Diários de motocicleta

Alan Philps*

Antony Njuguna/Reuters - 9.set.2004

Nos Estados Unidos, a África não é mais o continente negro. Os melhores de Hollywood, incluindo George Clooney e Mia Farrow, abriram uma trilha para Darfur, seguidos por um crescente número de políticos. O mais recente filme de Clooney, "13 Homens e Um Novo Segredo", arrecadou US$ 10 milhões para ajudar refugiados que fugiram do massacre cometido pelo governo sudanês e por sua milícia Janjaweed. A "Vanity Fair", a bíblia das celebridades, dedicou sua edição de julho à África, enchendo as páginas com artigos positivos sobre a herança do continente e perspectivas resplandecentes.

É fácil satirizar a sobreposição de astros de cinema e os miseráveis do planeta. Mas apesar de todo papo furado das celebridades, algo está realmente acontecendo. O interesse americano em Darfur e a forte campanha popular por sanções sem dúvida impediram o governo sudanês de empregar os meios mais brutais - armas químicas e escravização de tribos inteiras - que foram usados em um conflito anterior no sul do país.

Como um repórter que cobre a África interpretaria isto? A conclusão melancólica deve ser de que celebridades impulsionam a história, particularmente se o terreno é dramático, como em Darfur. Também ajuda o fato do próximo presidente dos Estados Unidos poder ser Barack Obama, cujo pai é queniano.

Mas os correspondentes na África têm muito do que resmungar. Eles sofrem o inferno para relatar as guerras africanas, mas no final a história parece emoldurada pela política doméstica e pelo endosso de celebridades. Tim Butcher, ex-correspondente na África para o "Daily Telegraph", conhece bem tais frustrações. Ele estava trabalhando na África quando estourou a mãe de todas as guerras africanas, o conflito civil na República Democrática do Congo, que matou 4 milhões de pessoas desde seu início em 1996.

Mesmo após assinar um acordo de paz em 2002, dizem que 1.200 pessoas morrem por dia em conseqüência do combate. Nos últimos meses, há mais lutas no Congo do que em Darfur - sem contar o Oriente Médio.

No momento não sai muito disto nos jornais. A guerra no Congo é tão complexa - envolvendo exércitos de seis países vizinhos e uma série de interesses dúbios de mineração - que nunca conquistou a imaginação do público. As origens do conflito remontam o genocídio de Ruanda em 1994, quando os genocidas hutus com as mãos encharcadas de sangue fugiram em busca de segurança no Zaire (como a República Democrática do Congo era conhecida na época).

Em 1996, o novo governo de Ruanda decidiu esmagar o que restou da milícia hutu, a Interahamwe, e derrubar seu patrono, o presidente do Zaire, Mobutu Sese Seko - uma tarefa conseguida em seis meses. Mas o golpe de força de Ruanda abriu a porta para outros vizinhos, principalmente Angola, Zimbábue, Namíbia e Chade, que tomaram as partes ricas em minérios do país, extraindo quantidades fabulosas de diamante.

Esta é uma teoria que não pode ser rotulada de genocídio, ou ajustada a uma disputa global por poder de fácil compreensão, mas nos diz mais sobre os problemas da África do que Darfur ou Ruanda.

Butcher agora se vingou contra um mundo indiferente. Seu livro "Blood River: A Journey to Africa's Broken Heart" (Rio de sangue: uma jornada ao coração partido da África) fala de sua fascinação pelo Congo e de sua jornada ao longo do Rio Congo seguindo os passos de Henry Morton Stanley, o jornalista-aventureiro britânico. Todos diziam a Butcher que ele era louco em fazer esta viagem. Ninguém tinha feito tal jornada por décadas, muito menos um homem branco por conta própria. Viajando em uma moto de 100cc e em uma canoa, Butcher levou 44 dias para cobrir 2.011 km. Não havia estradas, trens ou barcos - nada exceto selva cheia de homens armados e esqueletos não enterrados.

Butcher encontrou um país "subdesenvolvido", com mais passado que futuro, e onde os raros trechos de asfalto são usados não para o trânsito de veículos, mas para afiar facões. Ele chegou a uma aldeia onde sua Yamaha foi recebida como o primeiro veículo motorizado em 20 anos. A floresta, não as cidades, oferece o refúgio mais seguro, e avós foram mais expostas à modernidade que seus netos.

Certo dia, Butcher embarcou em uma canoa no porto de Ubundu. Foi ali que Humphrey Bogart e Katharine Hepburn filmaram "Uma Aventura na África" em 1951. Naquela época era um local encantador e o único conflito era para conseguir um quarto com sacada. Hoje, mesmo após o chamado acordo de paz, é uma cidade vazia tomada pelo medo, e Butcher precisou partir às pressas. Será que Ubundu se tornará segura o suficiente para Clooney e Farrow refilmarem "Uma Aventura na África" lá? As chances parecem remotas.

* Alan Philps foi editor internacional do "Daily Telegraph" entre 2003 e 2006. George El Khouri Andolfato

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