Sem gravação

Robert Sandall*

Morteza Nikoubazl/Reuters - 21.dez.2005

Há uma história rodando pelos EUA que fala muito sobre o estado da indústria fonográfica. Uma jovem banda de rock parece ter decidido parar de vender seus CDs nos shows. Vender CDs foi, por muitos anos, uma boa forma de recuperar a margem que era levada pelo revendedor. Para essa banda, entretanto, perdeu o sentido quando descobriu que, vendendo CDs por US$ 10, estava prejudicando as vendas de suas camisetas de US$ 20.

Há dois pontos para se observar aqui. Primeiro: que uma simples camiseta com um logotipo estampado, provavelmente produzida por centavos em uma fabriqueta no terceiro mundo, agora custa o dobro de um disco de música prístina digital altamente trabalhada, gravada em um estúdio de ponta no Ocidente. Segundo: a maior parte das bandas, independentemente do sucesso, agora tira seu dinheiro do trabalho ao vivo e das oportunidades de merchandising associadas a ele, em vez dos discos.

A queda catastrófica no valor da música gravada, particularmente no preço que os consumidores estão dispostos a pagar por ela, foi duramente sentida. A indústria, que durante anos parecia possuir uma licença para fabricar dinheiro, está cambaleando. Os "quatro grandes" selos - Sony/BMG, Warner Music, EMI e Universal - embarcaram nos últimos anos em operações de corte de custos com importante redução de pessoal: a divisão de música gravada da EMI encolheu em quase a metade desde 2001, de 9.388 funcionários no mundo todo para 4.818 hoje.

Esse declínio não passou despercebido pelos mercados financeiros: a EMI está sendo comprada pelo grupo Terra Firma, por US$ 6,5 bilhões (em torno de R$ 13 bilhões). Logo que a oferta foi aceita, a Terra Firma aparentemente entrou em discussões com a Warner para livrar-se da divisão de música gravada da EMI. O braço da EMI que interessava a Terra Firma era o que publicava músicas, que é o maior do mundo. Este é considerado uma aposta segura porque a exploração de direitos autorais não é sujeita às mesmas condições que o processo de se fazer um hit. Além de receber cerca de 14% dos lucros sobre qualquer venda de CD, o editor coloca a colher em outros pratos, como as taxas de licenciamentos para filmes, propaganda ou qualquer outra das várias saídas que a música tem hoje.

O mercado para a música gravada está em rápido declínio. No primeiro trimestre de 2007, o mercado para os 200 CDs mais vendidos no Reino Unido encolheu em 20% comparado com o mesmo período em 2006. Nos EUA, as vendas de CDs em 2007 caíram 15%; na França, 25%; e no Canadá, 35%. O mercado alemão, que já foi o maior da Europa, agora não ultrapassa o da Holanda.

O mercado para downloads digitais arrecadou cerca de US$ 981 milhões (aproximadamente R$ 1,96 bilhão) nos EUA no ano passado, cerca de um décimo do valor do mercado de CDs. Ainda assim, a grande esperança dos selos é que a queda na demanda por formatos físicos seja contrabalanceada pelo crescimento no mercado de downloads. Isso parece loucamente otimista. Os números mais recentes dos EUA revelam que, apesar de os downloads pagos serem cada vez mais populares - subindo 75% em 2006 - o aumento na demanda está diminuindo. E enquanto o valor total das vendas de música em todos os formatos permaneceu mais ou menos estável em 2004 e 2005, caiu em mais de 6% em 2006.

O CD, de algumas formas, continha as sementes de sua própria destruição. Um dos poucos grandes nomes da indústria a levantar sua voz contra o formato digital em seus primeiros dias foi o falecido Maurice Oberstein, diretor da Polygram UK (que depois se tornou Universal). "Vocês compreendem que estamos entregando nossas gravações master?", perguntou em um evento da indústria. Na época, todo mundo estava ocupado demais contando dinheiro para ouvir. O advento dos CDs graváveis, entretanto, gerou um mercado negro de pirataria nos anos 90, e a teoria de Oberstein provou-se certa.

Qualquer um que tivesse um CD poderia de fato usá-lo como as empresas fonográficas faziam tradicionalmente com suas gravações master: clonar milhares de outros, rapidamente, usando um kit disponível em qualquer cidade. Em casa, os gravadores de CD de computadores simplificaram a reprodução em segundos. Mercados em desenvolvimento na América do Sul e no sudeste asiático colapsaram sob o peso das cópias baratas. O maior dano foi a perda do mercado alemão. No espaço de cinco anos, os 82 milhões de alemães tornaram-se uma nação de copiadores de CDs, pagando centavos por discos que antes custavam cerca de US$ 28 (R$ 56).

Ainda assim, o mercado no resto do Ocidente, apesar de não exatamente próspero, conseguiu se segurar.

O outro desdobramento a abalar a indústria fonográfica foi o surgimento, no final dos anos 90, de sites de "compartilhamento de arquivos" ilegais, como o Napster. A pirataria online, freqüentemente identificada pela mídia como destruidora do ramo de CDs, parecia uma ameaça na época, apesar de ser difícil encontrar dados sólidos para provar que prejudicava as vendas.

A chegada do compartilhamento de arquivos ilegal coincidiu com um aumento de vendas legítimas de músicas gravadas nos três maiores mercados: EUA, Japão e Reino Unido. Aqueles que compartilhavam arquivos ilegalmente alegaram que suas atividades não prejudicavam as vendas de música mais do que a chegada da rádio gratuita nos anos 30.
Em vez disso, foi a era do iTunes - a criação de um comércio legítimo crescente online de música barata - que coincidiu com a queda nas vendas de CDs. A popularidade crescente de tocadores de MP3 baratos, especialmente o iPod da Apple, parece ter tornado o CD o equivalente do século 21 da goma-laca - precursora do vinil.

A renovada apreciação da fonte comunitária de se fazer e ouvir música deve estar próxima da raiz dessa transformação do ramo da música. Enquanto estéreos pessoais e tocadores de MP3 cresceram em popularidade, também cresceu a apreciação que a música não é apenas algo que entra pelos ouvidos. O guitarrista da banda americana Anthrax, de rock pesado, expressou a situação com bastante clareza: "Nosso disco é o cardápio; o show é a refeição".

Em seu livro "e-Topia", William Mitchell relata o valor crescente da experiência compartilhada à natureza isoladora dos mundos eletrônicos ou virtuais. "Ao conduzir nossas transações diárias, vamos nos considerar constantemente os benefícios dos diferentes graus de presença que agora estão disponíveis para nós e pesando-os contra os custos", escreve. Os fãs de música parecem ter concluído que estar no mesmo lugar e tempo que uma apresentação ao vivo é a presença mais rara e preciosa de todas.

* Robert Sandall é jornalista, divulgador e crítico. Ele foi diretor de comunicações da Virgin Records de 1996 a 2002. Deborah Weinberg

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