Divina comédia

Julian Cough

O que há de errado com o romance literário moderno? Por que é tão honrado e sem graça? Por que é tão ansioso? Por que é tão maçante?

Bem, voltemos um pouco atrás. Há dois mil e quinhentos anos, na época de Aristóphanes, os gregos acreditavam que a comédia era superior à tragédia: a tragédia é um ponto de vista da vida meramente humano (adoecemos e morremos). Mas a comédia é a visão dos deuses, do alto: nosso ciclo interminável e repetitivo de sofrimento, nosso horror a ele, nossa incapacidade de escapar dele.

Ainda assim, desde a Idade Média, a cultura ocidental supervalorizou o trágico e desvalorizou o cômico. O erro está na cultura, mas também está internalizado nos escritores, que se limitam e se autocensuram. Se o assunto é grandioso, difícil e sério, o autor tende a acreditar que o tratamento deve ser trágico.

Além disso, nossa herança clássica é tendenciosa. Temos uma rica gama de tragédias - Sóphocles, Aeschylus e Eurípides (18 só de Eurípides). Dos autores cômicos, apenas Aristóphanes sobreviveu. Em uma era de reis, o tempo é um filtro que trabalha contra a comédia. Peças que dizem: "Nossa, liderar uma nação é um trabalho difícil" tendem a sobreviver; peças que dizem: "Nossos líderes são uma turma de tolos, assim como nós" tendem a sumir.

Mais importante, o trabalho de Aristóteles com a tragédia sobreviveu; seu trabalho na comédia não. Temos as regras clássicas para um, mas não para o outro, e isso marcou o desenvolvimento de toda a literatura Ocidental. Estamos desequilibrados desde então.

Mas é claro que a Europa na Idade Média era peculiarmente induzida a redescobrir a tragédia: a igreja única falava com voz única, tirada de um livro único que era trágico no coração. A Bíblia, da maçã ao Armageddon, não contém uma única piada.

Na Europa cristã, a redescoberta dos textos clássicos na Renascença ocorreu quando o hábito de submissão à autoridade estava em seu extremo. Quando a imprensa foi inventada, ninguém pensou em usá-la para nada outro do que a Bíblia cristã, pois esse era o mito da Europa, o único mito verdadeiro.

Os autores começaram a se afastar cuidadosamente do campo teológico, mas ainda sentiam necessidade de um livro sagrado para guiá-los, para dizer a eles como escrever. A "Poética" de Aristóteles forneceu isso. Se você quisesse escrever uma tragédia ou um épico, ali estavam as regras. Você não precisava pensar. É particularmente triste ver a estreiteza de tema e estilo na arte pictorial da era Madona após Madona de bochecha rosa, santo após santo martirizado. Tanto talento, tudo desperdiçado no equivalente da Renascença à arte realista soviética.

E depois, algo impressionante aconteceu: a invenção do romance privatizou o mito, porque o romance, inventado após Aristóteles, não tinha um livro sagrado. O romancista estava sozinho. Algumas vezes era até mulher. Não havia regras. O caos do carnaval encontrou sua forma.

Com a liberdade de um monoteísmo obcecado com a morte e com novos instrumentos, novos pontos de onde ver a humanidade, deveríamos ter entrado na era dourada da comédia. Mas não, o romance em geral não foi capaz de abocanhar sua liberdade - não entrou para a comédia.

Teria sido útil avaliar uma seção representativa dos melhores jovens novelistas dos EUA, a maior e mais diversa das nações anglo-falantes. Um grande trabalho, mas felizmente a revista britânica Granta tinha acabado de desempenhar a tarefa para mim e anunciou sua lista de 21 talentos em "Os Melhores Jovens Novelistas Americanos". Em seu resumo, o presidente do júri, o editor da Granta, Ian Jack, menciona morte, sofrimento, incerteza e ansiedade. Nenhuma risada em todos os principais 21. Vinte e um Apólos, nenhum Dionísio. "Por que tão tristes?" pergunta o escritor Zadie Smith.

Bem, agora é um hábito. Está tão entranhado em nossa cultura que se tornou uma posição automática, não questionada. O que é pior é que agora está sendo promovida, reforçada. Todos os autores da lista da Granta participaram de cursos universitários de literatura criativa. Todos, em outras palavras, submeteram-se à autoridade. Essa é uma catástrofe para eles como novelistas.

O romance não pode se submeter à autoridade. É escrito contra a linguagem oficial, contra qualquer formato fixo que o romance comece a adotar - está sempre morrendo, e sempre nascendo. Se o romance literário calcificou-se em um gênero, os novos romancistas precisam romper suas regras subjacentes, freqüentemente não faladas. Não apenas questionar, mas derrubar a autoridade.

Mas as universidades são a autoridade, ou não são nada. Na medida em que o Ocidente tornou-se secular, a universidade, bastante organicamente, assumiu o lugar da igreja como entidade universal que influencia os poderosos, mas não cede ao poder. A "educação" é a desculpa para uma estrutura de poder que se perpetua, como a "religião" era na época. As universidades modernas poderiam alegar não ter uma única ideologia, mas o mesmo poderia ser dito do Vaticano sob Medicis ou Borgias.

O modelo universitário, qualquer modelo de ensino, implica por necessidade que há um romance platônico ideal, em alguma outra dimensão, que tem todas as características que fazem um romance. Quanto mais desses atributos tiver, mais perfeito o romance será.

Esse conceito funciona para o trágico, funciona para o épico, funciona (menos bem, mas funciona) para o lírico. Mas não funciona para o romance porque, como salientou Mikhail Bakhtin, o romance é a única forma literária pós-aristoteliana. Não é preso por regras clássicas. Não é atado por regra alguma. O romance não é um gênero. O romance é sempre novo. O romance está sempre se criando. Não pode ser ensinado, porque não existe.

Essa profissionalização torna maus autores em autores adequados. E torna autores potencialmente grandes em apenas adequados. Grandes romancistas escrevem para seus pares. Romancistas fracos escrevem para seus professores. Se você precisa agradar a geração mais antiga para passar (um aluno escrevendo para um professor mais velho, ou um professor escrevendo para garantir uma vaga), você termina com romances cautelosos e antiquados. Pior, o sistema faz os colegas virarem professores. Destruídos como autores, muitos são imediatamente reempregados, ensinando redação criativa.

Ensinar é implicar que a pessoa não aprenderia de outra forma. Ensinamos as crianças a respirar? A ilusão que existe uma solução vem da ilusão de que há um problema. Não há. A floresta está aberta. Aventure-se.

A ambição do romancista não é fazer algo melhor que seus antecessores, mas ver o que eles não vêem, dizer o que eles não dizem. A poesia de Flaubert não desvaloriza a de Balzac, como a descoberta do Pólo Norte não rende obsoleta a descoberta da América. (Milan Kundera, "A Cortina").

Se não gosto do que o romance anda fazendo, tenho sugestões sobre o que deveria fazer? Talvez.

O romance cresce por roubo e observação, tanto da vida real quando de outras formas de arte "mais novas", apesar de mais conservadoras. O problema com os romances de, digamos, John Banville, é que, apesar de brilhantemente escritos, roubam apenas de outros romances (e de algumas pinturas a óleo). Em seu universo não existe Internet e mal existe televisão. Ainda assim, novas formas de arte e seus sistemas de distribuição mudam a forma como lemos o romance e, portanto, devem mudar a forma como o escrevemos. Não é uma catástrofe. É uma oportunidade. Somos livres para fazer coisas novas com o romance que não poderiam ser entendidas antes.

Os romancistas podem pegar novas estruturas e técnicas de novas formas de arte para contar histórias, como Joyce fez com o cinema. Mas quem faz isso? Estranhamente, os modernistas têm uma visão muito mais precisa hoje do que os mais recentes vencedores do Booker. "Finnegans Wake" tem uma leitura como uma tradução do Google para tudo. Mas John Banville e Anita Desai transmitem uma nostalgia (por Nabokov, por Dickens, por virtudes tradicionais). Eles parecem muito menos contemporâneos do que "The Waste Land" (A Terra Desolada) - que é o que Bakhtin chamaria de poema romanceado: um poema que escapa à "Poética" de Aristóteles e pega uma carona na energia do romance.

Como teria dito Baudrillard: o pós-modernismo nunca aconteceu. Desde Joyce e Woolf (e Eliot), as rodas do romance giraram na areia. O romance é constantemente empurrado pela cultura para o digno, para a tragédia. O próximo grande romance fará para o romance contemporâneo literário o que Cervantes fez ao romance cavalheiresco. Não é que os romances literários contemporâneos sejam ruins. Linha por linha, livro por livro, são muitas vezes maravilhosos. Mas das mesmas maneiras. Quem precisa mais disso?

E para esclarecer: não quero que todo mundo escreva comédias. Só não quero que todos escrevam tragédias ansiosas, menores e banais sem pensar por que escolheram esse modo tão disputado. Por que todos giram em torno de uma árvore, quando há uma floresta a explorar? Não vivemos em épocas trágicas. Não vivemos em épocas cômicas. Vivemos em épocas novas.

O romance de Julian Gough "Jude: Level 1" será publicado em julho, na Europa. Deborah Weinberg

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