A fabricante de mitos de Hitler

Kevin Jackson

A carreira de Leni Riefenstahll parece uma versão da vida real do mito de Fausto. Em troca de pouco tempo de riquezas mundanas e gloria artística, a bela jovem Fraulein Riefenstahl vendeu sua alma ao diabo, na forma de Adolf Hitler.

Protegida e patrocinada para além das fantasias de diretores de cinema, ela produziu os únicos produtos criativos da Alemanha nazista que podem chamar para si algum mérito estético duradouro, o documentário "Triumph of the Will" e os dois filmes "Olympia".

Seu inimigo da meia-noite chegou na forma dos exércitos aliados e da abertura dos campos de morte, sobre os quais alega total ignorância.

Um paralelo bastante bom até este ponto, mas falha em aspectos importantes. Primeiro Riefenstahl foi escorregadia o suficiente para escapar da danação secular pelos tribunais do pós-guerra; depois de um breve tempo de prisão esperando julgamento, foi exonerada, principalmente porque ela nunca entrara para o partido oficialmente. (Os juizes meramente observaram sua falta de "equilíbrio moral"). Segundo, nunca ficou claro que ela tinha uma alma a vender em primeiro lugar.

Uma das principais revelações da biografia de primeira de Steven Bach, "Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl" (Leni: a vida e a obra de Leni Riefenstahl) é seu narcisismo espantoso. Riefenstahl teria sido um monstro de arrogância mesmo que tivesse seguido Murnau, Lang, Wilder, Von Sterberg e companhia em sua fuga para Hollywood e usado seus talentos em prol da democracia, ou apenas para o entretenimento leve. Não que a vaidade e a megalomania sejam incomuns entre diretores; mas a capacidade de Riefenstahl de explorar qualquer um que pudesse ser útil a ela e descartá-lo depois de espremido ao máximo era excepcional, mesmo para os padrões da indústria.

Ela nasceu em circunstâncias humildes, filha de um encanador. Ela não foi abençoada com uma inteligência especial, nem talentos evidentes, mas tinha uma aparência impressionante e sabia usá-la. "Bela como uma suástica", Walter Winchell certa vez descreveu-a. Jodie Foster tentou produzir um filme biográfico de Leni, no qual faria o papel principal; Riefenstahl disse que Foster não era linda o suficiente, e exigiu Sharon Stone.

Ela seduziu admiradores ricos para que financiassem suas primeiras tentativas de se tornar uma estrela da dança moderna, depois, atriz de cinema. Poucos degraus acima na escada da indústria, ela passou, em questão de meses, de garota propaganda menor para favorita intocável de Hitler, responsável por fazer a recém nascida Alemanha nazista parecer deslumbrante para si própria e para o mundo.

Beleza física era sua arma, mas se tornou também seu principal tema no cinema -rostos arianos gloriosamente talhados- e mais tarde, seu álibi. Nazismo? Ah, ela não ligava nada para essa coisa de política: era uma esteta, interessada somente na perfeição da forma, não do conteúdo. (Há um grão de verdade aí: ela se importava realmente muito mais com seus filmes do que com qualquer outra coisa, mas Bach também demonstra como se afinava com as crenças de Hitler).

Tendo superado duas décadas minguadas no período pós-guerra, ela conseguiu se reinventar na terceira idade com uma série de livros caros e bem vendidos de fotografia, retratando os guerreiros da tribo Nuba no Sudão. Segundo os apologistas, outra prova de que Riefenstahl era pura amante da beleza e inteiramente livre de racismo.

Foi Susan Sontag quem soou o apito em um artigo devastador no New York Review of Books, "Fascinanting Fascism" (facismo facinante), que mapeava a continuidade estilística entre o trabalho pré-nazista, abertamente nazista e pós-nazista de Riefenstahl. Bach registra a ira de Riefenstahl com o ensaio, e seu ódio imortal pela autora. A única verdadeira falha no ensaio de Sontag é que não foi longe o suficiente, admitindo que "Triumph" e "Olympia" talvez tenham sido os melhores documentários já feitos.

Foi o crítico e romancista Gilbert Adair quem desafiou essa premissa. "Triumph of the Will" está longe de uma obra-prima, alega - é bombástico, chato e cafona.

Isso pode ser um exagero, mas não tanto. Leni Riefenstahl sem dúvida tem seus talentos: um dom intuitivo considerável para a arquitetura de seqüências editadas, um perfeccionismo alimentado pela capacidade de trabalho duro intenso -16 horas ou mais por dia, mês após mês- e a capacidade valiosa de encontrar um "cameraman" e outros colaboradores talentosos.

Mas isso não faz dela uma grande diretora, assim como a capacidade de tocar solos de guitarra complexos e rápidos não faz de um brutamonte do heavy metal um grande compositor: técnica sem visão maior é apenas técnica, virtuosismo vazio. A serviço do barbarismo, torna-se pior do que libertina. O livro de Bach deve ser lido como um conto de fábulas cativante sobre a futilidade do talento que não beneficia a humanidade.

Kevin Jackson é autor da monografia "The Pataphysical Flook", que será lançada em junho Deborah Weinberg

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