie de congênere do cinturão de asteróides localizado entre Marte e Júpiter.

A idéia de que Plutão não fosse um planeta de verdade, mas apenas um grande objeto do Cinturão de Kuiper permaneceu sendo apenas uma suspeita durante vários anos, por dois motivos: Plutão é muito maior do que qualquer outro objeto trans-netuniano, e, de forma única, possui uma lua, Caronte.

Mas a suspeita começou a se intensificar, tornando-se algo mais definido, em 2004, com a descoberta de um objeto no Cinturão de Kuiper, Sedna, com um diâmetro de cerca de 1.000 quilômetros - quase a metade do diâmetro de Plutão. Além do mais, os astrônomos então já sabiam que Plutão não era o único desses objetos a ter uma lua. Hoje em dia conhece-se mais de cem objetos dotados de pequenas luas.

Finalmente, em julho de 2005, astrônomos do Instituto de Tecnologia da Califórnia anunciaram a descoberta de um objeto ainda maior do que Plutão.

Quando os jornalistas ouviram falar sobre esse objeto, que foi inicialmente chamado de 2003 UB313, mas depois batizado de Eris, eles se apressaram a escrever reportagens sobre a descoberta do "Planeta X", o décimo planeta.

A União Astronômica Internacional se envolveu na questão quando Sedna foi descoberto. Foi criado um novo comitê para discutir a definição de "planeta". Três possíveis definições emergiram desse debate:

1. A definição cultural é aquela segundo a qual um objeto é um planeta se um número suficiente de indivíduos o considera um planeta. Os apoiadores dessa visão argumentam que é impossível apresentar uma definição científica precisa de planeta - assim como o conceito de continente, a definição de planeta é inerentemente imprecisa. Segundo essa definição, Plutão deveria permanecer como planeta porque as pessoas o consideravam um planeta havia quase 80 anos.

2. A definição estrutural diz que planeta é qualquer objeto com uma massa suficientemente elevada para que a gravidade modele-o no formato de esfera.

Para os defensores de Plutão, esta definição foi conveniente já que a massa crítica para atender a esse critério implica em um diâmetro de cerca de 1.000 quilômetros, mais ou menos a metade do diâmetro de Plutão.

3. A definição dinâmica se baseia no fato de que as órbitas de objetos pequenos são instáveis se estes estiverem muito próximos às órbitas de objetos grandes. Se um pequeno objeto possui uma órbita que o coloque próximo a Netuno, por exemplo, mais cedo ou mais tarde o campo gravitacional de Netuno vai expeli-lo, seja em direção ao Sol, ou, mais provavelmente, para fora do Sistema Solar. Assim, uma definição possível é a de que um objeto é um planeta caso não existam outros objetos com órbitas similares por perto - ou seja, ele domina a vizinhança. É claro que, segundo essa definição, Plutão não é um planeta.

A descoberta de Eris, um objeto ainda maior do que Plutão, fez com que fosse necessário escolher uma dessas definições. A União Astronômica Internacional criou um outro comitê para redigir uma resolução sobre a definição de planeta, que seria apresentada na assembléia geral da instituição.

Em 16 de agosto de 2006, a União Astronômica Internacional anunciou que o Comitê de Definição de Planeta havia efetivamente adotado a definição estrutural. Segundo essa resolução, o Sistema Solar tem 12 planetas: os oito tradicionais, mais Plutão, Eris, Ceres e até mesmo Caronte, a lua de Plutão.

Caronte se qualificava para ser um planeta devido ao fato meio técnico de o centro de massas do sistema Plutão-Caronte, o ponto em torno do qual os dois corpos celestes giram, ficar fora da massa de Plutão, e desta forma o comitê decretou que Plutão e Caronte eram um sistema planetário duplo em vez de um planeta e uma lua.

Quando chegou o momento da votação em 24 de agosto, a União Astronômica Internacional rejeitou a resolução do Comitê de Definição de Planeta por uma grande maioria. Ela adotou uma definição alternativa, também por uma ampla maioria, segundo a qual para que um objeto fosse considerado um planeta três critérios teriam que ser satisfeitos: ele precisa orbitar o sol, tem que ser suficientemente grande para que a gravidade o molde no formato de uma esfera e precisa dominar a sua vizinhança orbital.

Embora isso soe como uma espécie de acordo para agradar a todas as partes, o critério crítico é o terceiro, que diz respeito à definição dinâmica. Como não satisfaz a esse critério, Plutão perdeu o status de planeta. Como consolo aos defensores de Plutão, os objetos que satisfazem aos dois primeiros critérios, mas não ao terceiro, receberam o novo título de "planeta anão", mas isso não modificou o resultado básico: o Sistema Solar perdeu um planeta.

Por que ocorreu essa rebelião? A mim parece que parte do motivo para que o Comitê de Definição de Planeta tivesse mantido Plutão na lista foi o fato de os seus membros se preocuparem demasiadamente com sensibilidades culturais e se esquecerem do motivo pelo qual os cientistas classificam as coisas. No Sistema Solar, a realidade fundamental é que existem oito grandes objetos e dois cinturões de objetos menores. Essa configuração deve ter surgido quando o Sistema Solar foi formado, e assim é mais provável que Plutão seja mais similar, tanto no que se refere à sua história inicial quanto à sua composição, aos outros objetos do Cinturão de Kuiper do que aos grandes objetos do Sistema Solar.

O sistema de classificação proposto pelo Comitê de Definição de Planetas não refletiu essa realidade, colocando vários objetos dos cinturões junto aos os oito grandes objetos. A maioria dos astrônomos percebeu este fato, e foi por isso que eles rejeitaram a proposta.

Isso não se constitui em uma falha grave do comitê. Eles só cometeram um erro devido à inexperiência em classificação de sistemas, à falta de tempo e à pressão para que tomassem decisões que sabiam que todos verificariam meticulosamente. Porém, devido à preocupação com as sensibilidades de ordem cultural, eles perderam uma oportunidade para demonstrar ao público o verdadeiro significado da ciência.

O maior mal entendido com relação à ciência é a idéia de que ela seja apenas uma coletânea de fatos. A verdade é que a ciência é um método poderoso para que se façam descobertas a respeito do mundo, e que seja de fácil compreensão e disponível para todos. Listas de fatos são apenas conclusões provisórias sobre o mundo, que podem revelar-se incorretas.

A lei fundamental para os cientistas - muitas vezes difícil de ser seguida na prática - é estar sempre certo para reconhecer os erros. O Comitê de Definição Planetária perdeu uma oportunidade de demonstrar isso no grande palco público. A descoberta do nono planeta por Tombaugh foi uma conclusão provisória que, 76 anos depois, revelou-se equivocada.

*Stephen Eales é professor de astrofísica da Universidade de Cardiff, no Reino Unido No ano passado, o sistema solar foi oficialmente reduzido a oito planetas quando Plutão foi rebaixado pela União Astronômica Internacional. Por que? E como? UOL

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