O ensaio da morte cubana

Bella Thomas

Quando Javier ouviu a notícia no rádio em julho do ano passado, sua primeira reação foi sair de casa e comprar 15 maços de cigarro, para o caso de qualquer tensão decorrente do fato provocar escassez de produtos na cidade. A seguir ele voltou ao seu apartamento para aguardar e observar. Ele ficou em casa vários dias. Vários outros fizeram a mesma coisa. Fidel Castro transferiu o poder para o seu irmão, Raúl. Parecia ser algo grave. Havia boatos a respeito de profunda mudança política, e especulações de que o "comandante em jefe" estaria, na verdade, morto. Ouviu-se falar que houve alegria em Miami, mas as ruas de Havana estavam silenciosas.

Os meses que se seguiram foram como uma contínua noite de domingo: calmos, cheios de esperança, mas sufocados por uma ansiedade subjacente.

Apesar da sua doença intestinal, Fidel Castro gerenciou mais uma manobra brilhante no sentido de garantir a sobrevivência do seu regime de 48 anos - ensaiar a sua morte, passar o poder ao seu irmão mais novo Raúl e estar presente para observar as conseqüências.

Eu retornei a Havana em abril último, após uma ausência de vários anos. Fui ver amigos e verificar se, conforme freqüentemente se alega, as mudanças são realmente iminentes. Retornei com a impressão oposta. Aqueles que acham que têm que ver Cuba antes que "tudo seja varrido" pelos norte-americanos não precisam se preocupar. O atual impasse sobreviverá a Fidel, e poderá sobreviver a Raúl durante alguns anos.

Na década de 1990, muita gente no exterior acreditou que o fim da União Soviética seguramente significaria também o fim do regime de Castro. Os subsídios e os preços inflacionados que os soviéticos pagavam pelo açúcar cubano tiveram um fim abrupto: como o regime poderia sobreviver?

O que os observadores mais subestimaram desta vez foi o poder da retórica nacionalista do regime e da habilidade estratégica de Castro. Ao contrário da Europa Oriental, onde o nacionalismo ajudou a erodir o comunismo, o nacionalismo cubano fortaleceu o regime. Castro sempre foi um nacionalista em trajes de comunista, e, no decorrer da década de 1990, as referências ao comunismo no seu discurso foram gradualmente substituídas por apelos nacionalistas.

A persistência das relações hostis com os Estados Unidos ajudou Castro. Foi como um aguerrido líder nacionalista de uma pequena ilha, pronto para enfrentar uma superpotência vizinha agressiva, que Castro preservou as suas credenciais revolucionárias de forma mais efetiva. Ele sempre argumentou que as agruras da vida sob o seu regime são em sua maioria provocadas pelo embargo imposto pelos Estados Unidos. Muita gente engoliu esse argumento. Ele soube também capitalizar o antiamericanismo latente na América Latina, na Europa e no Canadá, a fim de conferir à sua luta uma perspectiva mais universal.

Na verdade, o regime parece agir com entusiasmo para garantir que o embargo continue. Toda vez que há a impressão de que o governo dos Estados Unidos poderá considerar a suspensão do embargo, ocorre uma ação drástica por parte dos cubanos que acaba por garantir a persistência da situação. Em 1996, quando o presidente Bill Clinton estava disposto a dar início a uma reaproximação, o regime cubano abateu dois aviões norte-americanos pilotados por membros de um grupo de cubanos exilados que resgatava indivíduos que escapavam da ilha em jangadas. Quando, em 2003, um influente lobby bipartidário nos Estados Unidos parecia pronto para acabar com o embargo, o governo cubano imediatamente encarcerou 75 prisioneiros de consciência e executou três homens que seqüestraram um rebocador com a intenção de seguirem para Miami.

Castro sobrevive também devido a outros fatores. Existem novas relações estratégicas com Chávez na Venezuela (que fornece petróleo barato) e, mais recentemente, com os chineses (que fornecem grande parte dos novos equipamentos eletrônicos, bem como um modelo econômico que, segundo certos relatos, é apreciado por Raúl). E existe ainda a reforma da indústria turística cubana e os bilhões de dólares enviados todos os anos pelos cubanos nos Estados Unidos às suas famílias em Cuba.

No entanto, é impossível passar um período em Havana sem que se note a falta de comida para a maioria dos cubanos. O salário médio, de US$ 20 por mês, mal dá para alimentar uma única pessoa durante duas semanas.

Os sistemas de saúde e de educação são supostamente os pontos positivos do regime, mas isso é questionável. Existem muitos médicos, mas, de acordo com a maioria dos cubanos que conheço, vários deles deixaram o país e o sistema de saúde está em péssimo estado - com exceção dos hospitais reservados aos estrangeiros. As pessoas precisam freqüentemente pagar propinas para receber tratamento médico.

Existem histórias de sucesso, tais como a da indústria da biotecnologia, mas essas são as exceções. A maioria dos cubanos sabe disso. A maioria está também consciente de que a liberalização é uma necessidade vital, mas eles se acautelam na hora de falar abertamente sobre isso, em parte porque têm muito no que pensar (por exemplo, como conseguir comida), porque o fato de se viver sob uma ditadura gera níveis extraordinários de paciência e também porque questionar abertamente o regime pode custar o emprego do cidadão ou fazer com que este vá parar na cadeia.

Quando retornei a Cuba, em abril, havia poucos sinais de mudança. Ouvi falar a respeito de algumas experiências de mercado em certas cidades, e que Raúl Castro é mais discreto e pragmático que o irmão. E notei a sofisticada restauração de Havana Velha, supervisionada com dedicação pelo historiador oficial, Eusebio Leal, com a utilização de verbas internacionais e projetos de construção de hotéis.

Mas não havia nenhuma sensação real de transição. E me disseram que se houve mudança no grau de controle, foi no sentido de que este se tornasse mais intenso. Poucos jornalistas contam com permissão para deixar o país, somente uns poucos dos 75 prisioneiros políticos encarcerados em 2003 foram soltos e pelo menos outros 200 ainda estão na prisão. Alguns restaurantes particulares ainda estavam abertos, mas dois terços daqueles que funcionavam em Havana foram fechados nos últimos anos porque o governo não queria que houvesse muita concorrência com os restaurantes e hotéis estatais.

Apesar disso, as pessoas que conheço parecem estar seguindo em frente, levando vidas discretas, procurando não se meter em encrencas. O meu amigo Jorge conseguiu um emprego de faxineiro em uma embaixada (embora tenha se formado em direito). Mas ele mora no mesmo quarto pequeno, sem janelas, mas com um grande televisor.

Outros pareciam preocupados com potenciais mudanças. Uma amiga tentou explicar a ansiedade. "Veja, há cubanos que foram para o exílio, mas também existem cubanos em Cuba que são aquilo que chamo de 'insilados'", disse ela. "Ou seja, são exilados sem terem deixado o país, sem tomar parte do sistema, mas também sem contestá-lo. Vivem trancados em casa sem chamar atenção, temendo tanto o governo quanto aquilo que pode acontecer quando os exilados retornarem".

Eu também assumi o risco de visitar um dissidente que foi detido em 1997, e que passou cinco anos na prisão por ter escrito um documento de dez páginas criticando a ausência de um programa de liberalização. Sentamo-nos na sua cozinha e discutimos o estado das prisões, que ele descreveu com certo detalhe. Ele também falou a respeito do sistema de saúde e concordou com a opinião segundo a qual a propaganda sobre este sistema tem tido um sucesso absurdo.

Ao falar sobre a questão da mudança de regime, ele argumentou que raramente os governos totalitários podem ser desafiados a partir de baixo. "Na verdade, isso nunca ocorreu antes", disse enfaticamente. "Quando Stalin morreu, quando Mao morreu, nada aconteceu. É necessário um movimento de cima, como no caso de Gorbachev na Rússia, ou do campo externo, como durante o êxodo na Alemanha Oriental, para que a mudança emerja". Até o momento não há sinal de nenhuma das duas coisas em Cuba.

Quando eu lhe disse que a cidade de Londres estava preparando uma comemoração do 50º aniversário da Revolução Cubana em 2009, ele perguntou como é que tais pessoas fazem vistas grossas para as dificuldades presentes em Cuba. A seguir, deu de ombros e, usando uma dose de autodisciplina, afirmou: "Bem, vocês são uma democracia, eu suponho". E mudou de assunto.

*Bella Thomas é diretor da Ax:son Johnson Foundation, uma organização com sede na Suécia UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos