Contra a infelicidade

Richard Layard*

O economista e escritor Paul Ormerod afirma que o governo não deveria se preocupar com a felicidade, já que isso somente levaria a um excesso de governo e intervenção desinformada. Mas o que o governo deveria tentar promover, senão a felicidade? Quando objetivos como liberdade, igualdade e prosperidade entram em conflito, por qual critério deveríamos mapear nosso curso, senão o da felicidade de nossos cidadãos?

Ormerod não apresenta alternativa. Ele quer apenas que o governo fique fora da felicidade e evite os perigos da falha de informação, mesmo que enquanto isso não estejamos ficando mais felizes.

Não faz sentido. É como procurar as chaves embaixo do poste de iluminação porque é mais fácil olhar lá. Em vez disso, deveríamos procurar o que queremos onde pode ser encontrado.

É claro que não é fácil medir a felicidade com precisão, assim como a liberdade ou muitas coisas que são importantes para nós. Mas, se elas importam, deveríamos tentar - e, ao sabermos mais, deveríamos usar cada vez mais essa informação para influenciar a política. Na verdade, temos medidas cada vez melhores da felicidade. As avaliações psicológicas e neurológicas convergem bem, aumentando nossa confiança no que as pessoas dizem sobre seus sentimentos. Se pudermos explicar o que elas sentem, teremos informação vital para informar a política.

Mas aqui tropeçamos com a principal objeção de Ormerod, que se baseia em uma simples incompreensão. Ele acredita que os "advogados da felicidade" raciocinam como se segue: a) a felicidade não aumentou em 40 anos, e b) a renda, mais os gastos em educação, saúde e lazer aumentaram. Portanto, c) renda, educação, saúde e lazer não afetam a felicidade.

É claro que não dizemos isso. Pelo contrário, estudamos de perto o efeito de todos os fatores conhecidos sobre a felicidade. Encontramos efeitos positivos da maior renda (pequenos, mas significativos), melhor saúde e maior lazer. Mas também mostramos os importantes efeitos negativos de ter maus relacionamentos (nas famílias, nos locais de trabalho e nas comunidades).

Com o tempo, enquanto a renda, a saúde e o lazer aumentaram, a qualidade desses relacionamentos deteriorou, e foi isso que impediu nossa felicidade de crescer.

Não são questões especulativas. São conclusões bem pesquisadas. A pesquisa da felicidade é hoje um grande campo de estudos. O principal conhecimento vem de microestudos de indivíduos, mais do que de macroestudos de médias de séries temporais, onde é difícil destrinchar o que causa o quê. Assim são as coisas na economia.

Por exemplo, como Ormerod sabe, quando queremos identificar os efeitos da política educacional sobre o Produto Interno Bruto, não tentamos relacionar os movimentos do PIB ano a ano às mudanças no sistema educacional. Se o fizéssemos, seríamos incapazes de detectar algum efeito, e concluiríamos erroneamente que ele não existe. Em vez disso, trabalhamos através de cada ligação na cadeia de causa e efeito, e só inferimos o efeito geral daquela seqüência de ligações.

O mesmo vale para a felicidade. A felicidade em geral depende do quanto se é feliz em cada área diferente da vida (família, trabalho, comunidade e assim por diante), e as políticas exercem seus efeitos em cada área relevante da vida. Com o passar do tempo, sabemos cada vez mais sobre as ligações em cada etapa da cadeia de causalidade.

Portanto, esse é um projeto voltado para o futuro. Nosso conhecimento se tornará cada vez mais preciso, como em qualquer área progressista da ciência. É claro que não devemos correr antes de saber andar: só deveríamos mudar as políticas para aumentar a felicidade se houver evidências robustas.

Mas deveríamos ser incansáveis em nossos esforços para melhorar as evidências. Devemos definir o que precisamos saber e garantir que o encontremos. Compreender as condições que levam à felicidade humana em toda a sua complexidade deveria ser a preocupação central da ciência social.

Esta é a abordagem oposta de dizer que sabemos muito pouco e, portanto, deveríamos desistir de tentar saber mais, como afirma Ormerod. Ele chega a sugerir que em geral devemos "desprezar a coleta central de informações sempre que for praticável". Melhor, presumivelmente, para o governo central atuar sem restrições.

Mas, se levarmos a sério a felicidade, implicará mais ou menos atividade do governo? É cedo demais para dizer. Certamente descobriremos mais sobre como a regulamentação cria frustração e descontentamento, e poderemos concluir que os benefícios objetivos que os burocratas reivindicam são muitas vezes superados pelos des-benefícios subjetivos.

No que diz respeito aos gastos do governo, certamente desejaremos dar mais prioridade à promoção de melhores estados mentais (menos depressão e ansiedade, menos alienação dos adolescentes, melhor criação dos filhos). Mas pode acontecer que alguns indicadores "objetivos" importem menos para a felicidade humana do que seus defensores alegam, e portanto mereçam menos gastos. Com o tempo, depois de algumas décadas, todas as políticas serão avaliadas em termos de seus efeitos sobre a felicidade, mais que sobre o Produto Interno Bruto.

Os governos têm-se interessado pela felicidade pelo menos desde o Iluminismo. Mas só recentemente começamos a medi-la e a explicá-la sistematicamente. As pessoas de boa vontade não deveriam exagerar o que já sabemos, mas tampouco deveriam minar uma tendência que será tão benéfica para a humanidade.

*Richard Layard é autor de "Happiness: Lessons from a New Science" [Felicidade: Lições de uma Nova Ciência] Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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