Um liberal norte-americano

Geoff Mulgan

Intelectuais e políticos, via de regra, não se sentem confortáveis como companheiros, mas não é de se surpreender que eles com freqüência permutem as vestimentas, ou mudem de lado, ou que tantos intelectuais se sintam como políticos frustrados, e vice-versa. O ideal de Platão do rei-filósofo nunca desapareceu de fato, tendo reemergido em diversas formas. Mas estar muito próximo do mundo das idéias pode ser uma desvantagem. Quando em 1988 o candidato presidencial dos Estados Unidos, Michael Dukakis, foi visto lendo um livro sobre políticas suecas de planejamento na praia, o fato foi percebido como mais uma indicação de que ele não tinha perfil para ser presidente.

AFP 

Gordon Brown não é um rei-filósofo. Porém, mais do que qualquer dos seus recentes predecessores, ele será um primeiro-ministro que se sente confortável com o mundo das idéias, que tem um título de Ph.D. e que está em casa nas bibliotecas.

Eu trabalhei como seu assessor no início da década de 1990, e presenciei em primeira mão o seu apetite por argumentos e idéias, bem como a sua seriedade como leitor. A maioria dos políticos folheia livros em busca de uma ou duas idéias; alguns nunca vão além da contracapa. Gordon Brown realmente lê os livros. Isso se tornou evidente para mim pela primeira vez quando, em 1991, articulei um encontro dele com o guru dos negócios Michael Porter. Porter tinha acabado de publicar um volumoso livro sobre a competitividade das nações.

A obra parecia ser relevante para a política industrial do Partido Trabalhista, que estava tomando forma em torno de aglomerados industriais, transferência de tecnologias e o papel potencial das agências regionais de desenvolvimento. Quando Brown comentou detalhadamente questões como a das indústrias de cerâmica do norte da Itália e das fábricas de maquinários na Alemanha, foi ficando gradualmente claro para mim que ele sabia mais a respeito dos detalhes do livro do que o próprio autor. Porter se saía muito bem quando o que estava em discussão era uma visão mais ampla, mas era vago quando a discussão voltava-se para exemplos reais.

A seriedade de Brown como leitor é tão intensa quanto a sinceridade das suas tentativas de sintetizar um aposição política consistente, incluindo discursos e ensaios sobre o papel do Estado e a natureza mutável da identidade nacional. Alguns tentaram retratá-lo como um coletor indiscriminado de peças intelectuais heterogêneas. Essas pessoas me perguntaram por que um homem de esquerda se interessaria por James Q. Wilson, Roger Scruton ou Gertrude Himmelfarb, mulher e companheira intelectual de Irving Kristol, o pai do neo-conservadorismo.

Brown certamente foi influenciado por uma gama variada de idéias, mas é evidente que existem alguns temas comuns nessa estrutura intelectual. Mais do que a maior parte dos seus contemporâneos, ele sempre enxergou a política através de uma lente moral, talvez em parte devido à influência do pai, ou talvez também por causa da influência de uma esquerda escocesa distinta. Para ele, a política diz respeito a ajudar a sociedade a agir como uma comunidade moral, e não apenas como um conjunto de indivíduos.

Esse não foi um ponto de vista compartilhado pela maioria da intelligentsia política britânica de centro-esquerda durante as décadas de 1980 e 1990, para a qual a moralidade era uma questão de gosto pessoal, sendo muito menos importante do que a reforma constitucional ou novas estratégias econômicas. Brown, por outro lado, sentia que sem uma abordagem daquilo na natureza humana que torna as pessoas cooperativas, e dos fatores nas instituições humanas que reforçam essas disposições, a esquerda ficaria sempre na defensiva.

Para preencher essa lacuna, ele buscou indicações onde quer que pudesse encontrá-las, incluindo várias do centro e da direita da vida intelectual norte-americana. O livro de James Q. Wilson, "The Moral Sense", é um bom exemplo: um antídoto cuidadosamente discutido para as singelezas do individualismo neoliberal, que demonstra como estamos dispostos a sermos sociáveis e cooperativos, mas também que precisamos de instituições e de leis para reforçar tais disposições.

Aqui nós esbarramos em mais uma das características definidoras do Brownismo. As suas fontes de influência são bastante norte-americanas, ou, para ser mais preciso, do nordeste dos Estados Unidos, garimpadas em uma cultura acadêmica na qual o rigoso pensamento racionalista do Iluminismo fundiu-se a um vigoroso protestantismo. Robert Putnam, Howard Gardner e Francis Fukuyama são todos exemplos desta tendência, assim como Thomas Friedman. O pensamento californiano teve uma influência bem menor sobre ele, e as idéias New Age não tiveram influência alguma. E tampouco existe muita evidência de que Brown tenha sido influenciado por pensadores da Europa (nada de Habermas ou Bourdieu), da Ásia (com a exceção parcial de Amartya Sen) ou da América Latina (nada de Roberto Mangabeira Unger ou Paulo Freire).

Essa tradição republicana liberal norte-americana tem muitas virtudes, incluindo um vigoroso sentido de história e de objetivo moral. Esse é um equivalente moderno do ambiente da Edimburgo iluminista do século 18, e de um mundo de figuras como Adam Smith e James Ferguson, e é algo que continua em processo de inovação.

Por meio de indivíduos como Cass Sunstein, a tradição republicana liberal norte-americana passou a se voltar para questões sutis relativas a comportamento e cultura, que parecem destinadas a dominar a política durante as próximas décadas: como persuadir as pessoas a fazerem as coisas corretas, seja em relação à própria saúde, à mudança climática ou simplesmente a um comportamento correto para com os outros cidadãos.

Mas esta tradição também conta com a sua dose de pontos cegos. Ela tem sido lenta para abordar questões como meio-ambiente e as desigualdades com base no gênero. Ela não tem muito interesse pela ciência, exceto como um problema; e é estranhamente paroquial (nela não há qualquer sugestão de que os nove décimos da população mundial fora da Europa e dos Estados Unidos já tiveram algum dia qualquer idéia original).

O Reino Unido ver-se-á liderado por um político bastante inteligente, curioso e intelectualmente embasado, que continuará a ler bastante e a tomar contato com o mundo das idéias. Mas Brown provavelmente não deveria ser descrito como um intelectual, no sentido estrito da palavra.

Ele estará no cargo para servir ao público, para tomar decisões difíceis e lidar com as ambigüidades que sempre acompanham o poder democrático. Um vínculo muito forte com qualquer sistema de idéias poderia impedir que ele cumprisse o seu papel. Afinal, o seu predecessor começou a atuar como primeiro-ministro sob ataques por ser excessivamente flexível, mas deixou o cargo criticado por ter se fixado demasiadamente em uma idéia abstrata no que dizia respeito ao Iraque, e por não demonstrar o pragmatismo flexível que desejamos dos nossos líderes. Eu suspeito que Brown não deixou de tomar nota dessa mensagem.

*Geoff Mulgan é diretor da Young Foundation, uma organização com sede no Reino Unido
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