Uma volta a Bhutto?

Anatol Lieven*

Dezenove anos se passaram, a União Soviética caiu, os EUA invadiram e ocuparam o Afeganistão e o Iraque, a China surgiu como superpotência econômica, mas no Paquistão fala-se mais uma vez em transição negociada do regime militar para o de Benazir Bhutto.

Que o mundo possa ter mudado tanto e o Paquistão tão pouco diz muito sobre a relação entre estagnação socioeconômica e estabilidade política - uma estabilidade subjacente que revela a superfície volátil dos assuntos paquistaneses. A sociedade paquistanesa, com sua densa rede de fidelidades de clãs e famílias, mostrou-se incapaz de gerar partidos políticos modernos.

O que há é um partido dinástico, o Partido do Povo do Paquistão (PPP), de Bhutto, e outros que são meras associações de patrões e proprietários de terras locais.

Existem apenas dois partidos paquistaneses "de verdade" no sentido ocidental - com organizações de base e algum tipo de programa -, e ambos destroçariam o país se chegassem a adquirir o poder supremo. São o MQM, um partido étnico muhajir, e o Jamaat-Islami, uma força radical islâmica.

Intimamente relacionada às fraquezas dos partidos está a força dos militares. Eles são fortes porque é a única instituição paquistanesa que funciona, segundo as regras weberianas modernas, como uma força mais ou menos ordenada, meritocrática e burocrática, com espírito de corpo e uma capacidade de autodisciplina. A fraqueza e a corrupção dos partidos civis permitiram que os militares conquistassem o poder diversas vezes - e o poder militar por sua vez contribuiu para a fraqueza civil.

Enquanto os dias do general Musharraf como presidente provavelmente estão contados, é improvável que sua substituição faça muita diferença para o futuro do país, porque os fatores subjacentes que determinam esse futuro permanecerão. Segundo a Constituição, o Paquistão deve realizar eleições parlamentares no início do próximo ano. Falou-se que Musharraf adiaria as eleições, mas parece improvável. Washington se opõe e os generais não ficarão contentes com uma medida que provavelmente envolveria o exército na repressão interna.

O presidente é eleito pelos membros do Parlamento. Temendo que as eleições parlamentares levem a uma vitória dos partidos de oposição, Musharraf pretende se fazer reeleger pelo Parlamento existente neste outono - algo que a oposição rejeita como ilegal.

Os EUA estão discretamente pressionando por um acordo em que Musharraf continuaria presidente, mas deixaria de ser o chefe militar, e Bhutto ou um de seus indicados se tornaria primeiro-ministro.

No entanto, para que Bhutto seja primeira-ministra seria necessário não apenas retirar as denúncias de corrupção que a levaram ao exílio, como também fazer uma emenda à Constituição, que atualmente só permite dois mandatos como primeiro-ministro.

Esse acordo provavelmente seria o melhor caminho para Musharraf, para Bhutto e na verdade para o Paquistão. No entanto, depois dos protestos que irromperam nos últimos meses - provocados pela suspensão por Musharraf do presidente da Suprema Corte, Iftikhar Chaudhary - a autoridade do presidente caiu tanto que muitos ativistas do PPP agora esperam livrar-se dele de uma vez. Quanto a Musharraf, é tamanho seu desprezo por Bhutto e o PPP que ele ainda parece esperar mantê-los fora do poder. É até possível que se sentisse tão humilhado pela perspectiva de dividir o poder com Bhutto que preferisse renunciar.

Apesar dos protestos, a influência reduzida do presidente não é conseqüência de um novo movimento de massas exigindo mudanças radicais, mas dos mesmos fatores que derrubaram a maioria dos governos anteriores: a incapacidade de dar vantagens suficientes às elites políticas, e uma aliança dessas elites com a juventude eternamente descontente e semi-empregada nas cidades paquistanesas. Em certo ponto, quando os sérios tumultos se disseminarem para as áreas do norte do Punjab, onde o exército recruta a maioria de seus soldados, o alto comando entra em cena e força uma mudança de governo - seja civil ou militar.

Em minha opinião, esse é certamente o cenário mais provável para a eventual saída de Musharraf: outros generais a exigirão, e depois negociarão uma "transição para a democracia", como fizeram em 1988. A oposição e a mídia paquistanesas estão chamando a atual inquietação de "revolução", mas não chega perto disso. A única força verdadeiramente revolucionária no Paquistão hoje são os radicais islâmicos, e embora eles estejam cada vez mais perturbadores e violentos, estão - felizmente - muito longe de conseguir incitar uma revolução em âmbito nacional.

Por isso, a primeira coisa que se deve entender sobre a próxima "transição para a democracia" no Paquistão é que não será nada disso. Será uma volta a um governo civil das mesmas antigas elites, com os militares mantendo uma parcela de poder forte, embora velada. Ela será ajudada pelo fato de que o PPP, enquanto certamente será o maior partido depois das eleições do próximo ano, provavelmente não conseguirá mais de 30% dos votos. Portanto, terá de criar uma coalizão mais ou menos instável com outros partidos, a maioria dos quais não tem motivos para adorá-lo.

Também é improvável que uma volta ao regime civil torne o Paquistão um Estado-cliente mais confiável dos EUA na "guerra ao terrorismo". Uma perigosa ilusão está crescendo em Washington, alimentada por deputados do PPP, de que um futuro governo liderado pelo partido, por ser democraticamente eleito, terá legitimidade para lançar uma repressão militar aos taliban nas áreas tribais na fronteira com o Afeganistão. Isso é profundamente contra-intuitivo, já que todas as pesquisas mostram que a grande maioria dos paquistaneses detesta a estratégia americana em geral e o papel dos EUA no Afeganistão em particular, e reprova até os atuais níveis de ajuda ao Paquistão.

Assim, aconteça o que acontecer, o Paquistão continuará com um sistema altamente imperfeito em que os militares continuarão detendo grande poder, e o Ocidente continuará com um aliado muito imperfeito na "guerra ao terrorismo", ou pelo menos na guerra no Afeganistão. Mas um aliado imperfeito ainda é muito melhor que um levante militar e o colapso do Estado que poderia ocorrer se Washington conseguir subjugar um governo paquistanês à sua vontade.

*Anatol Lieven é co-autor de "Ethical Realism" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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