Desafiando Chomsky

Philip Oltermann*

A julgar pelas notícias a seu respeito, os pirahãs são um povo de tipo comum. A seu respeito, dizem que podem ser arredios num primeiro encontro, mas que gostam de conversar e socializar, e que são "chegados" a um drinque ou dois. Ainda assim, houve ao longo dos últimos doze meses certa efervescência em torno desta pequena e obscura tribo da floresta tropical brasileira: aviões andaram pousando em sua aldeia, ao menos um por semana, trazendo equipamentos técnicos futuristas e cientistas temerários. Em julho passado, John Colapinto, um jornalista da revista "The New Yorker", passou uma semana com eles. Em abril, a revista publicou um ensaio fotográfico de 18 páginas sobre a tribo.

A cultura tribal, é claro, não predomina apenas no Amazonas como também nos círculos acadêmicos - a percepção deste fato ajuda a entender o porquê desta agitação em torno dos pirahãs. Em 2005, o antropólogo americano Daniel Everett publicou um artigo no jornal "Current Anthropology" no qual apresentava suas descobertas sobre a vida dos pirahãs, adquiridas ao longo dos anos que ele viveu na tribo. A cultura pirahã, garantia Everett, é única: ela está totalmente voltada para a experiência imediata e carece de noções numéricas básicas, de um vocabulário para as cores, de uma conjugação no passado e de um mito da criação. Everett sugeria que a cultura pirahã é tão excepcional que a sua existência contradiz fundamentalmente as convicções as mais básicas a respeito da linguagem, e que ela pesa de modo contundente contra o homem cujas teorias conduziram a essas convicções: Noam Chomsky.

A Chomsky atribui-se geralmente a introdução da noção de uma "gramática universal" ("Universal Grammar - UG), a programação lingüística que existe em nosso cérebro e que significa que todos os humanos constroem uma linguagem de acordo com o mesmo conjunto de regras. A hipótese da "UG" é aceita pela maioria dos lingüistas, e ela escora grande número de best-sellers populares dedicados à linguagem, como "O Instinto da Linguagem", de Steven Pinker.

Em 2002, Chomsky co-assinou um artigo com Marc Hauser e W. Tecumseh Fitch, publicado na revista "Science", no qual a idéia é desenvolvida e aprofundada. Eles argumentam que é o conceito de "recursividade" que torna a linguagem especial. A linguagem é infinitamente expressiva, prosseguem os autores, porque nós podemos encaixar de modo infindável uma sentença numa outra: qualquer sentença a mais extensa possível pode ser aumentada acrescentando algo como "Maria acha que..." Ao passo que Daniel Everett, numa polêmica inversão, pensa que Chomsky está errado: o seu argumento é que os pirahãs não praticam a recursividade, e, portanto, não pode haver nenhuma gramática universal. E se a linguagem não fosse transmitida geneticamente e sim gerada culturalmente?

Chomsky tem sido uma figura eminente no campo da lingüística desde que ele escreveu "A Estrutura Lógica da Teoria Lingüística" em 1955. Muitos são aqueles que se ressentem do seu status de quase-guru, e a abordagem renegadora de Everett fez deste último uma figura cultuada. A julgar pelo seu artigo no "The New Yorker", John Colapinto se apaixonou pelo lado independente, que corre por fora, de Everett: a matéria coloca Chomsky em rota de colisão com antigos seguidores, como Steven Pinker, que é citado comparando a pesquisa de Everett com "uma bomba arremessada no meio de uma festa".

Enquanto Everett passa anos com os pirahãs no terreno, aprendendo e vivenciando a sua língua, sugere Colapinto, Chomsky teoriza mantendo-se à distância. Além disso, W. Tecumseh Fitch, um antigo colaborador de Chomsky, que estava visitando os pirahãs no mesmo momento que Colapinto, é descrito como um acadêmico fanfarrão cujo laptop dá pau toda hora, enquanto a falta de interesse dos nativos pela sua pessoa gerou uma zombaria generalizada das suas tentativas para estudá-los.

Até aqui muito bem. Mas quando eu verifico junto a Pinker, ele recua em relação a alguns dos seus comentários. Se de um lado ele ainda tem dúvidas a respeito do conceito de recursividade de Chomsky (ao qual ele respondeu em profundidade, em artigo co-assinado com Ray Jackendoff), de outro ele reconhece que mesmo se Chomsky estiver errado, isso não significa que Everett esteja certo. "De fato, quanto mais eu tenho lido e ponderado a respeito da história de Everett, quanto menos convencido fiquei".

A tese que Everett defende em relação aos pirahãs, sugere Pinker, está longe de ser uma novidade: muitos estudiosos fizeram comentários similares a respeito dos "povos saqueadores" desde o século 19. Alfred Russel Wallace, por exemplo, fez a seguinte observação ao se referir aos nativos indonésios que ele conheceu durante as suas pesquisas no terreno: "Compare isso [a cultura européia] com as línguas selvagens, que não possuem nenhuma palavra para expressar concepções abstratas; considere a carência de projeção no futuro do selvagem... a sua incapacidade de combinar ou comparar".

Tais abordagens não são mais encontradas nas listas de leitura das universidades, o que não quer dizer que elas sejam radicais ou novas: "Ao colocar as suas observações dentro da perspectiva de uma descoberta anti-Chomsky, e não de uma condescendência para com a visão européia centralizadora do mundo, Everett conseguiu escapar desta relativização", explica Pinker. Num primeiro momento, a pesquisa de Everett pode ter se parecido com uma "bomba arremessada no meio de uma festa", mas quanto mais detalhadamente você a estuda, mais ela se parece com um engodo.

O próprio Chomsky manteve-se quieto, evitando falar do assunto. Ele aconselha os seus inquiridores a fazerem uma ampla análise do artigo intitulado "Everett's argument" (A argumentação de Everett), da autoria de Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues, que foi postado no website de lingüística "LingBuzz" em março. Afinal, admitem eles, a recursividade pode revelar ter mais variáveis do que fora previsto anteriormente, mas isso não quer dizer necessariamente que os pirahãs sejam excepcionais - de fato, um caso similar de falta de recursividade no uso de pronomes possessivos pode ser observado em alemão.

O maior problema é que Everett continua sendo o único não-pirahã a poder afirmar que ele fala e entende bem a sua língua. Enquanto outros não aprenderem esta língua, ou enquanto um dos membros da tribo não se familiarizar com a teoria lingüística, nós não teremos condições para julgar se Everett está contando lorotas para o mundo acadêmico ou se ele fez uma descoberta verdadeira.

*Philip Oltermann é co-editor do livro "How I Write: The Secret Loves of Authors" (De que modo escrevo: os amores secretos dos autores) Antropólogo americano que conviveu por muitos anos com tribo do Amazonas defende uma teoria que contradiz o "papa" da lingüística Jean-Yves de Neufville

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