Carta de Moscou

Clementine Cecil*

O vestíbulo do restaurante Turandot é repleto de "devchonki" - bonecas russas com minissaias, com os cabelos caídos sobre as costas, recostadas nos braços de homens poderosos. Lá fora faz frio, mas do restaurante vem um aroma morno de temperos orientais e a melodia suave de uma harpa tocada por uma garota que usa uma peruca branca tremulante no estilo do século 18. Este é o mais recente restaurante da moda em Moscou, e a alegria das classes dominantes da Rússia.

Os meus colegas e eu somos conduzidos a uma mesa próxima à entrada. Alguns segundos após nos sentarmos, o prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov, entra no local com a sua mulher, Yelena Baturina, uma magnata do setor imobiliário e a primeira mulher bilionária no período pós-soviético. Logo juntam-se a eles vários grandes empresários e membros do governo federal. Começo a me sentir como se estivesse no baile de Satã no romance de Bulgakov, "O Mestre e Margarida".

O nosso garçom movimenta-se, usando a sua peruca branca. "Eu a vi observando a decoração", diz o rapaz. "Só queria lhe dizer que ela é genuína". É uma mentira deslavada, já que, com a exceção de alguns poucos quadros genuínos na parede, quase tudo mais não passa de imitação.

O Turandot surgiu após um dos mais polêmicos episódios de demolição ocorridos em Moscou nos últimos anos. O local, a avenida Tverskoi, era ocupado por um conjunto de elegantes construções neoclássicas conhecidas como Quarteirão Rimsky-Korsakov, em uma alusão a um amante de Catarina, a Grande. O conjunto foi em uma lista de monumentos federais. Mas, em 2002, a vice-ministra da Cultura, Natalya Dementyeva, declarou que três dos seis prédios do local seriam removidos da lista. Tal decisão precisaria ser tomada em nível de gabinete, o que tornou a ação de Dementyeva ilegal. No entanto, em breve só restavam as fachadas dos prédios.

O edifício é uma das várias réplicas que recentemente substituíram construções históricas em Moscou. Somente nos últimos cinco anos, mais de mil edifícios históricos e cerca de 200 monumentos arquitetônicos foram demolidos. Luzhkov está supervisionando um boom no setor de construção em uma cidade que, em um período de 15 anos, deixou de ser uma capital soviética suja e mal iluminada para tornar-se um esfuziante monumento aos petrodólares.

Em uma Rússia cada vez mais nacionalista, Luzhkov é elogiado por ter resgatado dos comunistas a história de Moscou, mas neste processo ele está reescrevendo tal história. Essas brilhantes recriações enganosas de um glamoroso passado tsarista têm por objetivo apagar as memórias da pobreza do comunismo e persuadir-nos a esquecer o caos da década de 1990. Elas parecem dizer: "Olhem! Somos uma nobre nação que voltou aos trilhos!".

Luzhkov "concluiu" recentemente o Tsaritsyno no sul de Moscou. As obras deste palácio de tijolos do século 18 foram iniciadas por Catarina, a Grande, mas nunca foram concluídas. O palácio transformou-se em uma ruína romântica e em um monumento aos caprichos imperiais, sendo adorado pelos moscovitas que gostavam de perambular pelo seu grande parque. Luzhkov, ignorando o conselho dos especialistas e contornando o protocolo necessário, ordenou que a construção fosse terminada em concreto reforçado, e que o parque fosse submetido a um novo trabalho de jardinagem, transformando-se em uma fantasia kitsch. Em uma cidade que está mudando tão rapidamente que muitos dos seus próprios moradores não mais reconhecem partes dela, tais transformações são traumáticas. Muitos moscovitas sentem-se esmagados pela megalomania do prefeito.

Em maio de 2004, juntamente com dois outros jornalistas estrangeiros, eu criei a MAPS (Sociedade Para a Preservação da Arquitetura de Moscou, na sigla em inglês), a fim de atrair a atenção internacional para os perigos enfrentados pela herança arquitetônica de Moscou. Sabíamos que a nossa condição de estrangeiros constituía-se em uma ferramenta poderosa e planejamos utilizá-la integralmente, porque, apesar do nacionalismo na Rússia e da insistência das autoridades que não dão bola para a crítica internacional, os russos são sensíveis quando o que está em jogo é a sua imagem.

Em maio último, juntamente com a organização britânica SAVE Europe's Heritage, a MAPS divulgou um relatório bilíngüe, "A Herança de Moscou em um Ponto de Crise". Embora a reação da imprensa russa tenha sido em geral favorável, houve quem jogasse lama sobre nós. Mikhail Moskvin-Tarkhanov, um deputado da Duma de Moscou, me acusou de seguir as ordens do Yabloko, o partido liberal da Rússia, e uma outra colaboradora do projeto de ter ido para a cama com um ex-oponente de Luzhkov.

O debate gerado pelo relatório desfez parte dos danos causados por um recente artigo de Simon Jenkins, publicado no jornal "The Guardian", que não só continha vários erros quanto aos fatos, como também afirmava perversamente que a Moscou de Luzhkov é um exemplo a ser seguido por Londres.

Parece que a campanha de Jenkins contra o modernismo se reduz a elogiar os prédios imitativos que surgem em Moscou. O artigo foi traduzido para o russo e atualmente é citado com prazer pelas autoridades como uma justificativa para novas destruições das construções históricas. Jornalistas como Jenkins parecem não perceber como a questão do patrimônio histórico na Rússia de hoje assumiu contornos políticos - e tampouco o papel vital que a pressão internacional é capaz de desempenhar na campanha para salvar as construções históricas do país.

Enquanto estávamos sentados no Turandot, as palavras de Andrei Batalov, o principal arquiteto do Kremlin, vieram-me à mente: "O setor de construções é como um monstro gigantesco: quanto maior ele se torna, maiores são os prédios que precisa consumir". Os homens poderosos à nossa volta, servidos por homens vestidos com trajes do século 18, se esbaldavam na fantasia de um passado que eles nunca viveram. Tomando a nossa (não muito boa) sopa, pensávamos em qual seria a próxima parte da herança cultural de Moscou a ser devorada pelos nossos vizinhos de mesa no restaurante.

* Clementine Cecil é uma ex-correspondente em Moscou do jornal "The Times" UOL

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