Em defesa das pequenas utopias

Anthony Dworkin*

Em junho de 2002, o presidente Bush proferiu um discurso na Academia Militar dos Estados Unidos em West Point que marcou o início do percurso rumo à guerra com o Iraque. O discurso é lembrado pelo fato de nele Bush ter revelado a sua doutrina de auto-defesa preventiva, mas juntamente com este princípio Bush também declarou os valores que guiam os Estados Unidos, elaborados para provar que o poder norte-americano não precisa ser temido. "Os Estados Unidos não têm nenhum império a ampliar ou utopia a estabelecer", disse Bush à sua platéia. "Só desejamos aos outros aquilo que desejamos para nós - segurança contra a violência, os benefícios da liberdade e a esperança de uma vida melhor".

A idéia de utopia foi invocada novamente na estratégia de segurança nacional do governo Bush, publicada poucos meses após o discurso de West Point. O tema central desse documento, cujo objetivo foi apresentar uma declaração definitiva da política externa norte-americana, foi que os Estados Unidos buscariam "um equilíbrio de poder que favorecesse a liberdade". O relatório frisava que os Estados Unidos se engajaram em uma batalha no século 20 contra regimes totalitários que tinham como base "visões militantes de classe, nação e raça, e que prometeram utopia, mas apresentaram miséria".

Agora, deparando-se com a ameaça terrorista - que o governo em breve caracterizaria com uma nova forma de totalitarismo - os Estados Unidos poderiam utilizar a sua posição proeminente no mundo para promover "décadas de paz, prosperidade e liberdade", continuava o relatório.

Uma reação a essa retórica é a indagação de como alguém poderia, falando seriamente, condenar as conseqüências letais do utopismo e, ao mesmo tempo, prometer a construção de uma era de paz e liberdade universais. Agora que conhecemos a dimensão integral do desastre produzido pela invasão do Iraque promovida por Georg W. Bush, é difícil não encarar este fiasco como uma conseqüência natural de um enorme fracasso no que diz respeito ao auto-conhecimento.

No seu novo livro, "Black Mass: Apocalyptic Religion and the Death of Utopia", ("Missa Negra: Religião Apocalíptica e a Morte da Utopia"), John Gray sugere que o instinto utopista na política moderna precisa ser entendido como uma espécie de impulso religioso sublimado. Existe uma linha direta de continuidade entre o pensamento religioso milenarista, que acredita em um fim dos tempos, quando todo o mal será expurgado do mundo, e visões políticas como o marxismo, que se propõem a resolver o enigma da História.

Os movimentos visionários seculares baseados ostensivamente em argumentos científicos deveriam na verdade ser vistos como mitos que adquirem o seu poder ao atender à necessidade humana de significados, um papel que antigamente era desempenhado pela religião. Gray argumenta que no fim das contas todas as utopias são uma expressão de fé, e não manifestações da razão, já que não existe nenhuma base racional para a idéia de que o ser humano seja capaz de transformar radicalmente a sua condição.

Em livros anteriores, Gray se posicionou como um crítico ferrenho das políticas contemporâneas de livre mercado, e na sua obra mais recente ele constrói o seu discurso com base nesta sua argumentação anterior, ao identificar a forma como o pensamento utópico tomou conta da direita política anglo-americana. O maior desprezo manifestado por Gray em "Black Mass" é dirigido ao neo-conservadorismo, e à invasão do Iraque que foi fruto deste movimento.

Após o 11 de setembro de 2001, o presidente Bush lançou uma campanha repleta de tons milenaristas explícitos - com o objetivo de livrar o mundo do mal. Fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos se uniram aos neoconservadores que acreditavam que a democracia poderia ser estabelecida em todo o mundo por meio da força.

Mas, para mim, a narrativa de Gray sobre os fatos que provocaram a guerra no Iraque parecem supervalorizar o papel desempenhado pelo pensamento neoconservador. Muitos dos integrantes do governo estadunidense que apoiaram a invasão, particularmente a facção agregada em torno de Dick Cheney, pouco se importava com as idéias universais de democracia e estavam preocupados basicamente em remover um líder que desafiou os Estados Unidos.

Após o desastre do Iraque, Gray defende um retorno ao realismo. Mas se é verdade que o realismo é um corretivo necessário para o idealismo utópico, é igualmente verdadeiro o fato de que há a probabilidade de o realismo sem controles implicar em um estreitamento da possibilidade política. Caso não se recorra um pouco aos valores universais, não existe um ponto de vista que desafie práticas injustas que são geralmente tidas como naturais.

Gray fala sobre a abolição do tráfico de escravos, afirmando que aquele não foi um projeto utópico porque não era inerentemente irrealizável. Mas existe um ponto intermediário entre os projetos utópicos que são claramente impossíveis de se alcançar e um realismo que luta apenas para aliviar os males inevitáveis de um mundo imperfeito. Esse terreno intermediário, mapeado por gerações sucessivas de idealistas durante o século 20, é o tema central de um livro recente do historiador cultural Jay Winter, "Dreams of Peace and Freedom" ("Sonhos de Paz e Liberdade").

O livro de Winter traz o subtítulo "Utopian Moments in the Twentieth Century" ("Momentos Utópicos no Século 20"). Ele contrapõe as "pequenas utopias" às "grandes utopias" que envolveram matanças maciças. Winter descreve estas utopias como visões de transformação parcial que "esboçaram um mundo muito diferente daquele no qual vivemos, mas do qual nem todo conflito social e nem toda opressão foram eliminados".

O livro de Winter constitui-se em um perfeito contraponto à obra de Gray porque ele afirma precisamente aquilo que Gray nega: que existe alguma coisa inerentemente valiosa na tradição visionária de pensamento político que pode ser isolada dos piores extremos da criminalidade utópica.

Os movimentos que Winter aborda se distribuem pelo século 20 e se encaixam perfeitamente em dois grupos, divididos pela Segunda Guerra Mundial. Na primeira parte do século, os seus pensadores escolhidos esboçaram projetos transformadores que se baseavam em nação ou classe social e que tinham como objetivo, acima de tudo, assegurar a paz. O ideal de "auto-determinação" de Woodrow Wilson é um exemplo disso. Outros, atualmente menos lembrados, procuraram evitar a guerra com a promoção do entendimento internacional por meio da fotografia, com a mobilização de partidos socialistas de todo o mundo, ou, ainda, com o ideal de progresso científico. É claro que todos esses projetos fracassaram.

Winter argumenta que após 1945 os projetos visionários passaram a ter metas mais limitadas, e apresentaram a tendência de se basear em noções "descentralizadas" de direitos individuais e de sociedade civil. Entre esses projetos se enquadram o movimento pelos direitos humanos, a teologia da libertação, as rebeliões estudantis de 1968, as campanhas de defesa do meio-ambiente, o movimento pelos direitos das mulheres e pela justiça internacional. Embora Winter admita que esses movimentos tiveram sucesso limitado, alguns deles continuam a moldar o mundo no qual vivemos.

Como resposta aos potenciais excessos da política utópica, é possível imaginar duas formas de oposição. A primeira, que Gray endossa, é uma oposição de temperamento. Ela propõe uma visão cética, que está alerta para os perigos da transformação política radical. Esse ponto de vista é um corretivo para os maiores rasgos de auto-ilusão que podem (conforme Jay Winter reconhece) afetar todos os movimentos que alegam falar em nove dos direitos da humanidade.

Mas tal visão ceticista também implica no risco de que se se acabe com a perspectiva de qualquer transformação séria das circunstâncias políticas, e sem essa esperança, até mesmo as reformas moderadas podem não ganhar força. Além do mais, o realista não é capaz de apresentar nenhum argumento intelectual substantivo contra os movimentos utópicos, além da tentativa de persuadi-los a observar mais atentamente os possíveis efeitos de suas ações.

A segunda forma de oposição é uma oposição intelectual que ataca os movimentos utópicos usando as próprias armas destes, ao questionar os valores que estes defendem. Contra a meta neoconservadora de democratização militante, ela afirma a importância da lei internacional. Para o regime totalitário que deporta e assassina minorias, ela declara que a dignidade humana e o direito a vida são invioláveis. A preservação do ambiente natural pode também ser um valor abstrato por ela defendido.

O ponto principal a respeito de tal oposição é que ela não evita a linguagem do idealismo político, mas invoca um sistema diferente de ideais. No fim das contas, ambas as formas de oposição são contrapesos necessários ao abuso de poder cometido em nome de um mundo ideal. Nenhuma por si só é suficiente.

Anthony Dworkin é diretor do Projeto Crimes de Guerra, uma organização sem fins lucrativos dedicada a elevar a consciência sobre a lei humanitária internacional. UOL

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