Siga o líder: uma análise do 'blairismo'

David Soskice

O décimo aniversário da vitória de 1997 dos trabalhistas no Reino Unido é um bom momento para analisar o "blairismo" como uma estratégia política da centro-esquerda. Quando Gordon Brown assumir, ele enfrentará a maior parte das mesmas restrições impostas pelas estruturas políticas e econômicas do país enfrentadas por Tony Blair em 1997, mas sua resposta terá de ser diferente da resposta de Blair. O blairismo não sobreviverá à partida do líder que o tornou possível. O trabalhismo após Blair precisa repensar como a centro-esquerda conquistará e manterá o poder -e é provável que alguma forma de representação proporcional será central em tal pensamento.

Carl de Souza / AFP - 10.maio.2007
O premiê demissionário Tony Blair
INFOGRÁFICO: O GOVERNO BLAIR
A primeira restrição do sistema britânico é eleitoral. Historicamente, sistemas de maioria simples apresentam uma tendência contrária a partidos de centro-esquerda. Na segunda metade do século 20, em países avançados com sistema majoritário, os governos de centro-esquerda estiveram no poder em média por apenas um quarto do tempo. Em comparação, a representação proporcional apresenta uma tendência quase igual em prol da centro-esquerda, como parece ser confirmado pela recente experiência na Nova Zelândia.

Por esta forte inclinação? Se o eleitor de classe média está incerto sobre se, assim que for eleito, o partido de centro-esquerda se inclinará para a esquerda ou o partido de centro-direita se inclinará para a direita, então o partido de centro-direita é a escolha mais segura. Por quê? O pior que um governo de centro-direita provavelmente fará caso se desloque para a direita é reduzir impostos e cortar os gastos públicos. Apesar de os eleitores de classe média preferirem boas escolas e atendimento de saúde, impostos mais baixos ao menos permitem que aumentem suas despesas com ensino e saúde privados.

Mas, se um governo de centro-esquerda se desloca para a esquerda, há o risco de aumento de impostos e aumento de redistribuição para grupos de renda mais baixa. Apesar de haver muitos motivos para a votação além do interesse econômico próprio -ideais, preocupação com a competência e assim por diante- o voto da classe média como um todo terá uma forte inclinação para jogar de forma segura e votar na centro-direita.

Assim, o líder de um partido de centro-esquerda precisa convencer o eleitorado de que suas preferências pessoais são as mesmas da classe média e que é forte o suficiente para impô-las ao partido. Blair foi brilhante na execução disso. A aparente disposição de David Cameron de dar as costas para muitas das crenças centrais dos ativistas conservadores sugere que ele também tem talento para isto. Gordon Brown, uma figura trabalhista mais "tribal", dificilmente será tão convincente, independentemente de quais sejam suas crenças de fato.

A restrição apresentada pelo sistema eleitoral se entrelaça com a segunda restrição -a natureza do capitalismo anglo-saxão. Um sistema eleitoral majoritário interage com as ansiedades da classe média, produzidas por um sistema de capitalismo anglo-saxão desregulamentado, de forma a restringir a estratégia de liderança dos partidos de centro-esquerda, ao mesmo tempo em que simultaneamente torna muito importante uma liderança forte.

Em "campos de batalha" chaves (saúde, educação, creches e toda a questão do equilíbrio entre vida pessoal e trabalho), os trabalhistas e os conservadores competem diretamente pelo voto da classe média. E há áreas proibidas para os trabalhistas: políticas que beneficiem grupos de baixa renda ao custo de impostos mais altos ou a transferência de custos para a classe média, ou o fortalecimento do poder dos sindicatos. Pois é isto o que temem os eleitores de classe média: que os trabalhistas promovam uma redistribuição, retirando deles para dar aos pobres.

Os campos de batalha lembram mercados ferozmente competitivos, com duas grandes empresas cheias de recursos competindo uma contra a outra no desenvolvimento de novos produtos, ao mesmo tempo que sujeitam os produtos do concorrente a fortes críticas. É mais fácil, é claro, criticar os produtos do governo do que os da oposição, já que a munição está em toda parte -no mau desempenho de qualquer escola ou hospital. Além disso, a "propaganda" de ambos os lados é prontamente divulgada pela imprensa, já que são precisamente áreas que geram grande interesse ou ansiedade.

Como, sob tais condições de antagonismo acentuado, o governo é organizado de forma mais eficaz? Grande parte das conseqüências do "blairismo" deriva apenas disto: o desenvolvimento de novas políticas e os fluxos de informação precisam ser controlados por Downing Street; conselheiros especiais com idéias e lealdade claramente em sintonia com o primeiro-ministro como fonte e conduto das políticas; funcionários públicos e outros profissionais com conhecimento substancial das áreas podem atuar como restrições conservadoras neste processo, daí a semi-exclusão de entidades profissionais na autoria de políticas; o estabelecimento de metas toma o lugar da responsabilidade profissional quando o governo precisa tanto assegurar a fidelidade quanto um retrospecto de sucesso que a imprensa possa usar.

O gabinete tem um papel reduzido nesse sistema. Para Downing Street ser capaz de responder rapidamente às situações, ou para pegar a oposição desapercebida, não faz sentido para um primeiro-ministro buscar constantemente aprovação do gabinete. A imprensa popular, em particular a lida pela classe média baixa, tem um importante papel neste modelo de
governo: ela é o canal central de "propaganda" nestes mercados competitivos.

A estratégia de Blair pode conceder um veto grande demais para os interesses do "Daily Mail". Mas tem uma lógica profunda. Ela responde às fortes restrições que impossibilitaram aos trabalhistas serem eleitos nos anos 80 e em grande parte dos anos 90. Ela possibilitou aos trabalhistas permanecer no poder por uma década. E apenas elitistas poderiam descrever como antidemocrática esta concorrência direta com a centro-direita para atender às ansiedades da classe média.

Mas há alguma alternativa para a autoria de políticas dentro das restrições impostas pelo sistema eleitoral majoritário e nossa economia anglo-saxã? A representação proporcional é apenas um caminho possível. O exemplo da Nova Zelândia é instrutivo aqui. O sistema majoritário em vigor de 1947 a 1996 favorecia enormemente ao Partido Nacional de centro-direita, que venceu 13 de 17 eleições. Mas, desde a primeira eleição pelo sistema de representação proporcional em 1996, o governo liderado pelos trabalhistas venceu em três de quatro eleições.

Há uma lógica escondida que possa explicar o motivo para os sistemas de representação proporcional parecerem produzir governos de centro-esquerda?

Uma explicação simples para isso: sistemas de representação proporcional encorajam uma série de partidos, de forma que nenhum partido obterá uma maioria geral. Os partidos de centro são freqüentemente colocados em uma posição de escolher entre uma parceria de centro-esquerda e centro-direita.

Freqüentemente, há um forte argumento para a escolha de uma parceria de
centro-esquerda: isso porque, de forma rudimentar, um governo de centro/centro-esquerda pode encontrar recursos aumentando os tributos sobre a direita de alta renda, enquanto o governo de centro/centro-direita dispõe de menos recursos para tirar da esquerda de baixa renda. Além disso, os partidos centristas podem ajudar a solucionar o problema da lealdade, que nos sistemas majoritários pode mandar os eleitores de classe média para os braços da centro-direita.

Um motivo mais fundamental para o modelo da Nova Zelândia poder ser transferível para o Reino Unido (mas não, digamos, para a Alemanha) é que ambos os países têm partidos de centro que se inclinam para a esquerda -no caso do Reino Unido, os liberais democratas. Os estrategistas trabalhistas britânicos devem certamente notar não apenas o sucesso eleitoral trabalhista na Nova Zelândia, mas também a forma pela qual a quebra do sistema de "liderança" majoritária leva a políticas mais progressistas e a uma forma mais pluralista de governo.

Se um governo trabalhista cansado no Reino Unido quiser se manter no poder por um quarto mandato introduzindo uma grande mudança no sistema de votação, isso pareceria uma decisão arbitrária cínica. Por outro lado, se os trabalhistas prometerem reformas em seu próximo manifesto (talvez um sistema de votação alternativo em vez de uma representação proporcional plena) e ainda permanecerem o maior partido após a próxima eleição, eles teriam a legitimidade de prometer um referendo sobre a representação proporcional seguido por outra eleição -sob o sistema que for escolhido.

Pouco se sabe sobre a posição de Brown sobre representação proporcional e os membros trabalhistas do Parlamento estão divididos sobre o assunto, pois muitos temem que isto tornaria suas cadeiras mais vulneráveis. Mas pode ser a única forma de a centro-esquerda poder cumprir a promessa de governar por uma geração sem estar presa às restrições de um sistema de liderança que Tony Blair administrou com grande habilidade, mas com resultados políticos positivos e negativos.

(David Soskice é um professor visitante de governo da Universidade de Harvard.) Tradução: George El Khouri Andolfato

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