Perdendo a batalha por Bagdá

Nibras Kazimi*

O mapa político sunita do Iraque sofre um abalo tectônico que está sufocando os radicais e dando poder aos poucos "moderados" - no sentido iraquiano da palavra - que aceitaram a histórica e hoje plenamente estabelecida ascensão política dos xiitas.

Três grupos sunitas chegaram ao Parlamento iraquiano nas eleições de dezembro de 2005: a Frente do Consenso (44 assentos), a Frente do Diálogo Nacional (11) e o bloco Reconciliação e Libertação (3).

Várias figuras importantes desses blocos agora foram afastadas da cena política. Do bloco Consenso, Adnan al-Duleimi foi removido por votação da presidência da bancada parlamentar no início de junho. Ele passa seu tempo em Amã, juntamente com Khalaf al-Alayan, chefe da Frente do Diálogo Nacional, que é acusado de cumplicidade em um atentado suicida ao Parlamento em abril. A impressão química dos explosivos usados pelo terrorista combinava com explosivos encontrados na residência de al-Alayan durante uma recente batida americana.

Enquanto isso, o chefe do bloco Reconciliação e Libertação, Mishaan al-Jubouri, perdeu a imunidade parlamentar em outubro passado e em julho foi condenado à revelia a 15 anos de prisão por acusações de corrupção. Agora ele está escondido em Damasco.

O presidente do Parlamento, Mahmoud al-Mashhadani, outra figura do Consenso, foi inicialmente colocado no principal cargo legislativo do novo Iraque como parte de um acordo de divisão de poder que empossou o primeiro-ministro Nouri al-Maliki. Hoje Mashhadani também está de saída, ostensivamente por seu comportamento brutal durante o mandato de um ano. O incidente que precipitou sua remoção foi o selvagem espancamento aplicado por seus seguranças a um colega parlamentar.

Todos esses nomes são associados à retórica da linha-dura sunita contra a nova dominação xiita no governo, na economia e nos serviços de segurança. Naturalmente eles estão gritando, ao ver suas fortunas ruírem em conseqüência direta de um complô xiita para minar a liderança sunita que foi colocada no poder pelos votos.

O que falta nessa imagem é que muitas vezes são os próprios aliados e seguidores da linha-dura que planejaram sua remoção. Os sunitas moderados parecem ter concluído que seu futuro está em adaptar-se às enormes mudanças que ocorreram quando um governo interino finalmente substituiu o regime de Saddam Hussein, 15 meses depois da invasão. Os novos rostos em cena, como o substituto de Duleimi na chefia do bloco Consenso, Ayad al-Samarrae, contentam-se em ser parceiros juniores na direção do país, e como tal são considerados membros do time pela liderança xiita.

Essas mudanças não estão acontecendo no vácuo: elas vêm da percepção de que a carta mais valiosa na posição de barganha sunita - a resistência da rebelião sunita - está prestes a expirar.

A liderança política sunita supostamente exerceria um papel no governo como negociadores em nome dos insurgentes. Em troca, garantiria para sua comunidade uma fatia da torta política desproporcional a sua porcentagem da população, 15% a 20%. Tendo monopolizado o Estado e grande parte da economia desde o tempo dos otomanos, da monarquia e durante toda a era Saddam, o choque de perder todo esse poder para os xiitas - a classe inferior histórica - foi amarga demais para engolir.

Os sunitas raciocinaram que se pudessem aproveitar o rápido período de controle dos EUA talvez conseguissem reverter o tempo para uma época em que a violência sunita importava mais que o número de xiitas.

Apesar de todas as conversas atuais em Washington sobre uma rápida redução de tropas, os sunitas finalmente entenderam que os aliados americanos do Iraque não vão deixar tão cedo esse país crucial para os wahabitas e os baathistas, e que a primazia xiita está lá para ficar. Enquanto isso, a violência sunita não conseguiu forçar os americanos a sentar na mesa de negociação de modo substancial em quatro anos, e parece cada vez menos provável que o faça.

Existem razões para o recente surto de violência entre os próprios jihadistas e destes contra os baathistas: com uma vitória real fora de vista, a divergência de ideologias e a concorrência pelos recursos e a influência cada vez menores passam ao primeiro plano. Enquanto isso, existe uma sensação geral de fadiga de batalha entre os sunitas leigos, que suportaram o peso da ruptura causada pela rebelião na vida cotidiana. O que se vê agora no nível da elite é o efeito moderador de tudo isso sobre a classe política sunita, que está votando para se acomodar à nova realidade.

O novo elenco de atores sunitas e a sensação de que a insurgência está vacilante reconfortaram os xiitas. Maliki está prestes a reformular radicalmente seu governo, e ao fazê-lo oferecerá ao sunitas do partido islâmico moderado (um componente chave do bloco Consenso) uma oportunidade "tudo ou nada" de ficar na coalizão xiita-curda que ele pretende armar. Vários políticos xiitas zombam do modo como as mesas viraram e dos sunitas ávidos para agradar.

* Nibras Kazimi é professor visitante no Hudson Institute, em Washington, D.C. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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